Política

Estela torna pública crise com Rodrigo

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

Prefeito e vice, Agostinho e Almagro nunca falaram exatamente a mesma língua

O que deveria ser motivo para a celebração no governo municipal se transformou no palito de fósforo que faltava para incendiar o barril de pólvora, figura que representa a conturbada relação entre o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) e sua vice Estela Almagro (PT). A guerra – até agora, fria – ganhou conotação de crise política ontem.

Prometido desde a campanha eleitoral de 2008, o dinheiro a fundo perdido para o tratamento de esgoto finalmente chegou, mas o protocolo junto à Caixa Econômica Federal (CEF) foi assinado sem a presença e o conhecimento da líder petista, na última segunda-feira.

A indignação de Estela foi compartilhada, ontem, por meio de nota oficial. A vice chama para si e para o PT grande parcela da conquista dos R$ 118 milhões que viabilizarão a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) e aponta possível boicote do prefeito, motivado por questões eleitorais.

A petista afirma que no momento de “carregar o piano”, com dezenas de reuniões junto à Casa Civil, ministérios e Presidência da República, sua presença era considerada indispensável pelo governo municipal, em função da articulação política, e que não deixou de acompanhar cada detalhe do processo até a efetiva conquista do dinheiro.

“Causou-me muita estranheza que o selamento dessa conquista tenha sido feita na tarde de segunda-feira, sem que eu tenha sido ao menos comunicado sobre tal agenda. Pior que tenha sido agendada exatamente para uma segunda-feira e que eu (sabidamente pelo Gabinete) cumpria agenda na Capital”, diz Estela Almagro.


Última a saber

A vice-prefeita relata ainda que soube da assinatura pela imprensa, o que entristeceu a ela e a seu partido.

Na avaliação de Estela, o prefeito pode ter dado uma demonstração concreta de que pretende antecipar a agenda eleitoral de 2014, excluindo “aliados de primeira hora” e apoderando-se para si e para o PMDB conquistas que, em nenhuma hipótese, poderiam ser chamadas de somente suas.

Almagro pontua ainda que o governo está apenas no segundo de “oito semestres que se arrastarão” no segundo mandato, o que a faz enxergar o episódio com bastante preocupação.

“Governar junto implica em responsabilidade e respeito a partidos e lideranças, sob pena de quebra de compromissos que em nada contribuem para o bom desenvolvimento da cidade, que precisa do esforço de todos”, frisa a vice.

A petista encerra o texto dando a entender que o acontecido, apesar de ter recebido suas fortes críticas, não significa ainda o seu rompimento com a administração Rodrigo Agostinho. “Registro minha decepção e apelo publicamente para que o ato não se repita. Afinal, aliança, para mim, é, acima de tudo, compromisso e responsabilidade”.


A relação

Apesar da manutenção da aliança eleitoral na campanha de 2012, após o primeiro mandato do governo de coalisão à frente da Prefeitura de Bauru, Rodrigo Agostinho (PMDB) e Estela Almagro (PT) nunca falaram a mesma língua, mas vinham mantendo aparências, com exceção de algumas trocas de farpas via imprensa.

Para o segundo mandato, já é especulado um rompimento, em vista dos planos de Estela em se candidatar a prefeita em 2016, na corrida pela sucessão de Agostinho. Recentes desgastes, porém, podem antecipar a cisão entre os dois principais partidos da aliança de Rodrigo.

Além da assinatura do contrato para o tratamento de esgoto, a petista não foi contemplada com a Secretaria Municipal de Habitação, prometida pelo governo. O PT também perdeu a Secretaria Municipal de Obras após a saída de Eliseu Areco e recebeu como consolo apenas a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Sagra).

Outro episódio que irritou Estela foi a negativa de Rodrigo em relação à nomeação do marido, José Carlos de Souza Batata (PT), como titular da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) após sua derrota na eleição para vereador de 2012. O partido teve que se contentar com a manutenção de Roger Barude no cargo.


‘Festa só quando a estação estiver pronta’

Procurado pelo Jornal da Cidade, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) classificou as colocações de Estela Almagro como uma “grande bobagem”. Segundo ele, a assinatura do termo de compromisso junto à Caixa Econômica Federal (CEF) foi apenas mais uma etapa do processo e que a “festa” pela conquista só deverá acontecer quando a estação estiver construída e operando.

O chefe do Executivo afirma, porém, que gostaria de ter chamado sua vice, vereadores e a imprensa para acompanhar a assinatura do convênio, mas ele próprio soube da visita dos técnicos da CEF à prefeitura apenas 30 minutos antes da “solenidade”. “Não houve tempo hábil. O pessoal do DAE [Departamento de Água e Esgoto] veio porque já estava aqui do lado. Mas se ela ficou chateada, peço desculpas”, ponderou.

Rodrigo explica que a assinatura não foi planejada. “O empenho aconteceu na sexta e, por conta dos prazos da União, a Caixa preparou a documentação e nós assinamos para já devolver a Brasília. Foi uma luta contra o tempo e não tínhamos como esperar”, alega.

O prefeito descarta ainda que os desdobramentos da nota de sua vice culminem em uma crise de grande proporção e diz estar contente com a ajuda que tem recebido de Estela em seu dia a dia. Trata-se, inclusive, da primeira vice-prefeita com um gabinete no Palácio das Cerejeiras. “Apesar de ocupar um cargo de expectativa, ela desempenha um papel importante aqui. Isso foi acordado com o PT lá atrás”.


ETE

A expectativa é de que o edital de licitação para a obra da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) seja publicado até o final deste ano para que sua execução tenha início em março do ano que vem. O governo municipal espera concluir os trabalhos em setembro de 2015.

A data extrapola o prazo de dezembro de 2014, fixado em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público. “Vamos protocolar ofício ao MP para justificar o porquê disso. Acredito que não teremos problema”.

A construção da ETE Vargem Limpa implicará no custo de R$ 123.629.233,40, sendo que R$ 4.949.888,83 serão custeados por contrapartida do município, com recursos do Fundo de Tratamento de Esgoto (FTE), recolhido desde 2005 junto às contas do DAE e que já dispõe de mais de R$ 60 milhões.

A obra foi viabilizada pelo empenho de R$ 118 milhões, liberados do Orçamento Geral da União (OGU), por meio do PAC Saneamento.

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