Tristeza para alguns analistas e espanto para a maioria: foram as reações mais notadas no mercado após a divulgação da notícia do "surpreendente" aumento de 1,5% do PIB no segundo trimestre sobre o primeiro trimestre de 2013, consideravelmente maior que o crescimento do "pibinho" (0,1%), no mesmo período de 2012 . Triste reação à boa notícia e não apenas porque foi superior a todas as previsões do mercado. O efeito que produziu sugere uma dissonância entre o enorme pessimismo que a maioria dos "analistas do mercado" tem manifestado e a realidade que estamos vivendo.
Houve, sem dúvida, uma deterioração da taxa anual de crescimento da economia, quando medida no exercício que se encerra no primeiro semestre: 3,8% em 2011; 0,6% em 2012 e 2,6% em 2013. É visível, por outro lado, que a taxa de crescimento entre cada trimestre sobre seu homólogo do ano anterior vem se acelerando, como se vê no quadro abaixo:
Crescimento sobre o mesmo
trimestre do ano anterior
1º/2012 0,8%
2º/2012 0,5%
3º/2012 0,9%
4º/2012 1,4%
1º/2013 1,9%
2º/2013 3,3%
Fonte: IBGE; Elaboração: Ideias.Consultoria
Um fato importante é que quando analisamos o aumento da taxa entre o 2º trimestre de 2012 e o 2º trimestre de 2013, pelo lado da oferta, a recuperação da indústria, de menos 2,4% para mais 2,8%, explica quase metade do diferencial, parecido com o efeito do crescimento da agropecuária. E, quando olhamos pelo lado da demanda, vemos uma acomodação do consumo privado e público. O fundamental foi o aumento de formação bruta de capital fixo, de menos 2,7% para mais 9,0%, e do comércio exterior. Houve um aumento da componente exportação e uma diminuição da importação. Estes fatores poderão continuar a jogar um papel importante na continuidade da aceleração do crescimento desde que: 1) prossiga o esforço para melhorar a relação de confiança entre os setores público e privado; 2) as políticas fiscal e monetária atendam aos objetivos anunciados; 3) a política cambial, combinada com mais ajustadas tarifas efetivas, estimule as exportações no médio prazo e reduza as importações no curto; e 4) a economia mundial acelere o seu crescimento, estímulo coadjuvante importante para nossas exportações.
No curto prazo a situação é mais complicada. Tendo crescido 2,6% no primeiro semestre de 2013 sobre o de 2012, as condições para um crescimento robusto no ano, obviamente, não estão asseguradas. O que pode mudar essa perspectiva é um enorme sucesso nos leilões de infraestrutura e energia e um comportamento amigável de governo, que coopte o "espírito animal" dos empresários com uma política pró-mercado e não com subsídios. Com um crescimento de 2% no segundo semestre (a repetição do 1,0% no 3º e 4º trimestres) o que hoje ainda parece difícil, o crescimento do PIB em 2013 será parecido com 3%.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC