Ser

A receita da alegria

Bruno Freitas
| Tempo de leitura: 10 min

À primeira vista, quem vê um grupo de jovens com rostos pintados, nariz de palhaço e cabelos coloridos pode achar estranho, principalmente se eles estiverem transitando pelos corredores de um hospital. Mas quem os vê de perto, dificilmente consegue esconder um sorriso, ainda mais quando eles trazem na voz e no violão uma melodia alegre e que proporciona, a um ambiente com clima pesado e frio, um sentimento contagiante que leva o nome do projeto: alegria.

Os voluntários transformam os corredores e os leitos do Hospital Estadual de Bauru em um pedacinho de "circo" e de teatro, animando os pacientes e renovando a energia dos familiares e acompanhantes, buscando reduzir o sofrimento de cada um deles por meio de brincadeiras, piadas, canções e uma boa prosa. Cada encontro é uma transformação.

"O Projeto Alegria é minha vida, é o que eu sei fazer. Dou o máximo de mim pelo projeto, aprendo bastante, cresço, choro e vivo os melhores momentos da minha vida ali. Como voluntário, eu aprendi com pessoas simples a ser mais humilde e mais compreensivo com a vida e a reclamar menos dos meus problemas", conta o palhaço ?Tio Puff?, conhecido também (por poucos) como Gustavo Henrique Hungaro Barbosa, 28 anos, voluntário do Projeto Alegria há oito anos.

"Uma grande lição que obtive com tudo isso foi a de aprender com meus problemas e ver que são tão pequenos perto das pessoas que visitamos", comenta.

Essa troca de benefícios, entre os pacientes que são visitados e os voluntários que dedicam o tempo livre para fazer os enfermos rirem, é unânime entre os palhaços, assim como a medicina já classifica o riso como agente de cura e um eficiente instrumento terapêutico que favorece a recuperação.

"Me lembro até hoje de um menino que não queria tomar o seu remédio e de um senhorzinho que não se alimentava direito há algumas semanas. Começamos a fazer uma apresentação diferente e eu brinquei com ambos, em dias diferentes. Fiz graça, eles riram, esqueceram um pouco dos problemas, se alimentaram, tomaram os remédios e seguiram em frente", lembra Tio Puff sobre dois episódios importantes dos seus oito anos no projeto.

"Temos a oportunidade de fazer pessoas com câncer, enfermos com doença degenerativa e com paralisia cerebral esquecerem um pouco dos seus sofrimentos e apreciar o momento de alegria e de descontração", conclui.

"Nem toda palavra é aquilo que o dicionário diz", conforme cita a peça "Sonho de uma flauta", produção musical de "O Teatro Mágico". A tristeza, a depressão e o choro, para os missionários da alegria, certamente significam uma página em branco prontinha para ser rabiscada, desenhada e colorida.

Vale a pena

Para o médico norte-americano Patch Adams, aquele que começou com esta história de ?palhaços? em hospitais (leia mais na página 3) e que tornou possível a transformação na medicina e na disseminação de ?Doutores da Alegria? por todo o mundo, a felicidade e o ato de fazer os pacientes darem boas risadas aumenta a produção de endorfina (analgésico natural), relaxa as artérias, acelera o pulso e baixa a pressão arterial, melhorando assim a circulação e beneficiando a reação imunológica.

Quer mais? O sorriso movimenta 12 músculos faciais, número que dobra quando liberamos deliciosas gargalhadas. E é essa a missão dos voluntários do Projeto Alegria, que são mais de 100 divididos em sete grupos, que por meio de uma parceria com o Hospital Estadual de Bauru realizam visitas todos os dias da semana, das 19h30 às 20h30.

"Quando vamos a uma visita, assim que entramos em algum dos quartos, seja de criança, adulto ou idoso, já vemos os sorrisos dos pacientes. Alguns mais discretos, no caso daqueles que não estão acostumados com coisas assim, mas a maioria, apesar do estado de saúde, se torna pura alegria", conta a voluntária Daniela de Souza Costa, 28, que ao lado dos outros ?doutores do sorriso?, sempre recebe o convite para voltar com novas piadas e outras melodias tocadas no violão.

"A cada visita eu aprendo a dar mais valor na minha vida, na família, nas pessoas que eu amo e na saúde que eu tenho", revela.

Para Daniela, uma das visitas que ela nunca esquece foi quando entrou em um quarto onde havia um casal de idosos, "bem velhinhos", com mais de 40 anos de laços matrimoniais, em que a esposa cuidava do marido que estava doente e internado há algumas semanas.

"Eles eram muito fofos. Além de alegramos o casal, eles nos fizeram perceber que ainda existem pessoas boas neste mundo, no qual vale a pena lutar e cada minuto que nos dedicamos aqui", complementa Daniela.


Senhor Voluntariado

"Poder fazer algo para o próximo não tem preço. As pessoas que visitamos não precisam de muita coisa, muitas vezes só de um bate-papo e a atenção em ouvir uma boa história. Este simples gesto faz uma diferença enorme na vida de alguém", ensinou o ?Senhor Voluntariado?, título que pode resumir o que o popular Paulão faz do seu tempo livre. Além do Projeto Alegria, ele participa de atividades em várias outras instituições assistenciais de Bauru, uma em cada dia da semana.

"Participo há 13 anos do Alegria, há 10 anos no Projeto Colmeia da Vila São Paulo, cortando o cabelo da garotada, há 10 anos no Paiva, há 4 anos na Vila Vicentina e há 4 anos na Sorri-Bauru", calcula o aposentado Paulo Roberto Migues, na juventude dos seus 52 anos. "O bem ao próximo tornou-se o meu combustível", avalia.

Quando Paulão foi apresentado ao Projeto Alegria, em 2000, ele chegou a pensar que não seria capaz, mas, "no momento em que você pinta o rosto e se veste de palhaço, você encara o personagem e as coisas fluem naturalmente".

Segundo a presidente da diretoria do Projeto Alegria, Flavia Sponton Martins, 23, quando os voluntários visitam também os asilos e orfanatos, proporcionando uma tarde diferente com muita alegria, abraços e sorrisos, eles conseguem, por meio de doações, realizar um café da tarde diferente a eles.

"Eu entrei no projeto há dois anos, por meio de convite de amigos. Gostei e fui crescendo junto ele, adquirindo experiências de vida, dividindo histórias, tendo a oportunidade do desenvolvimento pessoal e amadurecimento", conta Flávia.


14 anos espalhando o ?vírus? do sorriso


"Pequenos gestos fazem toda a diferença, ainda mais quando um rosto pintado e um nariz vermelho conseguem dar cor a uma vida repleta de tons de cinza". Esta é uma das frases que resumem os 14 anos de voluntariado do Projeto Alegria em Bauru, que não tem fins lucrativos e já proporcionou incalculáveis sorrisos e gestos fraternos realizados pelos voluntários.

"Eu criei o Projeto Alegria logo depois que perdi meu filho Bruno, aos 16 anos, isso em 1998. Ele era muito jovem, e isso me motivou a criar algo que mostrasse os valores das pequenas coisas da vida e que os jovens precisam saber que não são só os velhos que morrem", diz a psicóloga Maria Claudina Cury, que deu origem ao Projeto Alegria em 1999.

Segundo ela, o Alegria começou reunindo pessoas entre 15 e 18 anos para brincar com as crianças da pediatria do Hospital Base. "Depois, alguns universitários e pessoas mais velhas pediram para entrar, o projeto foi se expandindo e eu passei o bastão para novas lideranças", conclui Maria Claudina Cury.

Quatro anos depois, com a inauguração do Hospital Estadual (HE) em Bauru, em 2003, o Alegria iniciou a parceria com o HE e o número de voluntários começou a crescer.

"Devido à Política Nacional de Humanização, o Hospital Estadual de Bauru abre as portas para várias iniciativas de voluntários, que se organizam em um projeto para entreter os pacientes. Entre eles está o Alegria, que desenvolve um projeto muito bem organizado e importante no interior das unidades de internação, clínicas médicas, pediatria e oncologia", explica Maria Alice Ferraz Troijo, psicóloga responsável pela humanização e voluntariado do hospital, que é administrado pela Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp).

"Eles desenvolvem atividades lúdicas e pedagógicas com as crianças em nossa brinquedoteca e amenizam o sofrimento que elas adquiriram ao sair de suas rotinas, de suas casas, das escolas, do convívio com os amigos. O entretenimento deles é fundamental na recuperação de cada um", ressalta a psicóloga.

Ainda de acordo com Maria Alice Troijo, os voluntários do Alegria seguem todas as normas exigidas pela administração do hospital, que prepara os novos ?palhacinhos? para entenderem como é a internação para, depois, realizarem as visitas, que segundo ela, "minimizam o estresse e funcionam como agente de recuperação na vida dos pacientes".

De olho no futuro...

De acordo com a diretoria do Projeto Alegria, no próximo ano serão colocadas em prática algumas ações novas para os voluntários alcançarem um objetivo antigo, que é a viabilização de uma sede própria.

"Além de aprimorarmos ainda mais nas questões do projeto como as palestras, reuniões e workshops, também vamos oferecer ainda mais recursos às instituições que visitamos", adiantou a presidente Flávia Martins.

Ainda segundo ela, uma vez por mês, normalmente, são feitas visitas externas em asilos, orfanatos e até mesmo a participação em algumas outras ações sociais em Bauru, além, é claro, das já consagradas atuações diárias do hospital.

"Todas as nossas festas e campanhas de arrecadação, seja de dinheiro, mantimentos ou roupas, têm a renda revertida para instituições assistenciais de Bauru, como o Paiva, a Vila Vicentina, Casa da Criança, Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), Legião Boa Vontade (LBV), Projeto Amor e Ação, entre outros", acrescenta Flávia Martins, que aguarda patrocinadores para que o Projeto Alegria continue fazendo muita gente sorrir.

Para fazer parte da iniciativa e se tornar um voluntário do Alegria, assim como fazer doações ao projeto e se tornar parceiro dele, basta enviar e-mail para projetoalegriabauru@gmail.com.


Alegria abençoada

Paralelamente ao Projeto Alegria, quem começou agora e busca acompanhar os passos do "irmão" mais velho na cidade é o MIR Alegria, que surgiu da iniciativa de Fernanda Pereira dos Santos, 29, e foi abraçado pela igreja Ministério Internacional Reconciliar, localizada na quadra 3 da avenida Castelo Branco.

"O que acendeu a chama de levar este projeto adiante foi uma visita que fiz para uma criança de 12 anos que fazia tratamento contra a leucemia, em uma de nossas primeiras visitas. Naquele dia, a mãe da mocinha me pediu: venha ajudar a alegrar a minha filha. Meus olhos se encheram d?água e essa imagem eu levarei para a vida toda", lembra Fernanda.

O que difere o MIR Alegria do Projeto Alegria, segundo ela, é que "as visitas também procuram dar, além das brincadeiras e entretenimento, um ar mais religioso, espiritual e com o carinho e a palavra de Deus", conta.

As pessoas que quiserem conhecer o MIR Alegria e fazer parte do projeto devem entrar em contato pelo e-mail: nanda.pereira1983@hotmail.com.


A semente da felicidade

De suicida e interno de uma casa psiquiátrica para o status de médico revolucionário. Assim foi o início da história do médico norte-americano Hunter ?Patch? Adams, que tornou possível os Doutores da Alegria se espalharem pelos quatro cantos do mundo e a realização de projetos semelhantes ao Alegria.

Sua história de vida foi retratada no filme "O amor é contagioso" (Estúdio Universal - 1998), interpretado pelo ator Robin Williams. A produção cinematográfica baseada em fatos reais serviu de inspiração para o surgimento de vários grupos de disseminadores do riso.

Patch Adams é autor de três livros, dois deles publicados no Brasil. Neles, Patch defende sentimentos como humor, compaixão, alegria e esperança no tratamento de pacientes. Hoje, aos 68 anos, Patch dirige o Instituto Gesundheit (saúde, em alemão), nos Estados Unidos, que atende pacientes de graça em um país que não possui gestão de saúde pública como o Sistema Único de Saúde (SUS), administrado no Brasil.

O grupo de voluntários mais antigo do Brasil é o Doutores da Alegria, entidade sem fins lucrativos que, desde 1991, atua junto a crianças hospitalizadas. A essência do trabalho é a utilização da paródia do palhaço que brinca de ser médico no hospital, tendo como referência a alegria e o lado saudável das crianças e colaborando para a transformação do ambiente em que se inserem.

O projeto cresceu tanto que, em mais de duas décadas, seus integrantes já realizaram mais de mil visitas com um elenco de cerca de 40 palhaços profissionais (não voluntários), e possui unidades em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Recife.

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