Bairros

Eles vão à universidade

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Renan Casal

André Dias de Oliveira e Reinaldo Cece encontraram na prisão a oportunidade para voltar a estudar

Depois do erro cometido, uma nova oportunidade. Nos bancos das universidades, reeducandos do Centro de Progressão Penitenciária Professor Noé Azevedo (CPP 3) de Bauru encontraram um motivo para planejar o retorno à vida livre longe da criminalidade.

Atualmente, três deles estão matriculados em cursos superiores oferecidos em instituições privadas da cidade. Por conta das boas notas obtidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), conseguiram bolsa junto ao Programa Universidade Para Todos (ProUni) e, por este motivo, têm os estudos custeados pelo governo federal.

“Enquanto se dedicam ao curso, eles se distanciam, cada vez mais, das dificuldades do meio carcerário e das suas realidades pregressas. É, sem dúvida, um importante instrumento de ressocialização, para que saiam daqui melhores do que quando entraram”, analisa o diretor da unidade, Alex dos Santos Souza.

Até hoje, nove reeducandos do CPP 3 já se matricularam em cursos superiores de Bauru, dentro de um projeto iniciado na unidade em 2011. Um deles é André Dias de Oliveira, 30 anos, condenado por roubo e matriculado no primeiro ano da faculdade de enfermagem. Ele espera concluir o curso no final de 2017, quando já deverá estar em liberdade.

“Sempre quis trabalhar na área de saúde. Mas acabei sendo preso e, aqui, descobri que poderia realizar esse meu desejo. Sei que, quando sair, vai ser difícil encontrar emprego por causa da minha condição. E, por isso, sei que vou precisar ter o dobro da capacidade das demais pessoas para conquistar meu espaço”, pondera.

Dentro da penitenciária, André já atuou como monitor de biblioteca e, hoje, trabalha para uma empresa fabricante de embalagem de pizzas instalada nas dependências da penitenciária. O tempo que o serviço lhe toma e a ausência do recurso da Internet, ele assegura, não o impedem de conseguir boas notas nas provas e trabalhos escolares.

“Até porque, nos finais de semana, não posso fazer o que as pessoas normalmente fazem. Então, tenho bastante tempo para estudar”, diz. O colega Reinaldo Cece, 41 anos, também ressalta que tem conseguido conduzir os estudos sem grandes percalços.

Preconceito

Aluno do segundo ano de pedagogia, ele diz, inclusive, que o relacionamento com os colegas de faculdade tem sido bastante tranquilo, embora nem todos saibam que ele seja reeducando do CPP. “Agora, com a reportagem, vão saber, né? Mas, às vezes, o preconceito está na gente. A gente usa tornozeleira (eletrônica, sempre que saem da unidade) e fica com medo do que o pessoal vai dizer, mas, na verdade, isso não é um problema”, analisa.

Condenado por tráfico de drogas, Reinaldo conta que pretende retornar à sua cidade de origem, Lucélia, assim que se formar e reconquistar a liberdade.

“Depois, ainda quero fazer o curso de direito, que é meu grande sonho. Mas estou dando um passo de cada vez. A pedagogia já está me dando um grande conhecimento. Minhas perspectivas mudaram completamente”, observa.

Com autorização judicial, os reeducandos estudam no período noturno e custeiam o próprio transporte para irem e voltarem da faculdade. A cada 12 horas dentro da sala de aula, eles têm direito à redução de suas penas em um dia. A mesma remissão também é concedida a cada três dias de trabalho.

 

 

Apenas CPP 3 tem presos na faculdade

Dos três centros de progressão penitenciária de Bauru, apenas o CPP 3 possui reeducandos inseridos no ensino superior. Não se trata de uma mera coincidência.

Em 2011, a unidade iniciou um projeto para incentivar os presos a prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como forma de conseguirem bolsa – integral ou parcial – junto ao Programa Universidade Para Todos (ProUni). “Fizemos um curso preparatório intensivo e, naquele ano, 14 reeducandos conseguiram nota suficiente para ter a bolsa. Ficamos surpresos com o resultado e isso nos estimulou a fazer essa preparação de maneira permanente”, conta o diretor Alex dos Santos Souza.

Desde então, nove detentos já se matricularam nas instituições de ensino superior de Bauru, sendo que um deles obteve liberdade recentemente. O décimo universitário, já aprovado para cursar faculdade, aguarda autorização judicial para iniciar os estudos.


Exemplo poderá estimular estudo entre reeducandos

Dos 3.633 reeducandos que estão nas unidades de regime semiaberto de Bauru, apenas três estão matriculados em cursos superiores. O índice, de apenas 0,08%, é bastante baixo, mas Alex dos Santos Souza, diretor do CCP 3 (onde todos os três universitários estão), acredita que o exemplo poderá estimular mais iniciativas neste sentido.

“Os que entram (na faculdade) se tornam referência para os demais, que começam a acreditar que também podem prestar a prova. O interesse é grande e não criamos nenhum tipo de obstáculo, porque a gente acredita que esse desafio faz parte do processo de ressocialização”, analisa.

Inserção no mercado

Além de três estudantes universitários, o CPP 3 conta com 276 presos inseridos no mercado de trabalho, contratados por empresas instaladas dentro ou fora da unidade, segundo dados da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Ao todo, o centro abriga 1.113 reeducandos, sendo a grande maioria participa dos cursos profissionalizantes ou frequenta as aulas dos ensinos fundamental e médio, oferecidos dentro da própria unidade.

Os três centros de progressão penitenciária somam 3.633 homens, sendo que 2.004 (55%) deles estão no mercado de trabalho.

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