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A pedagoga Eva Vieira adverte para a distinção dos negócios movidos por necessidade ou oportunidade |
O fator comportamental é elemento essencial para explicar a mortandade precoce de uma empresa, ou encontrar o elo de origem para compreender por que um empresário não consegue fazer seu negócio decolar, mesmo em casos onde o projeto surge como a tentadora sensação de “bola da vez”. Em Bauru, trabalho desenvolvido pela pedagoga Eva Vieira, a partir da teoria sistêmica concebida pelo alemão Bert Hellinger, investiga como o foco do comportamento e da formação do indivíduo em sua família (o sistema a que pertence) desencadeia estímulos que levam ao fracasso ou sucesso no adulto empreendedor.
Teoria à parte, na origem, a abordagem terapêutica apura se o empresário é levado a abrir o negócio por “necessidade” ou “oportunidade”. No primeiro caso, impulsionado pela coragem, a aflição pela mudança ou a pressão pela sobrevivência, o candidato a empreendedor comete o primeiro erro fatal, ao invés de ser movido pelo desafio de constituir um projeto.
“O primeiro erro da empresa criada por necessidade e não por oportunidade é que esse empresário acredita que apenas porque ele faz bem alguma coisa ou vende muito bem algo ele vai se dar bem como patrão. Habilidade para fazer e capacidade de gestão são coisas muito diferentes. É preciso preparo para abrir uma empresa, com planejamento de capital, custos, margem de lucro, empregados, relação de produção-custo-estoque-preço final, logística. Mas o erro não está só aqui. E esse habilidoso empregado não sabe disso tudo e, em geral, nem se prepara”, aborda Eva Vieira.
Não por outra razão, é comum empreendedores desse perfil procurarem uma unidade do Sebrae quando a “vaca já foi pro brejo”. Aqui não se discute a reconhecida eficácia e importância da consultoria Sebrae para a formação de empreendedores e preparo de negócios. A discussão envolve o fator comportamental, de formação do indivíduo. O perfil do empreendedor que engrossa a lista dos fracassos está ligado a erros básicos: Falta conhecimento e preparo para gestão.
Atuando há 20 anos como educadora e há 15 como orientadora de empresas na investigação do perfil do empreendedorismo, inclusive no programa Empretec-Sebrae (leia serviço), Eva Vieira aponta para os “defeitos originários” do negócio por ‘necessidade’. “Ele abre uma loja porque a família precisa comer em casa, mas o preparo vem depois, isso quando não vem o desespero, o que é um erro fatal. Abre o negócio porque vai atrás de renda para a família se alimentar, pagar a prestação do carro, da casa”, menciona.
Outra parcela vira empreendedor atraído pela aparente possibilidade de ganho fácil. “Já a empresa aberta por ‘oportunidade’ vem, em geral, do empresário que desenvolve a habilidade não de realizar o negócio, mas de se ver lá na frente como empresário”.
Quando dá tempo, o empreendedor por necessidade vai atrás de algum apoio quando o sufoco já se instalou. Ai ou vem o desespero, ou não há nem mais tempo de reverter o jogo, de sair da crise. E a impotência chega. “Ai ele se depara que precisa pagar o aluguel da empresa, a prestação da máquina financiada, os fornecedores, os impostos. E a frustração e o desespero comprometem o todo. A esta altura não é mais só a família dele que depende daquilo para comer, mas a de outras pessoas que ele trouxe para seu negócio”, aborda a pedagoga.
Empreender por oportunidade
“Quem empreende por oportunidade costuma ter a chance de não se ver apenas um ano na frente, mas, no mínimo, 10 anos em seu futuro. E cada um pode desenvolver a habilidade de se enxergar lá na frente com seu negócio. Um programa desenvolvido pela ONU acompanha de perto como os empreendedores modelo fazem, como eles conseguem começar com um negócio pequeno e avançar rapidamente”, conta Vieira.
A orientadora traça o confronto: “É preciso ter amor por estrume para ganhar dinheiro com cocô? Não é ter amor pelo negócio em si. O negócio é só um meio. Quando o empresário vê o negócio só como fim, ele se finda junto e não consegue separar ele, a pessoa, do negócio. É preciso ter amor à minha vida para o negócio vingar”.
Ou seja, na identificação do fator comportamental, via abordagem terapêutica, o perfil do empreendedor de sucesso reforça ser fundamental a característica de visão de longo prazo. “E isso não se aprende na escola. Isso não é trabalhado na educação formal, tampouco nas famílias é levado em conta o desenvolvimento da responsabilidade positiva desde pequeno”, adverte.
A orientadora lembra em Bauru do caso do casal de jovens (o ex-funcionário da Cesp Fernando Mendes com a bailarina Paula Lamberti) que em menos de 10 anos conseguiu tornar um boteco alternativo em franquia instalada em várias cidades do Interior (o Bar do Português no Jardim Higienópolis).
“Ele abraçou a oportunidade que lhe surgiu ou ele vislumbrou e acreditou, de transformar um boteco em um modelo de ambiente e oferecimento de serviço diferente do trivial e em poucos anos tem uma franquia espalhada por algumas cidades. O negócio pra ele não foi só um meio, mas um fim, e ele enxergou isso. Ele precisou criar a condição nova, com um formato novo, elaboração de cardápio próprio e passou a ter oportunidade de uma renda muito maior a partir de um negócio comum”, exemplifica.
A chave está nos vínculos familiares
Eva Vieira aponta para estudo específico sobre o desenvolvimento da responsabilidade na formação dos filhos como um dos elos para explicar fracassos no mundo empreendedor.
Aqui sem nenhum juízo de valor sobre religião, ele menciona estudo realizado com mães católicas e evangélicas sobre como educaram seus filhos, como geraram estímulos de desenvolvimento humano desde bebê. “Os estímulos determinam, desde cedo, como essa criança é mobilizada com seu meio externo. E a pesquisa aborda o estímulo da mãe em ações como o filho aprender a comer, atravessar a rua e não apenas em relação ao conceito de obediência e de se estabelecer limites”, explica.
Segundo a pedagoga, os estímulos gerados desde a infância fazem a ponte do empreendedor com postura para a ‘oportunidade’ ou o movido pela ‘necessidade’. “A pesquisa identifica os filhos que tiveram estímulos prejudiciais à capacidade de desenvolvimento e o contrário. Os empresários que adotam negócios por oportunidade desenvolveram a habilidade de se enxergar 10, 20 anos, à frente em seus negócios. Os demais ou fracassaram, ou até enxergam risco, mas se mostraram sem iniciativa, ou inseguros, ou mesmo sem capacidade de enxergar o horizonte à frente”, conta.
Atravessar a rua
A busca do perfil do empreendedor, ou da identificação do fracasso no negócio, leva em conta aspectos do cotidiano, mas não sistematizados pelo leigo. “Isso se dá através da educação dos pais em questões simples. Na identificação do perfil dos empreendedores estão questões objetivas. Um pai que sai puxando o filho pela mão para atravessar a rua, ou está prestando atenção só no celular quando atravessa o sinal com o filho não passa o mesmo estímulo que outro”.
O estímulo, no exemplo simples, aparece no comportamento de outro “tipo de pai”. Naquele que anda ao lado do filho e na esquina para, olha para os dois lados, depois olha para o filho e diz pra ele: Podemos ir? Ele com isso gerou orientação e ainda permitiu ao filho de 9 anos que tomasse a decisão junto com o pai”. Isso desenvolve outro tipo de estímulo nessa criança quando adulto, no enfrentamento de decisões”, defende.
Conforme a orientadora, na abordagem de identificação de perfis dos empresários, muitos ficam surpresos com coisas simples. “Identificamos o pai que dá bronca no filho quando este chora ou reclama que não consegue fazer a equação de matemática e isso contrasta com o pai, na mesma situação, que senta junto, reflete, acalma o filho e discute com ele caminhos para que ele, filho, ache a solução. No empresário isso se revela na hora de decidir no negócio, na forma de conduzir a empresa, na hora de realizar ou não planos”, aborda.
Serviço
Para saber mais sobre o trabalho de Eva Vieira consulte www.evavieira.com.br
Interessados em conhecer o programa Empretec do Sebrae, procure a unidade de sua cidade. Em Bauru, informações pelo (14) 3234-1499
Os erros da superproteção e das empresas familiares
Pais superprotetores prejudicam muito seus filhos. “Os filhos precisam de muito pouco para aprender. Não posso proteger meu filho e impedir da briga na escola, mas devo orientá-lo a se posicionar, qual a postura na hora do conflito ou da agressão”, aguça Eva Vieira.
Sua experiência de análise sistêmica dos vínculos familiares identifica outro problema corriqueiro: “Em empresa familiar um erro muito comum é quando o filho não foi colocado pelos pais, desde pequeno, em sua posição de filho na hierarquia. Se ele não teve esse horizonte de que é filho e há hierarquia isso vai gerar conflito na gestão familiar depois”, aposta.
O filho ‘moderno’ que estudou até muito mais do que o próprio pai - que é dono e criador do negócio - também precisa entender que ele, no presente, detém informação e não conhecimento como seu pai. “São coisas distintas. Mas o que é mais comum é o filho ocupar o lugar do pai só porque fez esta e aquela faculdade e acha seu pai velho ou repete que este não estudou. Esse tipo de empresa familiar sucumbe na terceira geração. Isso é fato em pesquisa”, lembra.
E como reverter isso? É preciso que o pai ocupe, desde a infância, seu papel de orientador e de hierarquia, segundo a pedagoga. “Se a ordem de hierarquia e de estímulo estiver em sintonia, o filho, depois, vem sim com ideias novas, mas respeitando e dividindo com o pai o plano, muitas vezes ousado para aquele pai conservador sim, mas com o pai endossando a inovação por deter o conhecimento e somar isso à informação trazida pelo filho”, acredita.
“Na empresa familiar, quando a hierarquia pai-filho está na ordem na formação, a empresa vai bem depois, nas gerações seguintes. E aqui não é conceito de ser pai, mas de desde cedo praticar a orientação e o sentido de hierarquia para desenvolver os estímulos necessários para permitir no adulto o perfil para o empreendedor por ‘oportunidade’, que enxerga cenários. Esse pai sabe dar corda à pipa que passa para o filho pilotar e, mesmo com receio do novo, ele solta a pipa, mas segura a ponta do cordão”, descreve.
O workshop da terapia de Hellinger
O alemão Bert Hellinger aborda a teoria das “ordens do amor”. Ele discute que quando compreendemos as leis sistêmicas que permitem que o amor aflore, podemos conseguir ajudar pessoas e famílias que sofrem a encontrar soluções, conforme citação do livro de sua autoria “A Simetria Oculta do Amor”.
Em sua terapia, Bert discute que o sistema familiar, como acontece em qualquer outro sistema, tem sua própria ordem natural e que, quando essa ordem é violada, os efeitos são sentidos nas gerações seguintes à medida que o sistema procura retornar à ordem.
Constelação sistêmica é um método psicoterápico e de coaching profissional que trabalha principalmente as emoções e energias inconscientes que influenciam nossas decisões. No worshop em que a reportagem participou como ouvinte, o exercício trabalha com os campos aos quais cada família está interligada, a herança genética natural ou as fontes de estímulos ao longo do desenvolvimento de cada um. Em várias gerações.
Participantes do workshop são convidados a desempenhar o papel de “representantes” de membros da família daquele que apresentou seu problema. Através de técnicas sob a orientação da pedagoga, os representantes realizam movimentos ou sinais corporais voluntários, como tremer, deitar, se afastar do outro membro da família ali representada...
A pedagoga segue, a partir da teoria de Bert Hellinger, a tensão dos movimentos. A relação com a reação do representante é natural, nada de anormal. Uma jovem de 21 anos, por exemplo, reclamou de enorme dificuldade em expor suas ideais e sentimento de fragilidade diante de colegas na faculdade.
A origem do conflito, representado em seu sistema no workshop, levou a uma ruptura na geração de sua mãe. No processo, esclarece a orientadora, não “há que se buscar resposta ou explicação para o problema, mas a identificação simples do obstáculo que impede que o amor e os vínculos tivessem continuado a fluir nessa família, prejuízo que, agora, foi absorvido pela jovem na atual geração”.
Em outro exercício, um empresário com cerca de 50 anos apresentou inconformismo com posicionamentos do pai e desejo em entender melhor sua atração por arriscar em seu negócio. Em outra situação, conforme inúmeros exemplos similares descritos pelo próprio Hellinger em seu livro “O essencial é o simples”, o rapaz quis compreender a razão pelo medo de decidir.
A essência, para este ou outros casos, está, segundo a teoria de Hellinger, na investigação sistêmica de cada um, ainda que o “elo” que identifique o “problema” esteja lá no tataravô...
O fato é que, de acordo com a terapia sistêmica de Bert Hellinger, a harmonia na vida em família acontece quando cada um de seus membros ocupa seu lugar de direito, assume seus papéis na vida, cuida de si mesmo e evita interferir no destino de outro.
Assim, a maioria das dificuldades pessoais e dos problemas de relacionamento decorre de desordens nos sistemas familiares. Essas desordens acontecem quando, sem termos consciência ou intenção de fazê-lo, incorporamos em nossas vidas o destino de outras pessoas.
Isso gera repetição no destino de membros da família que foram excluídos, esquecidos ou cujos lugares não foram reconhecidos nesse sistema, entre as gerações. Bert defende que tentamos viver esse destino para eles ou criamos infelicidade em nossas vidas para diminuir nossa culpa.
Violações não intencionais
Quando bebês são abortados, ou não se faz o luto pelos natimortos, ou não se reconhece a perda, não se expressa à tristeza sentida pela perda
Quando crianças ou adultos jovens morrem e não se faz o luto por eles
Quando os filhos são doados para adoção e não se fala mais neles
Quando pais adotivos não reconhecem os pais biológicos dos filhos adotados
Quando ex-parceiros ou relacionamentos importantes não são reconhecidos e honrados nos casais
Quando relações extraconjugais são mantidas em segredo
Quando vivências relacionadas com guerras não são lembradas e os mortos honrados
Quando há segredos de família
O defeito no RH
Recursos humanos não é para cuidar de folha de pagamento, controle de impostos, de jornada, salário. Isso é papel do Departamento Pessoal. RH é agir sobre conflitos nos relacionamentos entre as pessoas, define Eva Vieira.
“Ação de RH não está em apostila, não está no google. É ação de profissional que tem capacidade de tratar sobre a percepção do eu e do outro em um ambiente coletivo. É não tratar as pessoas como planilha ou máquina no processo da empresa. É olhar para os colaboradores e focar em habilidades que possam ser ampliadas e em ações que resolvam conflitos de postura com o cliente, o colega de trabalho e na família desse funcionário”, aborda a pedagoga.
As empresas de sucesso já despertaram para o cuidar do capital humano. “E essa empresa depende desse empreendedor por ‘oportunidade’, que quer crescer e se vê lá na frente melhor como pessoa e com seu negócio, mas gera oportunidades também entre seus colaboradores. E este perfil permite saber buscar oportunidade no cenário e também sabe olhar para as habilidades do empregado e como motiva-lo no processo. Este acaba gerando desenvolvimento de competências empreendedoras”, finaliza.