O vento teima em uivar pelas frestas em janelas e portas. Para alguns sugerem proteção aos alojados, para outros, agressividade do desabrigo. Agora, os dias frios se foram, resta o sol preguiçoso ameaçando esquentar no verão. Mais amarelo, o sol de setembro destaca as sombras; que belas fotos.
O inevitável está por vir e sempre têm os feitos para anunciar. Nos galhos retorcidos e secos dos flamboyants estão vagens rachando a soltar sementes. Por sua vez, os buganvilas exibem vermelho rutilante que nos deixam calados e perplexos pela abundância e vivacidade de seus tons. Mas, o mais elegante e ilustre que anuncia a próxima estação são os ipês sem folhas e repleto de flores brancas cadentes em tapetes estendendo-se pelo chão para receber a desejada primavera!
Os ipês choram flores o tempo inteiro. Talvez sejam lágrimas de alegria pela chegada da maravilhosa diva ou, pode ser, pela tristeza e saudade de que apenas o ano que vem nos veremos. Ipês choram por dias até se despirem por completo e revelarem sua pele sofrida, rachada e ressecada em sacrifícios para que os cachos floridos iluminem de alegria e romance nossas vistas! Os humanos são assim, depois de florirem e frutificarem também ficam cascudos, enrugados e ressequidos, sem que qualquer creme insistente dê jeito. Ipê, o que fizeram com você, no idioma indígena seu nome significa cascuda, pena que não colocaram em tupi um nome para lindo, fugaz e verdadeiro.
No meio de tantas árvores, um pequeno ou um grande ipê florido se exubera pela densidade e delicado tapete tão rapidamente formado que deixaria qualquer persa invejoso tamanha a sua beleza. No canteiro, na rua, na praça, no pasto ou no bosque o ipê derrama, chora e nos presenteia com flores cadentes e tão fugazes. O amor parece ser assim: belo, intenso e choroso!
Para a maioria mais uma árvore, para outros uma obra de arte. Para alguns, talvez pobres de espírito, ipês sujam calçadas e quintais; para outros lavam a vista embaçada da vida opacificada pela estupidez do dia a dia neste infindável mar de reclamações e exigências que as pessoas fazem consigo mesmo, deixando azedo tudo ao seu redor! Oh, ipês, derramem e soltem suas flores por mim e pelos que amam sem pensar que seja inconsequente! Aos chatos que têm medo, aos precavidos que não experimentam os sabores mais lúdicos e àqueles cujas reclamações redundantes de seus dias embaçam os olhos, eu lhe pediria caros ipês: - livrem os das algemas do bom senso e, por te observar, lhes ensine a ser explícitos, exuberantes, intensos e desprendidos. Faça isto, mesmo que no resto do ano, como você faz, tenham que ficar construindo uma nova florada ou paixão!
Amar na primavera e no verão; ah, como é bom! Melhor ainda é o amor no finalzinho do inverno: tem-se um frio a esquentar, um charme a despir nas grossas vestes e o mostrar tímido da pele que em breve irá florir sedantes superfícies e exalar sabores e odores pelos ares à busca de novos pólens que querem loucamente fecundar! Em cada flor, há uma imitação genital de insetos para que, atraídos e traídos, sujem suas patinhas numa pseudo cópula vegetal. No próxima flor, que o pouso sedento de amor e os pés sujos de pólen, fecunde-a para que novos e viçosos frutos e flores possam abundar nossas bocas e olhos na busca frenética, cíclica e aparentemente infindável de viver! Mesmo que por entre as gôndolas de um supermercado. Não se desespere caro inseto, em um desses seus pousos, uma cópula verdadeira há de acontecer!
Que assim seja comigo, os ipês, insetos, flores e frutos até o último dos meus suspiros, mesmo que seja apenas vistos pela janela em um leito à espera da morte. Venha primavera, que, de novo, eu te espero! E quero.
O autor, Alberto Consolaro, é professor Titular da USP em Bauru e articulista do JC