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Ozires ajudou até a descobrir cicatrizante

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Em maio de 1986 ele avistou um objeto reluzente, de cor alaranjada no céu, a bordo de um avião Xingu PT-MBZ, perto de pousar em São José dos Campos (SP). Para o então piloto da Força Aérea Brasileira, um testemunho de contato com um objeto não identificado (Ovni), que se não lhe desvendou o mistério do que avistara, serviu para dar asas à sua imaginação empreendedora. Do ambiente onde reinavam os planadores, no Aeroclube em Bauru, ainda jovem, ao lado do companheiro Benedito César, o Zico, ele se perguntou como o País que tinha o inventor do avião não fabricava nenhum ‘pássaro de turbina’. Aos 83 anos, Ozires Silva, o visionário e criador da Embraer, ex-presidente da Petrobras e ex-ministro da Infraestrutura, ainda tem fôlego e principalmente entusiasmo para inovações. Como aquela que ousou implantar no ramo de biotecnologia, com a empresa Pele Nova, que criou em 2003, e que decolou com o surgimento de um cicatrizante que reconstrói tecidos a partir do látex da seringueira.


Assim é Ozires Silva, o piloto de avião de origem que acredita que o ambiente social protagoniza sonhos e para quem empreendedorismo é enxergar uma ideia no tempo. E concretizá-la. Foi assim que, ao conhecer pesquisa de integrantes da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, apostou na biotecnologia.


“Quando deixei a Varig fui avaliar projeto de biotecnologia, que hoje já conta com produto bem desenvolvido no mercado de reconstrução de tecidos a partir de proteína do látex. Fui procurado para fazer transferência de tecnologia para a indústria, com oferta de dinheiro para desenvolver isso. Isso foi pra mim alguém trazendo banana para o macaco. Eu sempre reclamei que o Brasil não tem propriedade intelectual, não tem coisa nenhuma patenteada no mundo e é invadido por marcas externas por qualquer lado que a gente olhe”, conta.


Ozires lembra que aceitou o desafio ao perceber o pioneirismo e oportunidade que o projeto desenhava à sua frente. “Aí o cara falou que tinha o dinheiro, que criaria uma espécie de academia e me deu a presidência da academia com o objetivo básico de pegar pesquisas e levar isso para o mercado e ele pagava a conta. Nasceu a Pele Nova. Pouco tempo depois, fui procurado por pesquisadores da USP da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e eles me disseram que o Brasil importa 90% da matéria-prima dos fármacos para fazer os remédios, o que eu não sabia. O Brasil, com a maior biodiversidade do mundo, não tem nada a respeito. Instigaram-me a inverter isso e minha cabeça foi a 300 km/h. Disso nasceu a ação na biotecnologia”, revela.


Ozires conta que os pesquisadores da USP de Ribeirão Preto se concentraram no látex da seringueira por uma razão muito simples: “A região perto de Ribeirão Preto é uma das maiores produtoras do Brasil do látex e eles, pesquisando, identificaram uma quantidade expressiva de proteínas para uso na área de saúde. O fascinante é que uma dessas proteínas estimula a vascularização sanguínea. Se você pegar o bebê com ferimento, no útero da mãe, ele recupera-se integralmente e nasce sem cicatriz. Eles chamaram esse fenômeno de angiogenese. É o estímulo da vascularização sanguínea criando ambiente para a regeneração celular e tecidual”, menciona.


Daí, as aplicações foram surgindo aos borbotões. “Feridas, tudo o que tiver insuficiência vaso-circulatória nosso remédio se aplica. Fizemos uma fábrica em Ribeirão Preto e começamos a testar o produto e a passar pelos inúmeros estágios clínicos para aprovar isso na Anvisa. Hoje estamos no mercado com o produto chamado Regederm, que tem feito feito trabalhos espetaculares. Ele evita amputações em diabéticos em uma quantidade espetacular e isso me deixa muito feliz. Pessoas que tinham feridas incicatrizáveis e pessoas com rejeição, como a pós-operatória, passaram a ter cura como uso do Regederm a partir dessa descoberta vinda de nossa natureza”, conclui.     


         

No mercado


O gel creme Regederm, proveniente de uma tecnologia licenciada com exclusividade pela Universidade de São Paulo, tem como inventor o professor Joaquim Coutinho Netto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. O produto foi desenvolvido pela Pele Nova, em colaboração com a USP, e chegou ao mercado no ano passado. O produto induz a aceleração do processo cicatricial com propriedade de regeneração tecidual. O público-alvo são os pacientes com úlceras cutâneas nos estágios agudos e crônico. As informações são da Agência USP.

Interferência na Petrobras

Ao comentar sobre as dificuldades enfrentadas pela Petrobras em relação à balança comercial, o ex-ministro Ozires Silva aponta para ingerência do governo federal na gestão técnica da estatal.


“Temos que olhar do lado institucional. A Petrobras hoje sofre interferência de mais das autoridades em Brasília e em consequência disso os planos não estão sendo desenvolvidos como deveriam. Visitei a Petrobras recentemente e vi que o ambiente interno continua entusiasmado. Mas o petróleo depende muito de estratégia de longo prazo. O ciclo de recuperação de uma jazida é de muito longo prazo, passando pela geofísica, a geologia e as perfurações experimentais, a cubagem da jazida, onde se começa a recuperar petróleo por uma sonda que custa um bocado de dinheiro”, resume.


Para Silva, falta visão de longo prazo, neste caso por interferência externa, do governo, na Petrobras. “E isso precisa mudar. Não é possível conduzir muito bem qualquer organização ou empresas onde há muitos chefes. O preparo criativo e o mecanismo de proposição de novos projetos têm de ser conduzido por uma linha técnica dentro da vocação da empresa e me pareceu que isso não está sendo aproveitado ou levado em conta na Petrobras”.


 

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