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Flores Raras

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em discurso na abertura de jantar oferecido pelo então governador da Guanabara Carlos Lacerda, para comemorar o êxito na derrubada do governo João Goulart (1964), a poeta norte-americana Elizabeth Bishop concordava com a frase famosa de Tom Jobim: "O Brasil não é para principiantes". No bom filme de Bruno Barreto "Flores Raras" (se correr pega a única sessão à tarde), Elizabeth demonstra todo o seu estranhamento diante da naturalidade com a qual os brasileiros tratavam o golpe militar de 1964. Enquanto o rádio anunciava o Ato Institucional nº 1, instrumento que "legalizava" todas as perseguições, punições, cassações de mandatos e de direitos políticos, ela via da janela do apartamento em que se hospedava, em Copacabana, pessoas indiferentes na praia, jogando futebol ou tomando banho de sol. Por mais que o golpe representasse a "vitória" contra a ameaça comunista significava também a perda da liberdade, o fechamento do Congresso, a censura, coisas gravíssimas para qualquer civilizado. O discurso de Elizabeth Bishop causou uma saia-justa que Lacerda procurou disfarçar. A poeta, uma das quatro melhores da língua inglesa, Prêmio Pulitzer de Literatura, viveu no Brasil um romance tórrido com outra mulher, a arquiteta Lota de Macedo Soares, amiga de Lacerda. Lota idealizou e dirigiu as obras do Parque do Aterro do Flamengo. Bishop, em suas duas décadas aqui vividas com a amante nunca conseguiu entender o Brasil ? o país era um "horror", "desorganizado". Naquele tempo o povo nem sonhava que pudesse existir relacionamentos gays mais profundos. O casal de lésbicas sequer poderia romper com um "tabu invisível". Na verdade foi mais do que par: um triângulo amoroso. A brasileira já vivia com outra americana em seu sítio de Petrópolis, onde as cenas se desenrolam. É difícil até entender como um filme brasileiro seja legendado, com a maior parte dos diálogos em inglês. Ainda bem que Glória Pires, no papel da "espada" Lota de Macedo fala inglês sem sotaque, até na cama em cenas de lesbianismo.

Magnificamente interpretada pela atriz australiana Miranda Otto, Elizabeth acha o brasileiro muito passivo. Chega a fazer um poema mostrando sua irritação com Manoelzinho, um meeiro do sítio de Lota que se nega a melhorar de vida. Para o embaixador norte-americano recém- chegado ela tenta explicar algumas intraduzíveis expressões brasileiras: The cow went to the swamp, ou seja, A vaca foi pro brejo; The king of the black cocunut candy, ou O rei da cocada preta. Se vivesse hoje não sei como a poeta faria para explicar "embargos infringentes" para os seus amigos estrangeiros. Coitada... Quase morreu com crise alérgica depois de morder um caju. Realmente, este país confunde os novatos. Se o visitante aceita o convite para almoçar é odiado. Se recusar um cafezinho, ofende o interlocutor. O contexto histórico e cultural não é o mais importante no filme. Compreensível. O foco está na relação entre as protagonistas. A realidade política permeia a história circunstancialmente. Dificil entender que Carlos Lacerda, conspirador de primeira hora quando governador, acabe exilado em Nova York, cassado que foi pela tal "revolução".

Mesmo desprezando esses aspectos culturais secundários, o filme angustia. Desses que o espectador pede para terminar logo, mas fica preso à poltrona. A poeta (detestava ser chamada de poetisa) é deprimida, alcoólatra, tem uma personalidade frágil. Contrasta com Lota de Macedo Soares, brasileira decidida, definitivamente uma mulher à frente do seu tempo, que despreza qualquer tipo de convenção. Se o seu romance com Elizabeth parece inapropriado em um primeiro momento, o amor entre elas é verdadeiro, resultando em bonitas sequências recheadas de diálogos bem trabalhados.

No fim, a decadência e a tragédia. Ganha quem sabe perder. Como num dos poemas mais festejados de Bishop, One Art (Obra-Prima): "A arte de perder não é nenhum mistério;/tantas coisas contêm em si o acidente/de perdê-las, que perder não é nada sério (...)" Uma mulher muda a vida de outra mulher. Mas onde estão as lésbicas de Bauru? Apesar dos avanços ainda os casais se esgueiram na sala de exibição com luzes apagadas, e sentam bem ao fundo, anônimos. São flores raras e banalíssimas.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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