Política

Falta de plano encurta vida do aterro

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

Vereadores visitaram o aterro sanitário de Bauru, na tarde de ontem, acompanhados de Nico Mondelli

Bauru não fez a lição de casa e não possui o Plano Municipal de Resíduos Sólidos, que deveria estar pronto desde agosto de 2012. Mais de um ano depois, a inexistência de uma política escanara os efeitos negativos práticos: o governo não sabe como vai cumprir diretrizes importantes previstas pelo plano nacional, que dobrariam a vida útil do aterro sanitário.

A estimativa da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) é que o aterro municipal tenha capacidade para receber mais 200 mil toneladas de lixo. Atualmente, em média, 8 mil toneladas são enterradas no local todos os meses, o que garantiria sua operação por mais dois anos e um mês.

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos prevê que, a partir de agosto do ano que vem, apenas rejeitos possam ser destinados a aterros, ou seja, aqueles resíduos cujas todas as possibilidades de reaproveitamento ou reciclagem já tiverem sido esgotadas e não houver solução final para o item ou parte dele.

Assessora técnica da Emdurb, Alessandra Pinezi explica que restos de alimentos e papel higiênico usado são alguns exemplos do que pode ser considerado rejeito.

De acordo com Nico Mondelli, presidente da Emdurb, a destinação exclusiva de rejeitos ao aterro reduziria em 55% o volume de lixo enterrado em Bauru. A partir disso, admite a possibilidade de maior sobrevida para o local. “Levando metade do lixo, teríamos duas vezes mais tempo”.

O prefeito – ambientalista – Rodrigo Agostinho (PMDB) tenta minimizar o problema, alegando que nenhuma cidade de médio porte vai conseguir evitar que materiais passíveis de reaproveitamento ou reciclagem sejam destinados a aterros já a partir de 2014.

O problema, porém, é que Bauru ainda não sabe quais tecnologias ou medidas vai adotar para, ao menos, se aproximar do cenário idealizado pela política nacional de resíduos sólidos. Segundo o prefeito, o atrasado plano municipal é que vai apontar esses caminhos.

“A consultoria que vamos contratar vai nos dizer, entre outras coisas, se valerá à pena a construção de uma usina de triagem no próprio aterro. Em outros lugares, existe grande dificuldade para contratação de mão de obra”, pontua Rodrigo.


Gargalo: coleta seletiva

Para minimizar a gravidade da ausência de um plano municipal de resíduos, Rodrigo Agostinho alega que, até o final deste ano, pretende expandir a coleta seletiva para 100% da área urbana. Atualmente, a abrangência já chega a mais de 80% das residências.

Apesar disso, o volume de lixo reciclável coletado pelo serviço é irrisório: 160 toneladas ao mês, 2% do total destinado ao aterro municipal.

A única cooperativa que tria o material da coleta seletiva dá conta apenas de 80 toneladas. O restante volta para o aterro ou é triado por reeducandos no Centro de Progressão Penitenciária 3 (CPP 3), o antigo IPA. De acordo com Nico Mondelli, está em fase final a tramitação de convênio que vai formalizar a parceria.

Para resolver o problema, que se agravaria com o aumento do volume de lixo da coleta seletiva sob as atuais condições, Rodrigo Agostinho propõe criar novos centros de triagem, mas a escassez de mão de obra voltaria a ser impasse.

“Em último caso, podemos licitar a venda desses materiais. O dinheiro não é muito, mas poderia ser destinado a Emdurb”, avalia o prefeito.


Licitação na praça

O Plano Municipal de Resíduos Sólidos deveria ter sido discutido junto à sociedade e apresentado em agosto de 2012. Inicialmente, A Emdurb conduziu o estudo que, posteriormente, por ordem decisão do prefeito Rodrigo Agostinho, foi incumbido à Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma).

Em abril deste ano, o chefe do Executivo anunciou que contrataria empresa de consultoria para complementar o plano. O edital de licitação, porém, só foi publicado em agosto e o prazo para a entrega das propostas pelas empresas interessadas termina no dia 18 de setembro.

O serviço vai custar R$ 90 mil e, segundo Rodrigo Agostinho, vai detalhar as propostas já traçadas pela Emdurb e pela Semma.

“O texto aponta o que podemos fazer, mas não define o quanto vamos gastar nem como vamos priorizar. Essa contratação vai tirar essas dúvidas. Há o apontamento de um novo aterro sanitário, mas não de qual deve ser o tamanho nem de onde vamos instalar?”, explica o prefeito.


Nico aponta possíveis ampliações laterais

Convidados pelo vereador Renato Purini (PMDB), vereadores visitaram ontem o aterro sanitário de Bauru, onde comprovaram a sua operação satisfatória. Aos parlamentares, o presidente da Emdurb, Nico Mondelli, admitiu que existe a possibilidade de novas ampliações laterais do aterro, como a promovida no ano passado.

A medida aumentaria a vida útil do local e vai ao encontro do que vem pregando Purini. Nas últimas semanas, o líder do governo tem alertado sobre possíveis movimentações obscuras de comissionados da Emdurb em favor da terceirização do lixo. Na sessão da Câmara Municipal de segunda-feira, chegou a lançar o bordão “O aterro é nosso!”.

O vereador disse, ontem, que a visita foi extremamente satisfatória e positiva. “Há opções para o futuro neste aterro, sem pensarmos, por enquanto, em construirmos outro e muito menos levarmos nosso lixo para fora de Bauru”.

Para Lima Júnior (PSDB), ficou claro que o assunto precisa ser debatido com mais seriedade no município, principalmente pelo histórico de militância ambientalista do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). “Até aqui, deixou a desejar”.

Também participaram da visita os vereadores Fábio Manfrinato (PR), Carlão do Gás (PR), Telma Gobbi (PMDB), Artemio Caetano (PMDB), Markinho da Diversidade (PMDB) e Carlinhos Cantelli (PV).

Durante o encontro, Nico Mondelli afirmou ainda que a Emdurb está fazendo o monitoramento geotécnico no aterro sanitário para avaliar a viabilidade de nova camada de lixo, que seria a quinta.

O próprio presidente da Emdurb, porém, considera remota a possibilidade de receber o aval da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cesteb), órgão com o qual o município já assinou termo de encerramento do aterro. “É muito difícil porque não foi feita a impermeabilização do solo lá atrás, como fizemos agora na ampliação lateral”.


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