Ser

Nunca é tarde para realizar um sonho

Bruno Freitas - Especial para o JC
| Tempo de leitura: 9 min

"Resolvi cuidar de mim, investir no meu futuro, na minha carreira e no meu conhecimento". O que parece o discurso de uma jovem de 18 anos que acabou de sair do ensino médio e entrou na faculdade, na verdade é da aposentada Carmen Solange Fonseca, 61, que deixou o crochê de lado, como ela mesma brinca, para retomar os estudos e se formar como pedagoga em uma universidade de Bauru.

"Quando o assunto é conhecimento, o tempo e a própria idade não interferem. É preciso ter força de vontade e determinação para alcançar o seu objetivo", aconselha Carmen aos mais jovens e aos mais experientes também.

Carmen têm três filhos e um neto. Andrea, 32, Alexandre, 31, José Augusto, 22, e o pequeno Arthur, de apenas 8 meses de vida. Segundo ela, depois que o processo de amadurecimento desabrocha no ser humano, as coisas mais importantes, como os estudos, por exemplo, ganham mais valor e se tornam prioridade. "Eu sinto a minha mente muito mais jovem agora que voltei a estudar. Nunca é tarde demais para fazer o que se gosta, não é?", reflete.

A mesma decisão tomada por Carmen é frequentemente seguida por outros corajosos que se arriscam em nome da realização profissional, da faixa entre 40 e 60 anos, que também enfrentaram alguns preconceitos e se tornaram universitários. Na mesma turma do quinto semestre de pedagogia de Carmen, que reúne atualmente 60 alunos - a maioria entre 18 e 25 anos -, existem mais quatro exemplos de estudantes que, após garantirem o futuro dos filhos, resolveram cuidar de si mesmos.

É o caso de Ângela Cavichioli Gomes, 45, auxiliar de creche da Prefeitura de Bauru, de seu marido Euclides Gomes, 50, pedreiro reparador, de Ângela Erba, 45, que já faz estágio na área da educação, e Cássia Miguel, 44 anos, que atua no minigrupo de um colégio particular de ensino infantil. Em sala, eles dividem os trabalhos em grupo e a atenção dos professores com "os mais jovens", como eles gostam de citar.


Na alegria, na tristeza e nos estudos

A convivência na faculdade entre o casal Ângela e Euclides Gomes se assemelha aos casais de namorados que se conheceram na faculdade. O que difere é que hoje eles têm dois filhos, Dienifirely, 25, e Wanser, 18. Dienifirely é recém-formada na universidade e Wanser pretende cursar no ano que vem.

Na roda de amigos de Euclides, a grande dúvida que surge é: como é acordar com a esposa, ir com ela para a faculdade, estudar na mesma sala, fazer trabalhos juntos e depois irem para casa (juntos novamente, claro)? "Prefiro não comentar, com ela me ouvindo aqui do lado", brinca Euclides, já de olho se viria um "cutucão" de Ângela em sua direção. "Eu queria orgulhar os filhos também, assim como eles nos orgulham. Optei então por pedagogia, porque sempre gostei de ensinar", rebateu a esposa em sua defesa. "A gente se dá muito bem (ela e Euclides), mas ele parece um garotão novamente quando se reúne com a turma mais jovem", cutuca.

?Ciúme de você...?

Baseado na melodia de sucesso de Luiz Ayrão (título acima), a primeira bronca da esposa veio no primeiro dia de aula dela, quando Euclides já iniciava o seu segundo semestre, ambos na mesma sala.

"Eram 110 alunos. Era muita mulher para pouco homem. E ele lá, brincando e rindo com as meninas", diz Ângela, em tom de brincadeira. Euclides argumenta: "Ela bateu o caderno na mesa, ficou brava e me questionou se eu vinha para assistir aula ou para rir com as alunas mais novas, todas com idade da minha filha!", brinca.

Euclides conta que, depois deste dia, ele nunca mais contou uma piada em sala de aula. Já Ângela, que apesar de afirmar que não é ciumenta, citou as palavras ?mulher?, ?garotas? e ?alunas? diversas vezes durante a entrevista.

É o amor!...

Aprendizado

Além do prazer de educar, Euclides Gomes, 50 anos, entrou na faculdade de olho nos concursos públicos. "Quero aproveitar a oportunidade que tenho agora, depois que criei meus filhos, porque quando eu era mais jovem não podia. Sempre sonhei ser educador. O salário é baixo, mas fazendo o que você gosta, compensa", ensina.

A hora e a vez delas

Desde criança, ensinar sempre foi o grande desejo profissional de Ângela Erba, 45 anos. "Eu sempre quis ser professora, sempre gostei de ensinar. Meu maior prazer era ajudar o meu filho, Jorge Badaoui, a fazer as tarefas de casa", conta, ao citar o filho de 22 anos, que atualmente trabalha como técnico em telefonia e mora em São Paulo. "Ele cresceu, é independente e eu decidi concretizar o meu sonho de ser professora. Recebo o incentivo dele e do meu marido, Cláudio", enfatiza.

Quem concorda com Ângela é a colega de sala Cássia Miguel, que vive "babando" no netinho e já criou três filhos. "O apoio da família é fundamental. Sempre estivemos ao lado deles, providenciando tudo o que precisaram e abrimos mão de tudo pelos filhos. Agora é a minha vez", desabafa Cássia.

Quem já se formou em pedagogia, é concursada e até fez especialização em educação especial e psicopedagogia é Flordalisa Silva, que completou 45 anos na última semana. O desafio dela agora - depois que realizou o sonho de ser educadora e ver as duas filhas crescerem, Mariana, 24 anos, e Mirela, 20 - é o trajeto diário entre Bauru e Lençóis Paulista. Ela atua como professora na Escola Estadual Rubens Pietraróia, em Lençóis.

Funcionária do Estado há 22 anos, a função exigiu que Flordalisa procurasse uma universidade. "Na minha turma de faculdade havia apenas outras seis pessoas da mesma faixa etária que a minha. Havia 20 alunos mais jovens, com menos de 25 anos", recorda-se.

Olhar de professora

A professora Adriana Cristina Lázaro, que leciona matemática para a turma dos "mais velhos" na instituição consultada pela reportagem, observa que em uma mesma sala de aula existem alunos de várias faixas etárias e com diferentes objetivos. "Misturam-se em sala os alunos que acabaram de concluir o ensino médio, profissionais que já fizeram outras graduações e ainda procuram se encontrar em uma profissão, além, é claro, dos estudantes mais experientes, que não puderam prosseguir seus estudos na idade desejada devido a situações adversas", explica Adriana.

"Trabalhamos com alunos que buscaram primeiro estruturar suas vidas, constituíram família, criaram os filhos e, nesta etapa da vida, tiveram a oportunidade de encontrar um tempo para eles e para se reencontrar também com seus sonhos em busca de uma formação no nível superior", conclui a professora, que tem orgulho de ver mães e filhas estudando juntas, fazendo o mesmo curso, na mesma sala de aula.

Estudante de 45 anos concilia trabalho, faculdade e cinco filhos

Cursando o oitavo semestre do curso de Direito em Bauru, a bancária Darlene Braz Sartori, 45 anos, conta como foi sua saga para realizar o sonho da juventude: estudar Direito e ser advogada.

"No início dos anos 1990, quando o pai dos meus filhos (hoje ex-marido) entrou no curso de Direito, eu o apoiei. E ficou combinado que, quando ele terminasse os estudos, seria a minha vez de cursar também", lembra. Durante este período eles tiveram três filhos: Bruno, 20, Letícia, 18, e Rafael, 14.

Darlene conta que em 1999, quando o ex-marido se formou, ela chegou a cursar Direito durante um ano. Porém, precisou abandonar os estudos. "Ele não me deu apoio algum e eu precisei trancar a matrícula". Em 2001 ela engravidou novamente e deu à luz Laura, hoje com 12 anos.

"Após a Laura nascer, nós nos mudamos de Bauru para seguir o pai deles, que havia conseguido um bom emprego na área jurídica na cidade de Cáceres, no Mato Grosso", conta Darlene, que mais uma vez, segundo ela, precisou abrir mão dos seus próprios desejos para apoiar o marido. A faculdade havia ficado ainda mais distante, principalmente com a quinta gravidez, de Vinícius, hoje com 8 anos.

"Ele falou que eu não iria dar conta dos filhos, trabalhar e estudar ao mesmo tempo", recorda Darlene, que atualmente, sete anos após o casal ter se separado, desfruta de mais uma vitória pessoal. "Provei que ele estava errado. Voltei para Bauru em 2006, assumi sozinha a criação dos meninos e em 2010 dei início à realização de um sonho", conclui.

Dificuldades superadas a cada dia

É natural que, após passar anos longe dos "bancos da escola", algumas dificuldades surjam no novo ambiente acadêmico. Entretanto, com a experiência de vida, determinação e força de vontade, todas elas podem ser superadas. As histórias relatadas aqui são o exemplo prático - e vitorioso - dessa teoria.

"Alguns, através de seus olhos curiosos, demonstram dificuldades na compreensão e no acompanhamento de alguns conteúdos. No entanto, não se entregam, são persistentes e buscam o aprendizado", revela a professora Adriana Lázaro.

"Dona" Carmen, por exemplo, aquela aposentada do início da reportagem, revela que, no início, os maiores "monstros" que ela viu em sua frente foram o computador e a internet.

"Eu era acostumada com a máquina de datilografia, algo que os adolescentes de hoje precisam pesquisar para saber o que é", brinca. Segundo Carmen, os alunos mais novos ajudaram na formatação dos seus primeiros trabalhos realizados no editor de texto. "De resto, eu não tenho problema algum. Me divirto com todos, fazemos trabalhos em grupo com a garotada e todos me querem bem", complementa.

O que o mercado de trabalho espera?

O especialista José Munhoz Maciel, docente da pós-graduação de Gestão Estratégica de Pessoas do Senac Bauru, alerta que o primeiro aspecto que se deve considerar nesta "nova realidade" de universitários é o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Segundo o IBGE, a média saltou de 62,5 anos (1980) para 73,9 anos (2010). "Isso tudo está gerando um movimento interessante no mercado de trabalho", frisa.

Segundo ele, existem empresas que dirigem seus processos de recrutamento e seleção exclusivamente para pessoas na faixa dos 45 aos 60 anos. "Essas pessoas têm algumas características que interessam para uma significativa parcela do mercado de trabalho: são fieis à empresa, gostam de permanecer no mesmo emprego, valorizam bastante o tempo de serviço e a experiência adquirida, preferem ser reconhecidos pela dedicação, experiência e competência e não tanto pela capacidade de lidar com as novas tecnologias, embora, em muitos casos, isso se torne uma grande barreira para essas pessoas."

O especialista define que o perfil desses estudantes facilita no aspecto da maturidade, porém, de qualquer maneira, há mercado de trabalho para todas as faixas.

"Quanto aos entrevistados do curso de pedagogia, por se tratar da área de educação, sabemos que o país está muito carente desse profissional (professores) em todas as regiões. Desde o ensino básico até mesmo o superior. Então, creio, não faltarão oportunidades", projeta José Munhoz Maciel.

"Como dizia Leonardo Da Vinci: aprender é a única coisa de que a mente não se cansa, não tem medo e nunca se arrepende. Todos concordam também que é o único bem que ninguém lhe tira, pois vá o indivíduo para onde for, o conhecimento ele leva consigo", finaliza.


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