A impermanência é o retrato da realidade. Tudo está sempre em fluxo contínuo ? exatamente como as quatro estações: o inverno transforma-se em primavera e o verão em outono. Assim como o dia torna-se noite, tudo se transforma constantemente: bebês transformam-se em crianças, adolescentes, adultos, velhos e em algum ponto do caminho, morrem. Nos dias atuais parece que as pessoas não respeitam a impermanência porque ela acaba sendo um espelho que reflete as frágeis e efêmeras criaturas que estamos condenados a ser. Assim, a vida prática se organiza para que nada prejudique a sua máxima eficiência operacional e tudo funcione como se a impermanência não existisse.
Quando não respeitamos a impermanência nos comportamos como crianças construindo um castelo de areia. Nós o enfeitamos com lindas conchas, pedaços de madeira e caquinhos de vidro colorido. Se alguém o ameaça, estamos dispostos a defendê-lo. No entanto, apesar do nosso apego, sabemos que, inevitavelmente, ele será levado pela maré. É utópico pensar que podemos nos refugiar nesse castelo, é inútil buscar algum tipo de segurança duradoura ou que podemos resolver todos os nossos problemas para sempre: ter um gramado sem ervas daninhas, uma vida sem antagonismo, um mundo sem confusão.
Pensamos que tudo será perfeito se tivermos o que queremos, se malharmos bastante e se nos alimentarmos bem. Buscar segurança ou perfeição, alegrar-se por ter a sensação de sentir-se autossuficiente e confortável, na verdade, é uma espécie de morte. Não entra nem um pouco de ar fresco nesse tipo de atitude. Temos que deixar espaço para que algo diferente aconteça, porque, mais cedo ou mais tarde, vamos nos deparar com uma experiência que não poderemos controlar: alguém que amamos morre, um tijolo cai do céu bem em nossa cabeça, alguém derruba molho de tomate em nossa camisa branca, vamos ao nosso restaurante favorito e descobrimos que oitocentas pessoas estão, também, chegando para o almoço.
O desafio é a essência da vida. Às vezes ela é doce, às vezes ela é amarga. Ser plenamente humano é ser jogado para fora do ninho o tempo todo. Viver plenamente é estar sempre em uma terra de ninguém, é experimentar cada momento como algo novo e fresco. Embora criados em uma cultura que esconde a impermanência e a morte, nós a experimentamos o tempo todo: sob a forma de decepção, sob a forma daquilo que não dá certo, sob a forma de um permanente processo de mudança. Quando o dia acaba, quando termina um segundo, quando expiramos, quando nos agarramos ao que já temos, essa é a morte cotidiana. Por outro lado, viver é não resistir ao fato de que as coisas passam e ter a plena consciência de que tudo muda o tempo todo.
Virar as costas para a impermanência e fingir que ela não nos diz respeito não resolve. O ideal moderno de vida - a ambição de ganhar e consumir sempre mais e a intenção de permanecer indefinidamente jovem e esbelto ? não se sustenta. Essa postura empobrece nossa existência, reduzindo-a a uma espécie de corrida de obstáculos veloz e tecnicamente sofisticada mas rumo a lugar nenhum. Ao mesmo tempo, ela se choca frontalmente com duas realidades incontornáveis da condição humana: a senescência e a finitude.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru