O tema “vida saudável” está em alta, na pauta diária de muitos brasileiros que tentam compensar o sedentarismo com uma boa caminhada ou um passeio de bicicleta. O que para os moradores de centros maiores é um exercício indicado, em muitas cidades da região de Bauru é espontâneo. Em Reginópolis, por exemplo, dos cerca de oito mil habitantes, 20% possuem este veículo de locomoção. E o mais importante: fazem uso dele.
Éder Azevedo |
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Em alguns municípios, “código de ética” informal garante a segurança para transitar |
Por mais incrível que possa parecer, no município as pessoas se deslocam de bike. Não há ciclofaixas e nem ciclovias porque, no “código de ética” dos moradores, todos têm espaço garantido e segurança. O uso das duas rodas é anterior à onda da busca pela qualidade de vida, pois faz parte da cultura dos moradores.
A bicicleta é um dos meios de transporte mais antigos da história da humanidade. No museu de Madrid há projetos de uma bicicleta assinada por Leonardo da Vinci que datam do século XV, mas que não foi executado. A mais antiga chegou a ser chamada de “cavalinho-de-pau” na França onde foi criada, por volta do ano 1818. No Brasil as bicicletas chegaram em 1898, vindas da Europa.
A primeira bicicleta a possuir sistema com corrente ligada às rodas foi projetada por H. J. Lawson, no ano de 1874. Seu terceiro modelo, a “Bicyclette”, foi desenhado em 1879. Esta bicicleta já possuía maior estabilidade e segurança. Na década de 1880, o inventor inglês John Kemp Starley projetou uma bicicleta semelhante às atuais. Possuía guidão, rodas de borracha, quadro, pedais e correntes. A primeira fábrica de bicicletas em série do mundo foi criada em 1875 e chamava-se Companhia Michaux.
Em Iacanga, a reportagem do Jornal da Cidade encontrou uma mulher que transporta diariamente a filha para a escola de bicicleta. Dispensa o transporte de veículo motorizado que gera um custo no orçamento mensal, faz exercício diário e mantém a qualidade de vida. A menina de 6 anos segue o exemplo da mãe e pedala diariamente na rua de sua casa.
Mas a bicicleta não é usada somente para manter qualidade de vida e passeios de lazer. Um morador de uma chácara no distrito de Jacuba usa sua bike todas as sextas-feiras, quando faz compra na cidade de Arealva.
Uma empresa da cidade que fabrica portas e janelas de alumínio com 450 funcionários tem até estacionamento para bicicletas. É que 10% dos funcionários usam a bicicleta como meio de transporte para trabalhar.
Dos 450 trabalhadores, 325 são homens e 125 mulheres, que têm a bike como veículo de locomoção. Por isso, no bicicletário localizado na parte externa da empresa há modelos inusitados com banquinho para crianças, por exemplo. Algumas mães deixam os filhos na escola antes de se dirigir ao trabalho.
Há, ainda, pais que usam a bicicleta para o lazer de final de semana, levando os filhos para passear. A empresa incentiva o uso das duas rodas e vai desencadear uma campanha de premiação entre os usuários.
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Éder Azevedo |
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Motoristas, ciclistas e pedestres desenvolvem relação de respeito para transitar pelas ruas de cidades menores, onde os índices de acidentes são baixos |
Em Reginópolis, 1,6 mil usam bike
“Magrelas” são o principal meio de locomoção da maioria dos moradores durante a semana, sejam crianças ou adultos
A cidade de Reginópolis tem aproximadamente 8 mil habitantes, segundo o mais recente Censo do IBGE. Cerca de 20% deste total - ou 1,6 mil pessoas - têm bicicleta. E não só tem o veículo de locomoção, mas o utilizam. No centro comercial, as bikes se misturam e disputam espaço com as motos e carros. Não é difícil encontrar bicicletas nas portas das agências bancárias, supermercados, lojas e açougue.
O movimento é espontâneo, não precisou de incentivos governamentais e nem da ‘onda’ recente que elegeu o pedalar como um dos melhores exercícios físicos. A topografia do município coopera com o uso das bicicletas, com exceção de alguns bairros mais recentes.
Ao contrário do que ocorre nas cidades de maior porte e nos grandes centros urbanos, onde é necessário implantar ciclofaixas ou ciclovias para garantir a segurança dos ciclistas, em Reginópolis há um ‘código’ entre eles, os pedestres e os motoristas, em que todos se respeitam. O número de atropelamentos e acidentes é muito pequeno.
Embora muitos moradores possuam carros de passeio, muitos ficam dias e dias na garagem e só são utilizados para viagens e deslocamentos maiores. Durante a semana, no horário comercial a movimentação de veículo automotor é maior por conta dos fornecedores e entregadores comerciais que visitam a cidade.
Pedalando
Pedalar já é um hábito enraizado na cultura dos moradores, passa de geração para geração. Começou quando a cidade possuía poucas ruas e carros, e persiste até hoje. Para os menos avisados a visão do município é de futuro, mais bicicletas do que carro nas ruas.
O resultado do uso de bicicleta pelos moradores pode ser constatado in loco. No lugar de motoristas estressados, encontramos ciclistas sorridentes. Gente de bem com a vida, pedalando e se exercitando. O uso de bicicletas não se restringe aos moradores com idades de 20 a 24 anos, que representam a maioria da população. Há idosos, jovens e crianças pedalando pela cidade.
Pedalar todos os dias é um exercício que garante qualidade de vida porque ativa a circulação e altera os batimentos cardíacos, por isso, dos mais de 600 idosos residentes em Reginópolis, menos de 1% apresenta taxa de colesterol e triglicérides fora do índice preconizado.
As ‘magrelas’ estacionadas nas portas dos estabelecimentos ou residências são verdadeiros convites para um “empréstimo”. Comentários dos moradores dão conta de que, muitas vezes, um conhecido passa e pega a bike para se deslocar e depois devolve. Situação inusitada para quem está acostumado a conviver com furtos e roubos.
Lençóis inclui ciclovias na duplicação de avenidas
Os recentes projetos urbanos na cidade de Lençóis Paulista incluem a ciclovia, um incentivo que a prefeitura dá para a utilização da bicicleta como meio de transporte. Exemplo disso foi a duplicação da avenida Lázaro Brígido Dutra e o percurso entre o Lago da Prata e o Bairro do Caju. Pelo projeto do anel viário, Lençóis Paulista será interligada por ciclovias.
Para a prefeita Bel Lorenzetti, o uso de bicicleta pelos moradores é uma opção que beneficia o meio ambiente, saúde e lazer. “Os últimos complexos esportivos e de lazer construídos ou reformados na cidade já contemplam ciclovias.” Os principais investimentos foram feitos na região do Parque do Povo, com a construção de ciclovia margeando todo o Lago da Prata, pista para ciclista e ciclovia para crianças e aprendizes, com espaço para manobras.
“Valorizamos a bicicleta como alternativa sustentável de transporte e reconhecemos a prática do ciclismo como sinônimo de saúde e bem-estar. Por isso, incentivamos a pedalada como forma de lazer, e também estamos projetando uma cidade que será interligada por ciclovias. Além disso, apoiamos a prática por meio de projetos desenvolvidos pela Diretoria de Esportes e Recreação”.
Há mais de 10 anos, o projeto Bike & Saúde da prefeitura promove o esporte e saúde por meio da pedalada. O projeto realiza passeios ciclísticos que envolvem crianças, jovens e adultos. Os itinerários incluem o perímetro urbano, exploram as belezas e curiosidades da zona rural do município e desvendam o turismo regional, com pedaladas em outras cidades. Tem também caráter cultural e procura contextualizar fatos históricos e o folclore que envolve o itinerário dos passeios.
Em 2011, foi aprovada e sancionada a lei que estabelece o dia do ciclista. A data é comemorada sempre no último domingo de novembro. O ciclismo é esporte habitual de muitos lençoenses.
A prefeitura apoia e ajuda a divulgar viagens de ciclistas que se aventuram por roteiros como o Caminho da Fé. Destaque também para o Grupo Vaidoso, que além de organizar passeios, trabalha para preservar a memória do ciclismo lençoense, com exposições que reúnem bicicletas antigas.
Gente que pedala de forma espontânea
Pedalar para o agricultor aposentado José Vicente de Godoy, morador de Arealva, é uma prática que tem 60 anos. Ele aprendeu a andar de bicicleta aos 7, e está com 67 anos. Duas vezes por semana ele vai à sua chácara, no mesmo município, usando o veículo e suas pernas.
Para ele, os pouco mais de dois quilômetros de ida e volta lhe garantem resultados positivos nos exames de sangue e muito músculo nas pernas. “Eu tenho saúde”, diz, com tranquilidade.
O antigo costume de pedalar toda sexta-feira da área rural até Arealva para fazer compras faz com que o agricultor Geraldo Barbosa, 60 anos, pedale cerca de 26 quilômetros com sua bike. “Saio da chácara em Jacuba e vou fazer compras, são 13 quilômetros de distância. No retorno, volto com as compras. Pedalo desde criança e isso me faz bem.”
Para o pintor Valdir Marasato, 41 anos, morador de Iacanga, a bicicleta é o meio de locomoção e transporte de seu material de trabalho. “Ando de bike desde os 10 anos. Não tenho carro. Carrego todo o meu material de trabalho na bicicleta. Nos finais de semana, uso a bicicleta para lazer. Vou pescar com ela.”
Faz de tudo
O comerciante Jean Pereira da Rocha, morador de Arealva, conserta e vende acessórios de bicicleta. Semanalmente recebe uma média de 30 para conserto. “Aqui a bike é muito usada para o trabalho. São modelos simples e fortes que garantem a locomoção dos trabalhadores, especialmente para a área rural.”
A geografia da cidade favorece o uso de bicicletas, na opinião dele. “O mês que mais faturo é dezembro. Com as temperaturas mais altas, o morador usa mais as bicicletas e gasta mais com consertos e acessórios.”
Falando ao celular
O estudante de engenharia Gabriel Pessarelo, 18 anos, mora em Reginópolis e não dispensa sua bicicleta. Trabalha com ela, faz exercícios e atende o celular pedalando. Vendedor de material elétrico, ele percorre obras para vender, sinônimo de muito esforço físico diariamente. Ele calcula que na rotina diária alcance os três quilômetros.
“É um transporte que não emite poluentes. A cidade é plana na área central. Mantenho a saúde. Consigo falar ao celular e dirigir a bike. O trânsito é tranquilo. Aqui todo mundo respeita o ciclista.”
Ele lembra que no meio estudantil, em Lins, seus amigos acham diferente ele usar bicicleta como meio de locomoção. “Eles brincam comigo e eu digo que não pratico o sedentarismo.”
Entregando compras
Nos grandes centros, entregar compras de bicicleta faz parte do passado, mas em Iacanga ainda é uma realidade. Jorge Luiz Cantão, 19 anos, é um entregador de supermercado. Pedala aproximadamente seis quilômetros por dia, especialmente na área central. “A cidade é plana. Fortalece minhas pernas e mantém a minha respiração. Carrego compras e água para entregar no comércio local. Nos finais de semana uso a minha bicicleta para passear no lago.”
O trabalhador rural, Raimundo Dourado de Souza, 25 anos, morador de Arealva usa a bike para trabalhar na colheita de pimentão. De 2ª a 6ª feira ele pedala mais de 30 quilômetros. “Saio de casa e vou até a plantação de pimentão onde trabalho. Só uso a bicicleta.”
Bicicleta escolar
A dona de casa Edilaine Leme, 38 anos, moradora de Iacanga, achou uma forma de fazer exercício e economizar com o transporte escolar da filha, Cassiani Pereira. Todos os dias ela sai do bairro Boa Vista, onde mora, e vai até o centro, onde a filha estuda. Na garupa, carrega sua ‘princesa’. São 20 minutos de pedalada para ir e o mesmo tempo para voltar. A filha, de 6 anos, segue o exemplo da mãe no bairro onde mora e anda de bike diariamente. “Eu ando sozinha na minha bicicleta”, comenta.
Ciclofaixas facilitam deslocamento
Cidades da região investem em espaços destinados aos ciclistas para incentivar o uso do veículo com mais segurança
De olho na qualidade de vida e em alternativas sustentáveis de transporte, várias cidades da região estão implantando ciclovias ou ciclofaixas para que os moradores usem a bicicleta para se locomover. Nela, o ciclista tem mais segurança e não ‘compete’ com os veículos motorizados.
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Éder Azevedo |
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Em Arealva, empresa instalou bicicletário para seus funcionários |
Em Arealva, a ciclovia começa na avenida Adelino Mendonça e vai até a praia municipal em uma extensão de três quilômetros. A ciclofaixa fica ao lado do calçadão onde a população faz caminhada e da rodovia Rodrigo Candioto Pereira.
De acordo com a prefeitura da cidade, a ciclovia é utilizada todos os dias pelos trabalhadores e moradores que buscam qualidade de vida. Para ampliar o leque de opções e garantir a segurança dos trabalhadores do distrito industrial, o prefeito Paulo Padanosque Pereira pretende implantar mais uma ciclovia no município.
De acordo com a assessoria de imprensa, Arealva aguarda concessão de verba para implantar uma ciclovia do portal (entrada da cidade) ao distrito industrial, a fim de beneficiar os trabalhadores.
Na cidade de Pederneiras, a ciclofaixa está sendo construída e deverá ser entregue até o final deste mês. Ela tem início no trevo conhecido como Volvo, mais precisamente ao longo da Avenida Elizeu Alvares Gomes, até a entrada principal da cidade, avenida Lions Club, num trecho de 800 metros.
Parte da ciclofaixa está pronta e regularizará, na borda da pista de rolamento, paralelamente à calçada, espaço para o trânsito seguro de bicicletas. A via vai beneficiar todos os moradores, aqueles que querem qualidade de vida e especialmente os que moram nos bairros Cidade Nova, Maria Helena, Parque Colina, Pederneiras C5, Jaime Bigelli e Figueira.
O horário de funcionamento da ciclofaixa está definido, todos os dias das 6h às 20h. Um estudo preliminar mostrou que nos períodos da manhã e tarde mais de 200 ciclistas deixam esses bairros com destino ao centro da cidade. No trajeto, disputam a via com veículos automotores.
Na cidade de Itapuí, a ciclovia ainda está em fase de elaboração do projeto, explica o diretor do meio ambiente, Silas de Moura Oliveira. “Estamos desenvolvendo o projeto. Temos o intuito de fazer uma ciclovia para a região da praia, a fim de incentivar o uso de bicicleta para ganho de qualidade de vida.”
Segundo ele, o maior problema do uso de veículos automotores em Itapuí é a emissão de CO2. “Aqui dificilmente as pessoas se deslocam para o trabalho de bicicleta, por uma questão de hábito. A cidade é pequena e os deslocamentos, muito próximos. Precisamos incentivar o uso de bicicletas. Além da emissão do CO2, tem a saúde.”
Para ele, é um ciclo virtuoso. “Mais atividade física melhora a qualidade de vida e economiza gastos com a saúde. Queremos implantar também um bicicletário na praia municipal. Tudo isso depende de recursos financeiros.”
Em Jaú há uma ciclovia contornando o lago do Silvério, porém a topografia não favorece o uso de bicicletas para grandes deslocamentos.


