A Síria aceitou ontem uma proposta russa para abrir mão de suas armas químicas e ser poupada de um ataque norte-americano, mas sérias divergências entre Estados Unidos e Rússia podem obstruir uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) que sele o acordo.
A Casa Branca afirmou que continuará buscando autorização do Congresso para um ataque à Síria, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que o plano só dará certo se Washington e seus aliados descartarem a opção militar.
Em nota divulgada pela TV russa, o chanceler sírio, Walid al-Moualem, disse que o governo do presidente da Síria, Bashar al-Assad, está comprometido com a iniciativa de Moscou.
“Queremos aderir à convenção sobre a proibição de armas químicas. Estamos preparados para observar nossas obrigações em concordância com tal convenção, inclusive fornecendo todas as informações sobre essas armas”, disse Moualem.
“Estamos preparados para declarar a localização das armas químicas, parar a produção das armas químicas e mostrar essas instalações (de produção) a representantes da Rússia e de outros Estados membros da Organização das Nações Unidas.”
O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse que a proposta deveria ser avalizada pelo Conselho de Segurança da ONU “a fim de ter a confiança de que isso tem a força que deveria ter”.
Moscou já vetou três resoluções do Conselho que condenariam o governo sírio pelo conflito em curso há dois anos e meio no país.
Em declarações pela TV, Putin disse que a nova proposta “só poderá funcionar se escutarmos que o lado norte-americano e todos os que apoiam os Estados Unidos nesse sentido rejeitam o uso da força”.
Pressão
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e as principais autoridades de segurança nacional pediram ontem ao Congresso dos EUA que mantenha a pressão sobre a Síria, ao mesmo tempo em que Washington explora uma alternativa diplomática a um ataque militar que puna Damasco pelo suposto uso de armas químicas.
A possível solução diplomática freou a votação parlamentar para a autorização do uso da força, enquanto o governo pedia mais tempo para analisar uma proposta russa que colocaria o arsenal químico da Síria sob controle internacional.
Obama enfrenta forte resistência no Congresso nessa questão, e parlamentares pró e contra ação militar apontaram a proposta russa como uma possível solução, apesar do ceticismo sobre o seu sucesso.
Senadores republicanos e democratas começaram a redigir uma versão alterada da autorização do uso da força, dando um prazo para que a ONU assuma o controle das armas químicas.
Os secretários de Estado, John Kerry, e de Defesa, Chuck Hagel, disseram ao Congresso que a ameaça de ação militar é crucial para obrigar Assad a abrir mão das armas químicas.
Garoto de 10 anos passa o dia fazendo armas com o pai
Em Aleppo, Capital da província de mesmo nome, no norte da Síria, a rotina de Issa expõe o peso da guerra civil no dia a dia das crianças.
Aos dez anos, ele passa dez horas por dia ajudando o pai a fabricar munições e a consertar armamento pesado para o Exército Livre da Síria.
A Coalizão Nacional Síria (CNFROS), maior aliança opositora, informou que do início do conflito, em março de 2011, até 21 de agosto, 10.913 crianças foram mortas - 2.305 tinham menos de dez anos.
Ao todo, cerca de 100 mil pessoas morreram, dois milhões abandonaram o país e 4,2 milhões se deslocaram dentro dele.