Em apenas um mês, mudas de espécies características do cerrado começaram a brotar em uma área tomada por capim. O fenômeno, quase “mágico”, faz parte de um projeto inédito idealizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e que poderá se tornar referência para processos de reflorestamento para fins de compensação ambiental.
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Divulgação |
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O pequi e sua florada compõem o cenário do bioma |
Apenas com a transferência – da área desmatada para a área a ser recuperada - de troncos de árvores cortadas, folhas, galhos e raízes de espécies nativas, pesquisadores descobriram um método eficiente para conservação do cerrado. Com custo zero e sem a necessidade de manipulação desta biomassa, a técnica – denominada restauração ecológica - obteve resultados mais rápidos do que o plantio sistematizado de mudas. Trata-se de uma notícia a ser comemorada, especialmente na data de hoje, Dia Nacional do Cerrado.
O idealizador do projeto, Osmar Cavassan, conta que o estudo começou em outubro de 2010, quando a Unesp precisou suprimir uma área de cerrado para a construção de moradias estudantis, ao lado do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet). Todo o material retirado foi levado por caminhões até outro espaço, atrás do departamento de Educação Física da universidade, que estava tomado por braquiária, planta invasora utilizada em pastagens.
“Em um mês, começaram espontaneamente. Após três anos, já temos algumas árvores com cinco metros de altura. Já constatamos também a presença de aves e insetos – que ajudam a dispersar sementes - e até pegadas de mamíferos e rastros de serpentes”, comemora ele, que é professor de ecologia do departamento de ciências biológicas da Unesp de Bauru.
Ele conta que todas as árvores e arbustos que foram retirados da área inicial não foram replantados, apenas descartados no novo espaço, criando uma camada de biomassa de aproximadamente 1,5 metro de altura. Mesmo sem irrigação ou manejo – apenas com a ajuda das folhas e galhos que se decompuseram e se transformaram em adubo, sementes germinaram e raízes começaram a brotar.
Área ampliada
Outra boa notícia foi que os 6,2 mil metros quadrados de área original foram ampliados para 10 mil metros de vegetação regenerada. Mas, conforme destaca Cavassan, a técnica estabelece algumas restrições.
A primeira é de só pode ser aplicada quando há uma área de cerrado a ser suprimida, a pedido justificado de uma empresa, por exemplo, e com a anuência dos órgãos ambientais. Como a legislação exige que seja feita compensação ambiental em área quatro vezes maior, o método poderia ser utilizado para cumprir parte desta contrapartida.
Outra limitação é a necessidade de que o solo e o clima sejam semelhantes ao da área original, sob risco de grande parte das plantas nativas não voltarem a germinar. No caso do experimento da Unesp, as áreas são bastante próximas e os resultados tem se mostrado extremamente satisfatórios.
“Quando decidi iniciar o projeto, muita gente achou que não ia dar certo. Mas os resultados foram muito rápidos”, frisa Cavassan. De acordo com ele, não é possível prever quando a nova vegetação alcançará o nível de desenvolvimento do cerrado existente na região que foi desmatada.
Enquanto isso, o projeto bem sucedido continuará sendo apresentado em congressos, para que possa ser divulgado em outras partes do País. Na próxima semana, o estudo será demonstrado no 11º Congresso de Ecologia do Brasil, que será realizado em Porto Seguro (BA). Em meados deste ano, a técnica já havia sido apresentada em um encontro internacional, na Costa Rica.
João Rosan |
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Saguis fazem a festa com visitantes no Jardim Botânico |
Equipe
Para desenvolver seu projeto, o professor Osmar Cavassan contou com a ajuda de diversos estudantes da Unesp nestes últimos três anos. Atualmente, a equipe de pesquisadores é composta por quatro alunos de iniciação científica e outros dois grupos que trabalham paralelamente, estudando e catalogando o surgimento de aves e animais invertebrados.
9 milhões de metros quadrados preservados
Hoje, Bauru conta com cerca de 400 alqueires - ou 9,680 milhões de metros quadrados – de vegetação de cerrado preservada em três grandes áreas, além de outros 250 fragmentos menores espalhados pelas zonas urbanas e rural da cidade. As três maiores unidades de conservação, todas públicas, são a reserva legal do campus da Unesp de Bauru, o Jardim Botânico Municipal e a reserva ecológica da Sociedade Beneficente Enéas de Carvalho Aguiar, onde fica o Instituto Lauro de Souza Lima.
“Ao menos estas áreas tem grandes chances de continuarem sendo protegidas, por conta de estarem fortemente apoiadas por uma legislação bastante rígida”, destaca o professor Osmar Cavassan. De acordo com ele, apenas 1% do território paulista é coberto por cerrado, sendo que os maiores fragmentos estão localizados na região, principalmente em Bauru, Itirapina e Assis. Em sua origem, 22% do Estado foram ocupados por cerrado.
Inspiração na mata
Experiências semelhantes à do projeto da Unesp de Bauru vêm sendo realizadas já há algum tempo em áreas de mata atlântica e de araucária. Mas esta é a primeira vez no País que a restauração ecológica é aplicada com a utilização de espécies do cerrado.
O professor Osmar Cavassan explica que a dificuldade para o sucesso da técnica é maior, já que a vegetação de cerrado possui sistemas de raízes mais complexos e exigência de condições específicas de solo, entre outras características.
“Por este motivo, o simples plantio de espécies para reflorestamento não tem surtido o efeito desejado. Pelo que pudemos perceber, a simples transferência da biomassa de um lugar para outro é mais rápida, efetiva e barata do que o plantio, que depende de coleta de sementes, irrigação e combate a pragas, entre outras coisas”, observa.
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