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Começar de novo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Depois de criar os filhos e se aposentar, Elenir Aparecida Gonçalves Casemiro, 54 anos, decidiu retomar um sonho de juventude. Com tempo e recursos financeiros disponíveis, ela se matriculou no curso de agronomia e, há três meses, começou a fazer estágio.

Assim como ela, um número crescente de pessoas acima dos 40 anos de idade tem se aventurado em novos desafios no mercado de trabalho. Segundo o Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), atualmente existem quase 6 mil estudantes com esse perfil estagiando em organizações públicas e privadas de todo o País.

Malavolta Jr.

Luiz Roberto Ribeiro recebeu apoio irrestrito da família quando decidiu voltar aos estudos

Trata-se de uma tendência que também se consolida em Bauru. Elenir é apenas um exemplo de profissional, que, já na maturidade, decidiu começar uma nova jornada em busca de realização pessoal.

“Sempre gostei de agronomia, mas, quando eu tinha 20 anos, não tinha como fazer faculdade. Depois me casei, tive filhos e acabei trabalhando a vida toda na área de recursos humanos. Agora que os meus três filhos já estão adultos, chegou a minha vez”, comenta.

Estudante do quarto ano da faculdade de agronomia, há três meses ela começou a trabalhar como estagiária na área de zoobotânica da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Todos os dias, acompanha a equipe que realiza vistorias para autorizar a retirada de árvores na zona urbana de Bauru.

As manhãs tomadas pelo estágio e as noites investidas nas aulas de agronomia estão longe de ser uma sobrecarga na vida de Elenir. Tanto é que os dois compromissos se encerram no ano que vem e ela já começa a fazer planos. “Ainda não decidi, mas penso em trabalhar na área de paisagismo, fruticultura ou alimentos orgânicos. Em qualquer dessas áreas, seria uma grande realização”, garante.

Apoio irrestrito

Assim como ela, o estagiário Luiz Roberto Ribeiro, 56 anos, recebeu apoio irrestrito da família quando decidiu voltar a estudar. Matriculado no quarto ano do curso de direito, ele trabalha há dois meses na Defensoria Pública do Estado em Bauru.

A história dele e de Elenir são parecidas. Depois de os filhos alçarem voos próprios, decidiu “voltar a cuidar da vida” e começar a pôr em prática desejos que ficaram adormecidos ao longo do tempo.

“Na vida, a gente vai assumindo uma série de compromissos e vai deixando os sonhos para trás. Agora, com maior tranquilidade, resolvi retomá-los”, comenta. Luiz Roberto também trabalhou boa parte da vida na área de recursos humanos, embora também tenha se dedicado à contabilidade e análise de sistemas, entre outras profissões.

Agora, quer se tornar advogado para sentir-se “útil à sociedade”. “O retorno financeiro é uma consequência. Além de criar um novo desafio que me faz sentir estimulado intelectualmente, quero ajudar as pessoas”, frisa. Quando concluir o curso e for aprovado no Exame da Ordem, o plano é abrir um escritório de advocacia para começar, quase aos 60 anos de idade, a atuar na área cível.

Para empresas, estagiário experiente é vantagem

Se nas faculdades o preconceito contra colegas de classe mais maduros já é algo superado, nas empresas a realidade também não é diferente.

Segundo a supervisora do Ciee em Bauru, Simone Estruque Pires Nicolau, os estudantes quarentões agregam não só a vontade de colocar em prática aquilo que está aprendendo, mas também toda a experiência que os jovens ainda não têm.

“O interesse das empresas é crescente. O estágio não gera vínculo empregatício e a empresa pode testar aquele profissional sem o compromisso da contratação. Se ele se sair bem, tem grandes chances de ser efetivado”, garante.

Em Bauru, além da prefeitura e da Defensoria Pública, há estagiários trabalhando em instituições bancárias e de ensino, escritórios de advocacia, empresas incorporadoras da construção civil e recuperadoras de crédito.

De acordo com Simone, o estágio pode ter duração de até dois anos, com jornada máxima de seis horas por dia. A empresa que faz a contratação é isenta de impostos como Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O funcionário não recebe 13º salário, mas tem direito a bolsa-auxílio, vale-transporte e seguro, além de recesso remunerado uma vez ao ano.

Facilidade de acesso ao ensino superior impulsiona fenômeno

A facilidade de acesso ao ensino superior e a crescente exigência do mercado de trabalho por mão de obra qualificada têm levado cada vez mais pessoas acima dos 40 anos a voltar aos bancos escolares e buscar oportunidades de estágio. Se, por um lado, muitos estejam tentando trilhar uma nova carreira, de outro há quem tenha conseguido somente agora dar continuidade aos estudos.

Em ambas as situações, no entanto, o estágio é encarado como uma forma de se inserir no ramo de trabalho desejado e, assim, pleitear uma vaga de emprego, seja com o objetivo de melhorar seu patamar salarial ou realizar-se profissionalmente. Trata-se de uma conquista que se tornou muito mais palpável com o crescimento do número de faculdades ao longo da última década e com os incentivos oferecidos por meio de programas federais e estaduais de financiamento estudantil.

Da mesma forma, as empresas também têm estimulado seus funcionários para a capacitação profissional, já que exigem, cada vez mais, qualificação para todo tipo de função. 

“Por isso, muitas pessoas que não puderam estudar quando jovens despertaram, agora, para melhorar o nível de escolaridade”, analisa Duda Trevizani, diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp).

De acordo com o Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), os cursos mais procurados por alunos acima de 40 anos são pedagogia, direito, serviço social, administração e educação física.

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