O apresentador do Balanço Geral da Rede Record, Rodrigo Moterani, diariamente entra na casa das pessoas para um papo sério. Jornalismo comunitário é o forte do programa. Ao vivo, exige uma sintonia fina da equipe.
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Rodrigo Moterani apresentador da Record |
Rodrigo formou-se em jornalismo em 2000, na terceira turma da Faculdade de Comunicação Social de Presidente Prudente. Ele não nega seu linguajar interiorano, que deixa a apresentação quase como um bate-papo. “Quando encontro com a minha família é assim que a gente conversa. É o nosso idioma”, brinca. Rodrigo avalia que o Balanço Geral atrai telespectadores de todas as camadas sociais.
Diariamente, a tensão é grande. É preciso jogo de cintura e habilidade de frente para as câmeras. Criticar não é fácil. É preciso medir as palavras. E Rodrigo tem a noção exata do peso delas, ainda mais pelo poder de amplificação da TV.
Ele cita como grande exemplo de vida o líder sul-africano Nelson Mandela. O apresentador lembra o gesto de Mandela ao não promover uma caça às bruxas quando assumiu a presidência da África do Sul. “Muita gente se esquece que ele unificou um país por meio do perdão. Tem muito a ver com a minha fé em Cristo. Não foi vingativo diante daqueles que oprimiram o povo negro”, salienta.
Na sequência, os principais trechos da entrevista com o apresentador da Rede Record.
Jornal da Cidade - Sua abordagem popular aos temas subestima o telespectador?
Rodrigo Moterani - Tem muita gente que fala: “O Rodrigo é popularesco.” Com muitos argumentos explicando o contexto político. Tem muita terminologia que, às vezes, o pobre não compreende, mas tem que falar para o rico. Enquanto eu continuar como jornalista pretendo manter uma postura que o povo tem acompanhado, de isenção. Se tiver que ser parcial, será para o lado da maioria, que é o público.
JC - Qual sua relação com sua crença religiosa?
Rodrigo - Eu sou evangélico. Membro da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Bauru. Participo do coral da igreja. Até estou um pouco afastado por causa da garganta que está sendo muito exigida no trabalho. Eu não posso me dedicar àquilo, não sei se tenho vocação, que é louvar a Deus por meio da música. Tenho muita fé em Deus. Oro quando acordo, oro a todo momento. Antes de vir para cá, para a entrevista, pedi para que Deus me iluminasse para que eu não me mostrasse fora do que eu sou. Para deixar bem claro quem é o Rodrigo. Muita gente conhece da televisão, mas no particular é uma pessoa não muito diferente daquela.
JC - Como você mantém o equilíbrio para expor ao vivo sua opinião na TV?
Rodrigo - A gente já foi rotulado. Digo a gente, mas é o jornalismo que a gente se propõe. Estou terceirizando a pessoa. Mas já fomos tachados de reacionários, de sensacionalistas. Eu quando trabalhava em afiliadas da Globo, era como o excesso de coloquial que eu sempre preguei nos textos. Então, sempre pegam pelo lado pejorativo. Mas esse ponto chave que você apontou de abordagem do problema pontual de determinado bairro, transportar para a grandeza de uma cidade, como é Bauru, Botucatu, Sorocaba, Marília, Ourinhos.
O que interfere o problema na frente da casa de fulano na vida do Rodrigo? Pra mim, nada. Quem passa com o carro é o morador, passa todo dia dentro. Suja sua calçada. É o morador. Mas a partir do momento que eu faço o telespectador entender que ele também é participante daquela situação por meio dos impostos que a gente paga - que não são poucos -, a partir do momento que ele tem um esclarecimento disso, a gente amplia o foco. Abre esse espaço para que outras comunidades também participem, e por meio de nós encontrem um canal para cobrar o poder público. Existem as ferramentas de contato com o poder público, mas todas elas se mostram constantemente ineficientes.
O povo liga na prefeitura, liga no DAE, na Secretaria de Obras, liga em todos os departamentos. Muitas vezes, não obtém o resultado desejado. Daí quando essa matéria é veiculada na imprensa, no Jornal da Cidade ou na TV Record, a gente nota o resultado porque isso incomoda demais o poder público. Aquele que está preocupado com os danos eleitorais se sente prejudicado e necessita minimizar o impacto que ele tem com um probleminha pontual e que ganhou destaque muito grande no jornalismo.
JC - Você acha que as pessoas têm noção exata do que significa ter sua reivindicação mostrada na TV?
Rodrigo - A gente dá uma matéria de situação de rua que chega a durar 2 a 3 minutos de graça para o cidadão. O espaço na televisão, 30 segundos, custa muito caro. Então, quando a gente destina 2 a 3 minutos o cidadão não tem noção do preço que custa para a empresa. Porque com certeza, a partir do momento que você aponta o dedo, cutuca, incomoda, a empresa também passa a sofrer retaliações no campo publicitário. Então, a responsabilidade por parte minha, como comunicador, por parte da equipe toda editorial, que está envolvida na formatação do telejornal, é muito grande. A gente interfere diretamente nos rendimentos do bolso do patrão. A empresa pode perder um contrato publicitário muito grande diante de determinada notícia. E quando ela adota a postura firme de perdendo ou não a gente vai dar a notícia, ela mostra com quem está comprometida. É difícil falar de isenção no jornalismo.
JC - Quando você decidiu fazer comunicação social?
Rodrigo - Eu trabalhava em uma autopeças em Presidente Prudente. Era digitador lançava a parte de contabilidade. Mas trabalhei em frigorífico, transportadora. Nessa autopeças, o dono seo Cláudio Muchiutt tocava no ramal da minha sala e eu atendia: “Oh! Rodrigo você tem voz de radialista”. Eu paralelamente a isso sempre tive muito gosto por rádio. Ouvia muito a programação regional de Presidente Prudente, dos grandes locutores, e gostava de ouvir AM. ‘Seo’ Cláudio insistia: “Você tem que ser locutor”. Eu pensava: “Será que é esse o meu caminho? Gostava de trabalhar em escritório?” Garanto que não gostava. Aquela coisa metódica... Números, números e lançamentos. Não era nem por uma questão financeira. Era mais se encontrar mesmo. Com 17 anos, fiz um curso no shopping de treinamento ‘vapt-vupt’ para locutor e nem locutor eu era. Mas aquilo foi bom porque me fez conhecer gente da área. Logo em seguida saiu o curso profissionalizante no Senac. Fiz esse curso, mas não conseguia nenhuma vaga na área.
JC - Como conseguiu romper o bloqueio para iniciar na área?
Rodrigo - Até por insistência da minha mãe, procurei quem poderia abrir as portas. Comecei a trabalhar em uma emissora, a rádio AM 1.380 que era então Rádio Diário e hoje é uma emissora filiada da Globo. Comecei atendendo telefone no jornal pela manhã e em um programa de variedades à noite. Sem ganhar nada. O locutor deixava falar: “Rodrigo quem ligou aí?” Entrava: “Foi fulano, beltrano de tal bairro”. Fazia um testemunhal de quem havia participado por telefone, pedido música. Participei do jornal dessa rádio já como locutor. E da rádio, programas foram extintos e tive que partir para o jornal. Eu já estava fazendo o curso superior de jornalismo, e parti para o jornal impresso mesmo fazendo faculdade. Consegui uma vaga.
JC - Como a TV cruzou seu caminho?
Rodrigo - A televisão surgiu bem por acaso. Minha primeira meta era rádio. Havia um peso importante no radiojornalismo nos anos 90 em Presidente Prudente, com bons programas. Programas com grande penetração. E que davam a tônica do que se iria discutir na política aquele dia. Então programas abrangentes. A convite de um grande jornalista, o João Marcos Gomide, que trabalhou muito tempo aqui em Bauru e que depois virou meu chefe. Fiz um teste de apresentação de um jornal. Um fracasso. Antes de trabalhar com o Gomide, trabalhei com um grande jornalista aqui de Bauru, o Sérgio Tibiriçá do Amaral. Sempre foi Deus me colocando no caminho de grandes profissionais, me ligando, sem eu menos imaginar, a grandes personalidades do jornalismo de Bauru.
JC - Tremeu na primeira vez de frente com a câmera?
Rodrigo - O Gomide me convidou para um teste na TV Fronteira. Nunca tinha estado diante de uma câmera de televisão. Nunca li um teleprompter. Com um terno emprestado de Lúcio Ramos, também um grande jornalista, eu fui. Foi um fracasso. Fracasso! Mas o Gomide falou: “Vamos”. Acabei sendo contratado pelo Gomide como editor de imagens. Depois produtor, apresentador, repórter, editor. Até que saí de Prudente para Campo Grande.
JC - O que mudou com essa ida para Campo Grande?
Rodrigo - Levado pelas mãos de outro bauruense, o Orlando Braz Loureiro Júnior, repórter daqui. Ele me contratou pra lá. Na verdade, um outro bauruense me queria não em Campo Grande, mas em Cuiabá. O Ulisses Serotini. O Orlando e eu trabalhamos juntos por dois anos e pouco.
JC - Como chegou à Rede Record?
Rodrigo - Acabei vindo parar na Record lá em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no início de um projeto. Foi feito um grande investimento pela afiliada da Rede Record. Daí a gente montou equipe de grandes profissionais. O Balanço Geral foi criado e virou sucesso em três, quatro meses. Justamente por causa dessa linguagem mais próxima do povo, coloquial. De lá pra cá pintou o convite. Mais perto de casa, da família.
JC - Você usa a linguagem coloquial para entrar na casa das pessoas?
Rodrigo - Tem que estar sempre preocupado com a questão do que vai falar, como vai falar e como vai se posicionar. A linha editorial é essa. Nenhum dos comentários é escrito. São todos de puro improviso. Eu digo que do Balanço Geral pelo menos uns 95% são de puro improviso. Improviso daquilo que eu tenho como argumento. Eu participo da edição, eu edito as matérias, eu acompanho as sugestões de pauta. Muitas vezes, eu participo com os repórteres da construção das matérias. No estúdio, quanto a esse posicionamento é discernimento por parte de Deus. Tocando naquilo que interfere na vida das pessoas. Ampliando, muitas vezes, os fatos. Como exemplo, hoje o Pronto-Socorro Central de Bauru é um problema para 35 pessoas que estão hospitalizadas nos corredores ou é um problema da cidade? Aos meus olhos de cidadão, que não tenho ninguém internado em um corredor, em cima de uma maca, é problema algum. É isso que eu preciso fazer o cidadão enxergar que, uma hora dessas, pode ser ele no lugar daquela pessoa que está em cima de uma maca. Então, é ampliar o fato. Dar o discernimento que você também faz parte daquele problema. Porque amanhã, se ele não for solucionado e você vier a precisar da Saúde, é essa Saúde que será prestada. Então, a indignação diante das inoperâncias do poder público é pautada pelo que a gente está vendo e do que a gente escuta do povo.
JC - Ficam falando no seu ouvido para finalizar os comentários?
Rodrigo - Não tem nada escrito e não tem nada delimitado de alguém chegar e falar: “Rodrigo, chega. Deu”. A única coisa que controlam é quanto ao tempo dos comentários. Porque quem tem o julgamento se aquela conversa é ou não proveitosa é quem está assistindo, é o telespectador. A gente tem uma equipe de profissionais na retaguarda que tem esse julgamento. Tem a Valéria Bidoia, editora-chefe do Balanço Geral. Ela é quem tem esse julgamento. Muitas vezes, ela se limita a falar comigo no ponto: “Ok”. Eu já sei que em termos de assunto eu esgotei. Já estou me tornando redundante.