“Eu sempre fui vidrado em concursos, tanto que, mesmo tendo passado para fiscal de rendas, continuei prestando por hobby”. O gosto de “seo” Norisvaldo Ferraz por fazer concursos e ser aprovado há quase 30 anos é transferido diariamente para seus alunos. Com muita simpatia e simplicidade, o proprietário da escola Ferraz Concursos, especializada na área de cursos preparatórios para esse tipo de seleção, conta algumas de suas principais passagens profissionais e pessoais na entrevista que segue.
Nascido em Agudos, o entrevistado de hoje lembra com carinho da infância que teve ao lado dos sete irmãos. Filho de ferroviário da Sorocabana, os dias de menino livre na cidade natal, o cinema, os circos e parques que desembarcavam na estação ainda estampam a memória do professor.
Casado, pai de seis filhos, 11 netos e 3 bisnetos, ele menciona com carinho a família. Religioso desde criança, a participação ativa na comunidade católica bauruense também faz parte de sua história.
Jornal da Cidade - Como teve início a história de quase três décadas da Ferraz Concursos?
Norisvaldo Ferraz - Eu dava aulas de contabilidade em Agudos quando apareceu um anúncio no JC sobre um concurso para fiscal de rendas. Fiz e passei. Em Bauru, eu fiz amizade com o dono da escola que hoje é minha e comecei a dar aulas na escola dele, até ser chamado para assumir o cargo de fiscal. Dava aulas de português, matemática, contabilidade, legislação, matemática financeira...
JC - Então a trajetória da sua escola começou com o senhor fazendo um concurso?
Norisvaldo - Eu era vidrado em concursos. Bom, passei no melhor deles, que é o de fiscal de rendas, e continuei prestando concursos por hobby (risos). E passei em muitos. Hoje não posso mais porque já tenho 70 anos. E quando o dono da antiga escola decidiu vendê-la, eu estava trabalhando em Goiás. Arrumei uma escala e ficava 10 dias lá e 20 dias aqui. Na minha ausência, minha esposa tomava conta sozinha da escola.
JC - Imagino que a escola tenha crescido muito com o passar do tempo.
Norisvaldo - Sim. Para você ter ideia, eu comprei uma sala de aula com 40 carteiras. Hoje, nossa média chega a 700 alunos por mês. Há alunos de todas as idades. Os cursos mais procurados são os preparatórios para os concursos do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), Tribunal Regional Eleitoral (TER), Tribunal Regional Federal (TRF), oficial de Justiça, bancos... O mais difícil é o de fiscal de rendas.
JC - Há muitas histórias sobre a “luta” dos concurseiros?
Norisvaldo - Muitas mesmo. Tem uma menina que chegou até nós querendo fazer um curso para prestar o concurso da Polícia Militar e não tinha dinheiro para isso. Ela ganhou uma bolsa de estudos, estudou e foi ficando por aqui. Ela participou de muitas outras seleções e hoje trabalha no Ministério Público da União.
JC - Qual é a sensação de ver a recompensa desses alunos?
Norisvaldo - Nossa, é uma maravilha. Acredito que fico tão feliz quanto os aprovados. Todos os que trabalharam na escola saíram concursados, inclusive alguns dos meus filhos. Um deles está em São Paulo na Fundacentro. Ele ocupa o maior cargo concursado de lá, acima dele só o presidente e o diretor, que não entram por meio desse tipo de seleção. Tenho uma filha que passou em muitos concursos, trabalhava como analista no INSS, saiu para ser mãe e só vai voltar quando as crianças estiverem em idade escolar. O marido dela passou em uns 10 concursos em primeiro lugar e atualmente trabalha no Ministério Público da União.
JC - E o senhor ainda dá aulas?
Norisvaldo - Sim. Eu troco qualquer festa para dar aulas. Eu me sinto um homem realizado com a escola. Não saberia viver fora daqui. Tenho uma relação muito boa com os alunos, inclusive, muitos voltam depois de passarem em concursos para visitar a escola, contar sobre a nova vida. Teve um que entrou para a Polícia Federal e me mandou uma foto com um fuzil nas mãos (risos). Tenho muitos alunos que são filhos de meus ex-alunos.
JC - Qual é o segredo que um concurseiro precisa saber?
Norisvaldo - Eu sempre digo para os meus alunos que, se querem passar em concurso, não devem olhar para a internet. Tem muita gente por aí que não entende nada, nunca passou em um concurso e fica dando dicas e opiniões. O negócio é estudar. Não tem outro jeito. E não existe apenas um curso para todos os concursos. A pessoa precisa focar em uma seleção. Você pode se inscrever em duzentos deles, mas foque um e estude o máximo que puder para os demais. Mas priorizar o que parece mais atraente é essencial.
JC - Quais foram os seus passos profissionais antes da escola?
Norisvaldo - Eu tive um escritório de contabilidade, por isso é que para mim foi fácil passar para fiscal de rendas. Naquela época não havia computadores e a gente precisava fazer tudo na mão. Você tinha de ler o Diário Oficial, então eu estava sempre por dentro de tudo. Eu também dava aulas.
JC - Quais são as melhores lembranças de Agudos?
Norisvaldo - Somos oito irmãos. Crescemos todos juntos. Minha família é muito grande. Só eu tenho seis filhos, 11 netos e 3 bisnetos. Minha infância foi muito especial. Meu pai era ferroviário, chefe de estação na Sorocabana, o que era uma maravilha, porque tudo ia pela Sorocabana. A gente não pagava para ir ao cinema, parque, circo... Era diversão o ano todo. Eu cresci em Agudos e estudei lá também. Depois fiz faculdade de matemática em Marília, mas não morei na cidade.
JC - Um momento difícil.
Norisvaldo - A passagem mais difícil da minha vida foi o assassinato do meu sobrinho mais velho, no último mês de março, em Agudos. Mataram-no para roubar. E foi com requinte de crueldade. Eu não consigo segurar as lágrimas quando penso nele.
JC - A maior alegria.
Norisvaldo - Graças a Deus, tirando o que fizeram com o meu sobrinho, eu só tive alegrias na vida. Uma das melhores coisas foi ter conhecido a minha esposa, Maria Emília. Somos inseparáveis. Estamos casados há 33 anos que valem por 100, porque passamos 24 horas juntos. Trabalhamos juntos, saímos de casa juntos, ficamos em casa juntos... Todos os meus filhos trabalharam comigo, mas passaram em concursos e foram embora (risos).
JC - O senhor menciona uma coleção de copos de bebidas como hobby.
Norisvaldo - Isso. Não sou capaz de me lembrar quando comecei essa coleção, mas já tenho muitos e muitos copos. E tem uma coisa, eu não gosto de comprar o copo, gosto de ganhá-lo. Eu compro a garrafa de vinho, cerveja, whisky, seja lá o que for, e ganho o copo. Tenho uma centena deles em uma estante. E quando faço aniversário, lá vem mais deles (risos). Antes disso eu colecionava selos.
JC - Por que parou?
Norisvaldo - Eu comecei a colecionar selos em meados da década de 1960 e isso durou até 1993. Nessa época, eu tinha uma agência dos Correios franqueada e trabalhava com tanto selo, mas tanto selo, que perdi a empolgação com a coleção. Minha coleção era completa. Eu tive todos os selos de 1965 a 1993. Todos catalogados, arrumados em pastas... Até que roubaram todos eles. Eu fechei uma antiga unidade da escola e deixei a coleção dentro de armários. Pois carregaram até os armários. Era uma coleção muito valiosa.
JC - O senhor é uma pessoa religiosa?
Norisvaldo - Muito mesmo. Sou católico e ajudo na Igreja como acólito, que é aquele que ajuda o padre nas ações litúrgicas, principalmente nas missas. Sou vice-presidente da Conferência Vicentina, da Paróquia São Sebastião, e faço parte da Cáritas Diocesana de Bauru. Para mim, a religião é tudo. Não sei o que é ser uma pessoa sem religião, porque vivo isso desde a infância. Ser religioso é estender a mão.
Perfil
Nome: Norisvaldo Ferraz
Idade: 70 anos
Cidade: Agudos
Esposa: Maria Emília da Silva Ferraz
Filhos: Arlete, Arnaldo, Márcio, Júnior, Emília e Simone
Hobby: Colecionar copos de bebidas
Livro de cabeceira: Bíblia
Filme preferido: “Titanic” e “E.T. O Extraterrestre”
Estilo musical predileto: Gosto de Roberto Carlos
Time: Palmeiras
Para quem dá nota 10: Para o Papa Francisco
Para quem dá nota 0: Para o tráfico de drogas
E-mail: ferrazconcursos@gmail.com