As queixas da presidente Dilma dirigidas diretamente ao seu colega norte-americano Barack Obama, sobre denúncias de espionagens em cima de informações do governo brasileiro, traz à tona um debate até então negligenciado pela elite deste país. Quando McLuhan criou o conceito de "aldeia global" nos anos 60, ele queria simplesmente dizer que o progresso tecnológico estava reduzindo todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma pequena comunidade. Nas esquinas dos bairros de Bauru os vizinhos ainda se encontram nas esquinas, depois da feira, para bisbilhotar a vida dos outros, ou discutir problemas comuns como as falhas na coleta de lixo ou a falta d´água.
O princípio que preside este conceito é o de mundo interligado, com estreitas relações econômicas, fruto da evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação (vulgo TIC). As tecnologias só fizeram por ampliar o que sai das bocas-de-matildes, de maneira a que todos fiquem sabendo das fofocas. Segredos não duram muito no mundo moderno, como também eram efêmeros na aldeia primitiva. Esta realidade tem seu lado positivo, pelo menos em teoria. A interligação entre as regiões do globo originaria poderosa teia de dependências mútuas e, assim, promoveria solidariedade e luta pelos mesmos ideais ? democracia, desenvolvimento sustentável, luta contra o terrorismo.
O desenvolvimento das TIC provocou mudanças profundas nas formas de produção, acesso e difusão da informação. E o impacto foi estrondoso: estima-se que atualmente sejam produzidos, diariamente, 2,5 quintilhões de bytes de informação no mundo. Isso equivale a 450 vezes o total armazenado na maior biblioteca do mudo, em Washington. Na Biblioteca do Congresso basta o usuário digitar "Jornal da Cidade, Bauru, Brazil" e imagens dos exemplares preservados irão aparecer na tela do computador, ainda que defasados no tempo. No Museu da Imprensa, há um painel com os nomes de todos os jornalistas do mundo que morreram no exercício profissional, ou em circunstâncias não bem esclarecidas. Lá está o nome do ex-companheiro do JC, Luiz Alberto Montenegro. Como souberam?
Muito mais do que simplesmente expandir de forma inédita a quantidade de dados circulando no mundo, a internet alterou sensivelmente a forma como nos relacionamos com a informação, com o conhecimento e, consequentemente, com os arquivos digitais. Acesso a eles é realizado com a ajuda de programas. Computadores são máquinas burras. Só conhecem 0 e o 1. Trabalham numa velocidade tal que, com combinações binárias é possível torná-las extensões do corpo humano e do sistema nervoso. Estes novos componentes da evolução humana Darwin nunca poderia ter imaginado. Homem e máquina passaram a conversar e se entender mediante uma linguagem de programação, o algoritmo. Esta palavra mágica nada mais é que uma receita que mostra os produtos necessários à execução de uma tarefa. Algoritmo é uma sequência lógica, finita e definida de instruções que devem ser seguidas para resolver um problema ou executar uma tarefa. Quem tem domínio tecnológico consegue qualquer informação. É possível, com conhecimentos acumulados navegar nos quintilhões de bytes e colher somente as informações que interessam. Mensagens trocadas entre Dilma e Lula, mesmo criptografadas, podem ser decodificadas pelo sistema de segurança, ou de espionagem. Bobagens já filtradas. Sempre foi assim, por outros métodos. Os ingleses interceptavam as cartas trocadas entre D. Pedro I e a Corte portuguesa. Sabiam eles que as relações cada vez mais tensas iriam culminar com a separação do Brasil do Reino. As informações interessavam para elaborar políticas visando preservar interesses econômicos. A correspondência era levada por navios de bandeira inglesa e as notícias chegavam a Londres, primeiro.
A soberania de dados e de informações do Brasil está, sim, ameaçada. Como sempre esteve. Os softwares utilizados para armazenar dados públicos são fechados, tendo seus códigos controlados por empresas estrangeiras. O mesmo se diz da telefonia e das transmissões por satélites. Governos periféricos dependem desses programas para seguir acessando e decodificando seus arquivos digitais. A perenidade, a longevidade e a segurança dos documentos públicos se tornam tema fundamental à democracia e soberania das nações. Quem detém informação, detém o poder. Fora disso só vamos receber desculpas polidas, cada vez que houver denúncia vazada por membro dissidente do próprio sistema-espião. Coisas do século 21. Um dia a gente chega.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC