Aceituno Jr. |
|
|
“Não dirijo porque tenho medo”, diz Maria Silvestre, que cumpre todos os seus afazeres diários a pé ou de ônibus |
Nenhum carro particular nas ruas. Esta é a proposta do Dia Mundial Sem Carro, celebrado hoje, 22 de setembro. A ideia é que todos os proprietários deixem seus automóveis nas garagens e utilizem o transporte público, caminhem, pedalem, enfim, encontrem maneiras alternativas ao carro para se locomover nas cidades. Muitos enfrentarão enorme dificuldade para deixar o motor esfriar por infindáveis 24 horas, mas para outros não existe apenas um dia sem carro, todos os dias são assim. São pessoas que optam por não dirigir ou não ter um veículo por toda a vida (leia mais na página 5).
Em uma sociedade cada vez mais dependente do automóvel e onde o carro é cultuado, os “sem carro” provam que é perfeitamente normal e possível viver longe do volante. O professor de história e professor e diretor de teatro Paulo Neves é um eterno ocupante do banco do passageiro, seja em táxis ou na carona de parentes ou amigos. Ele relata que sua condição de “sem carro” vem de um comodismo.
“O primeiro motivo foi a acomodação minha. Minhas ex-esposas dirigiam muito bem e eu fiquei deitado eternamente em berço esplêndido. Para ser sincero, relaxei. Eu tinha carro, mas as esposas me levavam para os lugares”, relata. “Com toda a honestidade, pensei que elas dirigiam muito e, de repente, eu iria dirigir pela metade e ficaria mal no pedaço. Será que eu iria dirigir tão bem?”, questiona.
Neves revela que o seu “chofer” hoje é o filho, Thiago, que fica com incumbência de levá-lo aos lugares desejados. O professor também faz uso frequente do táxi. “Na falta do Thiago, não tenho dúvida, uso o velho e bom táxi. É intrínseco. Quando eu morrer, tem que ser colocada uma placa dizendo: ‘aqui jaz um cidadão que usou muito táxi em Bauru’”, diverte-se. “Ou então, o sindicato dos taxistas colocar uma mensagem: ‘Olha, morreu, hein! Ganhamos muito dinheiro com ele’”, brinca.
O professor também era um pedestre contumaz, o que terminou apenas por problemas de saúde. “Moro a oito quadras do local do meu trabalho. Enquanto eu tinha condições de saúde, vinha a pé sem problema nenhum e, se eu quisesse ir ao shopping, fazer pagamentos ou coisas deste tipo, pedia ao meu filho que me levasse. Foi daí que veio esta acomodação da minha parte. Na verdade, considero um erro (não saber dirigir)”, reflete.
Assim como Neves, a cozinheira Maria Silvestre dispensa o carro em sua rotina. “Não dirijo porque tenho medo, nunca tive vontade e nunca fui nem tentar tirar carta”, sentencia. Na verdade, ela admite que fez uma experiência, mas o desempenho ziguezagueante a desmotivou de seguir em frente com qualquer projeto de dirigir. “Uma vez só tentei pegar um carro para dirigir, mas parece que eu não tinha muita visão para onde ir, faço muita cobrinha com o carro! Larguei mão e não procurei mais”, lembra.
A falta de habilitação nunca foi empecilho para Maria resolver seus problemas e cumprir seus compromissos.
“Trabalho praticamente desde criança e sempre utilizei o ônibus. Criei nove filhos, indo atrás de médico e tudo que teria que fazer foi mesmo a pé e de ônibus. Foi sempre assim”, observa. A independência dos automóveis segue intacta.
“Todos os meus filhos têm carro, só eu que não tenho. Mas não incomodo eles para nada. Para tudo é mesmo a pé ou de ônibus”, orgulha-se. Maria revela que, quando perde o ônibus, recorre ao mototáxi.
Cultuado e problemático
O especialista em sustentabilidade por Harvard Felipe Bottini analisa o culto ao automóvel e as complicações que o excesso na frota mundial acarreta ao meio ambiente. Bottini lembra que, quando o automóvel surgiu em escala industrial, veio substituir as charretes e carroças e resolveu uma série de problemas da época. “Um vendedor de carros daquele tempo diria a um potencial cliente: ‘as rodas têm pneu, o que torna o passeio confortável e sem ruído. Não empaca se não for alimentado ou estiver de mau humor. Basta andar com um galão de combustível no porta-malas. Não defeca nas ruas, de forma a assegurar o uso limpo do passeio público e evita doenças à população. É mais veloz. Quando parado não precisa ficar amarrado pra não fugir’, e por aí afora”, exemplifica.
O sucesso da novidade foi imediato e automóvel transformou-se em símbolo de liberdade, status e virou objeto de culto e cobiça. “Tão atraente, sofisticado e confortável, o automóvel só poderia ter um destino: conquistar todos os cidadãos do mundo, que até hoje desejam ter um carro”, comenta. “Estima-se que no mundo existam atualmente mais de 1 bilhão de automóveis. Aproximadamente 4% estão no Brasil. Colocados em fila, dariam mais de dez vezes a distância da Terra à Lua”, destaca Bottini.
Porém, quando muitos passam a tê-lo e outros tantos a possuir vários, começa o problema. “O mundo mudou... Os centros urbanos aglomeraram muita gente em espaços reduzidos e as vias são poucas para tantos automóveis. Além de serem um sorvedouro de recursos naturais não-renováveis, são potentes fontes de emissão de poluentes e gases de estufa. A tecnologia de um motor a combustão é a mesma há quase cem anos. De toda energia que este motor gera, aproveitamos não mais que 30%. O resto é perdido por calor”, analisa Bottini.
O especialista observa que, hoje, o excesso de automóveis é líder de prejuízo financeiro e ambiental. “Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo, os prejuízos causados pelos engarrafamentos crescentes na cidade somam R$ 52,8 bilhões por ano, o equivalente a mais de 10% do PIB municipal. E os prejuízos não são apenas materiais. De acordo com a secretária de Economia Verde do Estado do Rio de Janeiro, Suzana Kahn, o setor de transportes é responsável por 23% das emissões globais de gases estufa e cerca de 50% a 70% dos poluentes atmosféricos”, declara Bottini.
Em Bauru, o problema do tamanho da frota não é menos grave. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a cidade tem frota de 186.590 veículos, sem contar as motocicletas. Com as motos, o número sobe para 239.218. A consequência pode ser sentida no dia a dia por motoristas e pedestres: trânsito violento, poluição e congestionamentos nas principais vias.
Habilitada e proprietária que prefere ônibus
Juraci Simões Greatti é radical na escolha de não dirigir. A dona de casa se dá ao capricho de ter carteira de habilitação, ter o carro em casa e, mesmo assim, optar por não guiar e ser partidária do uso do ônibus. No máximo, aceita uma carona ou outra do marido ou do filho em ocasiões especiais. “Eu me viro muito bem de ônibus, sem problema. Eu me programo e prefiro o ônibus mesmo. Carro é no caso de ir ao médico, quando meu filho ou meu marido me leva. E eu também tenho um pouco de medo de dirigir”, admite.
Greatti revela que já teve experiências como motorista, mas não se entusiasmou. “Até cheguei a dirigir, mas tem quem me leve para lá e para cá e me acomodei”, diverte-se. “Prefiro mesmo andar de ônibus”, reitera. A dona de casa justifica a opção pelo transporte coletivo. “Acho que tem muito movimento na cidade e você perde muito tempo. Às vezes, quando você vai ao Centro de carro, até que roda, roda procurando um estacionamento... Sei lá, prefiro ir de ônibus”, finaliza.
Namorada? Só com carro
A falta de intimidade de Paulo Neves com volante rende histórias engraçadas, como a estratégia no momento de arrumar namoradas. Sem habilitação e carro, o professor confessa que era calculista na hora de partir para a conquista: só valiam “candidatas” motorizadas. “Eu não iria ao longo da vida conquistar ninguém de táxi. Então, eu já via qual era a namorada que tinha carro ou não. Olha que terrível! Isso é maquiavélico!”, ilustra, entre risadas. “Mas o tempo passou, eu fui me acertando na vida, resolvendo as situações que precisava resolver e acho que a grande falha foi mesmo a acomodação minha”, penitencia-se.
Neves ressalta que nunca se entusiasmou com carros e nem entende o culto que o automóvel desperta. “Não tive durante a vida o encanto por carros. Vejo meus colegas falando de carro, todo mundo tem seu carro de marca. Acho legal, que bom... Mas não me encanta. Posso estar totalmente errado, mas não me encanta”, declara.
‘Carro na veia’
Há quem passe uma vida sem guiar, e outros não vivem sem dirigir. É o caso de André Luis Rimundini, que faz do automóvel sua profissão, seu lazer e, não satisfeito, parte para o automobilismo competitivo, onde faz desde a preparação do carro até a pilotagem em campeonatos de arrancada. Rimundini relata que a paixão por carros remonta aos cândidos anos da infância e do entusiasmo por velocidade.
“Moleque já começa desde pequeno a brincar de carrinho, sempre tem a ver com os brinquedos com corrida. Conforme vai passando o tempo, a gente vai conhecendo as corridas de verdade. Com 14 anos, eu já ia para Interlagos ver corridas e cresci vendo isso. É um gosto antigo”, aponta.
Das brincadeiras com carrinhos, Rimundini passou para as competições com carrões. Aos 20 anos, o admirador saiu da arquibancada para pista. O torcedor virou mecânico e piloto. “Já tinha habilitação e, depois que peguei meu primeiro carro com 18 anos mesmo, a gente vai mexendo, melhorando, aprendendo alguma coisinha. Até que comecei a andar na pista e sempre estive envolvido”, revela. Do início nas competições até hoje, são 19 anos ininterruptos de provas de arrancada.
Rimundini revela como é a adrenalina das provas de arrancada, que são disputadas em pistas de 201m e 402m, respectivamente, um oitavo e um quarto de milha. O piloto explica que a maioria das provas é de 201m, só existem duas pistas de um quatro de milha funcionando no País. “É uma média de oito segundos para o carro percorrer do zero aos 201m, e ele chega a passar na linha de chegada a 160 quilômetros por hora. Para ter uma noção, um carro normal iria demorar quase uns 20 segundos para fazer a mesma distância e não chega a dar 100km/h”, compara.
E como tempo é relativo, oito segundos ganham proporções inesgotáveis para o ocupado e pressionado piloto, que precisa administrar inúmeras funções, além de acelerar.
“É muito rápido, mas para nós que estamos dirigindo, tem que controlar o carro e não pode errar nada para poder aproveitar o máximo possível e fazer o tempo bem pequeno. Parece que é uma hora dentro do carro, acontece muita coisa. Para quem está de fora é rapidinho, mas dentro é diferente”, observa.
A paixão de Rimundini por automóveis é tão forte que o entusiasta trabalha com equipamentos para carro. Ou seja, tem a vida dedicada aos autos. Curiosamente, Rimundini não usa o carro diariamente, mas admite que existe um fator psicológico que o tranquiliza só de saber que o carro está lá na garagem, esperando, sempre pronto para ser usado.
“Por causa do trânsito, a questão de agilidade, eu acabo andando até mais de moto. Mas se o carro não estiver pronto na garagem, se eu não souber que ele está lá, eu fico meio chateado”, admite.
Deixar o companheiro paradão, com o motor frio, tem que ser uma opção. Caso seja uma imposição ou falta de alternativa, Rimundini afirma que o incômodo atinge níveis preocupantes.
“Eu posso não usar o carro a semana inteira e saber que não vou usar na próxima, mas se desmontou o carro por algum motivo, mesmo eu sabendo que não vou usar, não consigo ficar sossegado. Se falar que não poderei usar, acho que começo a entrar em choque”, brinca.
Pedestre por vocação
Regina Maria da Silva Zardetto é uma pedestre convicta. Avessa aos automóveis, descarta até mesmo o táxi ou ônibus para transitar pela cidade. A locomoção é mesmo andando. “Tudo que você possa imaginar, resolvo andando. Um dos meus filhos me deu um carro, mas tenho pânico de carro. As poucas vezes que usei, bati”, confessa. Antes, o veículo era a bicicleta, mas um roubo na avenida Getúlio Vargas quando emprestou a bike para a filha acabou com os tempos de ciclista. “Fiquei muito chateada porque a bicicleta era cara, mas até dezembro compro outra”, projeta.
Enquanto a nova bicleta não chega, ela não sente a menor falta de automóvel e enaltece as vantagens de caminhar pela cidade. “Eu morava no Sabiás e já trabalhava no Centro. Da minha casa até o trabalho dava uma hora batida, sem parar. Eu vinha para o trabalho e voltava a pé. Tenho 55 anos e não tenho diabetes, não tenho colesterol, nem pressão alta. Nada. E na minha idade já até tinha que ter aparecido alguma coisa. Caminhar e correr é decisivo”, acredita.
Além de caminhar diariamente para o trabalho e outros compromissos, Regina ainda pratica regularmente atividade física. “Eu vou ao banco, supermercado, tudo a pé. O dia que não trabalho, moro no Centro e subo a pé até a Getúlio, corro e volto a pé”, conta. O tempo não tem influência também no hábito. “Amo andar na chuva”, garante. Caminhar diariamente ainda proporciona interação e relaxamento, destaca. “Caminhar é prazeroso. Eu tenho uma ansiedade grande, faço quatro, cinco coisas ao mesmo tempo e caminhar me acalma. Caminhar, ver pessoas, falar bom dia... Se tem uma pessoa de idade, ajudo a atravessar a rua. Carro não me faz falta”, reitera.
O carro, presente do filho, está sempre guardado e já ficou “esquecido” por seis meses. “Quando eu fui ligar, não pegou. Liguei para o mecânico e ele me perguntou há quanto tempo eu não ligava o carro. Falei: ‘seis meses’. Ele respondeu que cada vez que eu fosse usar o carro iria ter que comprar uma bateria nova”, relata, divertida. Regina ainda compara a diferença de humor de quem caminha e quem dirige. “A pé você interage com as pessoas. Percebo que de carro as pessoas estão irritadas, buzinam, não dão seta, é cruel”, lamenta.
O motorista dos outros
Quem não tem veículo próprio ou não dirige, costuma apelar para o serviço do taxista. O profissional que dirige para os outros muitas vezes tem clientes fixos e os serviços prestados ultrapassam o limite da condução. O taxista Rubensval da Silva Campos tem uma lista de clientes fixos que responde por praticamente 50% da demanda geral de suas corridas diárias. Campos explica o perfil destes clientes. “É quem não dirige, pessoas de idade, principalmente”, aponta.
Campos, além de levá-los ao destino desejado, presta auxílio em várias tarefas. “Levo ao médico, pego exames em laboratório e levo aos consultórios, levo ao supermercado para fazer compras. Isso é em 90% dos dias de trabalho”, relata. “Tem várias pessoas de idade que eu entro no supermercado junto, pego as compras. Outras, eu espero, outras a gente vai embora e depois elas chamam novamente. Tem de todo o tipo”, explica. O taxista comenta que a relação com os clientes fixos extrapola a prestação de serviço. “Vira amigo. De alguns conheço o filho, neto, sogra, sogro...”, brinca.
Um dia longe do ‘carango’
O apaixonado por carros André Luis Rimundini concorda com a iniciativa de ficar pelo menos um dia sem sutomóvel. “Sou a favor de não usar o carro sempre. Se todos tirarem o carro da garagem no mesmo horário, ninguém consegue andar. Fora a poluição e uma série de outras coisas”, pondera. Mas salienta que, mesmo quietinho, guardado, em folga, sente necessidade de saber que o “carango” o aguarda. “Tem que ter o carro lá para uma hora que precise mesmo. No caso de uma emergência ou pela necessidade psicológica”, diz. “Mas dá para ficar um dia sem carro, principalmente para ajudar o meio ambiente e o fluir do trânsito”, conclui.
