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Um por todos e todos por um...

Por Bruno Freitas | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

Família Silva - Unidos na fila do banho e na disputa pelo cotrole remoto

? Família! Família! Papai, mamãe, titia... almoça junto todo dia. Nunca perde essa mania... ? Assim como diz a música de Arnaldo Antunes, a família Silva é aquela tipicamente brasileira, ou melhor, de uma ‘Bauru caipira’, que senta à mesa para almoçar e assistir TV.

No tempo acelerado em que vivemos atualmente, principalmente na era da tecnologia e da “comida rápida”, ainda encontramos situações que fogem dos padrões impostos pela sociedade. Como explicar que uma família tão grande, com 10 irmãos, realiza a façanha de estar mais próxima e, talvez, até mais unida do que famílias com apenas um ou dois filhos?

Para a família Silva, reunir todos para tirar uma foto, por exemplo, acaba se tornando um desafio. Afinal, além da matriarca Fátima, 49 anos, e de José Tarcísio, 51 anos, são 10 filhos, dois genros, uma nora e oito netos - um deles ainda nem nasceu, mas já é aguardado com ansiedade por todos.

Muitas palavras podem definir essa família, mas o conceito que mais se encaixa é mesmo o da união. “Adoro ver a casa cheia e todos se reunindo para os almoços de domingo”, conta Fátima.

De acordo com o filho Robson, 28 anos, que hoje é casado com a jornalista Regiane Marques, a mãe é, sobretudo, sinônimo de trabalho e amor aos filhos. “Ela trabalha desde a adolescência e sempre foi muito atenciosa com cada um de nós”, frisa.

Além de Robson, Rafaela, de 29 anos, e Roger, 34, são filhos do primeiro casamento de Fátima com Antônio, que faleceu em 2008.

A fila do banho

Os irmãos mais jovens, como Lucas, 16, Yan, 11, Emily, 8, Guilherme, 17, Antony, 9, Verônica Carolina, 20, e Vitor, 19, sempre encararam juntos a fila do chuveiro. “Tomar banho em uma casa com 12 pessoas e apenas um chuveiro era uma missão quase impossível, mas que sempre encaramos com muita descontração”, revela Robson.

E na hora de dormir? Segundo Fátima, eram dois quartos com cinco beliches cada um para a “criançada” dormir.

E para assistir televisão? Bem-humorado, Robson destaca que, apesar de haver três TVs na casa, quem mandava mesmo no controle remoto eram sempre os mais velhos. “Os mais novos podiam assistir os desenhos, claro, pelo menos até começarem os jogos de futebol e os filmes”, lembra.

Para a psicóloga Silvana Nunes Garcia Bormio, doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, que segue os conceitos da psicanálise, o grau de intimidade ou de sucesso das relações fraternas não é vinculado ao fator econômico. O que pode explicar o fato de que filhos de famílias mais simples, por exemplo, sejam mais unidos, talvez seja o fato de que o ser humano tem os olhos muito voltados para os fatores de compensação. “Já vi muitas famílias bem humildes onde os conflitos e rivalidades eram muitos”, frisa.

Em contrapartida, o diálogo entre um casal de irmãos, que se dividem para cuidar da casa, nem sempre é tão fácil e, apesar de morarem juntos, pouco se veem. É o caso de Ana Carolina Teófilo Gonçalves, 26 anos, e de Direito Rogério Teófilo Gonçalves, 24, cuja história você vai conhecer na página 3. Morando juntos, os irmãos tentam superar diferenças de personalidade e desentendimentos surgidos após a perda dos pais.

Irmãos tentam superar diferenças

Organizar as tarefas durante a semana acaba se tornando um desafio para a fisioterapeuta Ana Carolina Teófilo Gonçalves, 26, e o estudante de Direito Rogério Teófilo Gonçalves, 24, que só é solucionado por conta de mensagens de celular, bilhetes espalhados pela casa e recados no Facebook, justamente por cada um ter rotinas e horários de trabalho bem diferentes.

Divulgação

Os irmãos Rogério e Ana Carolina Teófilo Gonçalves 

“Apesar da mesma criação, somos muito diferentes. Eu tenho meu ritmo e ele não aceita, ele acha que tudo tem de ser do jeito dele. Acredito que a sociedade é muito paternalista e o homem ainda tem a última palavra. Eu não concordo”, diz Ana Carolina, com base na dificuldade de ambos chegarem a um acordo.

Apesar do amor entre irmãos, eles, inclusive, quando discutem, chegam a ficar semanas sem se falar. “Reconheço as qualidades dele, mas falta comunicação e compreensão de ambas as partes. Sempre nos estranhamos, e eu também tenho gênio forte e não aceito muita coisa. Ele não é muito diferente”, admite.

Para Rogério, o principal fator que impede a aproximação dos dois é a organização dos afazeres domésticos e a administração da casa. “Ela é muito esforçada e trabalhadora, mas me considero muito organizado e minha irmã, muitas vezes, não segue o meu ritmo. Isso tende a me irritar com frequência e as discussões diárias surgem a partir daí”, comenta o irmão.

A perda dos pais

Um dos fatores que podem explicar a falta de união e de laços mais estreitos de amizade entre Ana Carolina e Rogério é a súbita perda dos pais, que faleceram há pouco mais de três anos em decorrência de câncer.

“Mal nos recuperamos de um baque, há mais de três anos, quando nossa mãe Maria Imaculada havia morrido de câncer - do qual se tratava há algum tempo -, e um ano depois, sem esperarmos, a vida nos pregou uma nova peça e levou também o nosso pai, Vilson, da mesma forma”, desabafam Ana Carolina e Rogério.

“Tivemos que trabalhar para pagar cada centavo das mensalidades da faculdade, sem ajuda de ninguém”, revelam.

Rogério, que é o irmão mais novo, ressalta ainda que, após a morte dos pais, precisou acelerar processo de amadurecimento do dia para a noite, administrar os estudos, trabalho e uma casa. “O fato de sermos espíritas contribuiu para aceitarmos a perda, justamente pela nossa crença diante do que acontece após a morte”, explica.

No caso de Ana Carolina e Rogério, as brigas e a falta de diálogo não são sinônimos de ausência de amor. Quem explica isso é a psicóloga Silvana Bormio. Segundo ela, na idade adulta ocorre geralmente um distanciamento entre os irmãos.

“Cada um segue seu caminho, iniciando carreiras profissionais, fundando seu próprio núcleo familiar. Seus investimentos emocionais estão mais concentrados na construção de sua vida pessoal”, explica.

Silvana destaca que o vínculo fraterno, portanto, não é um simples derivado do vínculo com os pais, mas tem vida própria. Contribui para a atmosfera de intimidade e manutenção da unidade familiar no sentido da continuidade dos vínculos. Ainda segundo ela, quando há afinidade, os irmãos podem amenizar a dureza das obrigações. “Se, contudo, a rivalidade fraterna for exagerada, esses afetos estruturantes vão ser reprimidos e se tornar inalcançáveis. A convivência feliz entre os irmãos vai depender enormemente do legado parental, ou seja, do amor ao transicional, do respeito ao outro e da capacidade de aprender”, conclui.

“Perdas necessárias”

Superar a morte de um ente querido é sempre um desafio enorme, mas que precisa ser superado. O livro “Perdas Necessárias”, da autora e psicóloga norte-americana Judith Viorst, da Editora Melhoramentos, desenvolve muito bem a questão. Na obra, o tema não se refere apenas à morte de pessoas que amamos, às separações e às partidas, mas também à perda consciente ou inconsciente de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder.

E há ainda a perda de nosso próprio eu jovem, o eu que se julgava imune para sempre às rugas, invulnerável e imortal, ensinando também a alcançar a maturidade e o equilíbrio psicológico. Valor: R$ 49,00.

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