Maior pesquisa sobre crack no mundo mostra que, no Brasil, pode haver total de 700 mil usuários.
A projeção é reiterada pela psiquiatra e professora Florence Kerr Correa, da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.
Segundo ela, a Fiocruz fez, de fato, a maior pesquisa sobre crack do mundo.
O estudo confirma que o problema é muito grave. “É muita gente. Eles fizeram o estudo num universo de 370 mil usuários de crack nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal e metrópoles. Fazendo as estimativas, calcula-se que no país haja 700 mil usuários.”
A pesquisa divulgada pelos ministérios da Justiça e Saúde vai possibilitar ao governo definir as ações específicas para combater o problema.
A previsão é da ministra Eleonora Menicucci, da secretaria de políticas para as mulheres da Presidência da República ao analisar os dados do estudo batizado de “Perfil dos Usuários de Crack e/ou Similares no Brasil”.
“Pela primeira vez é explicitada a percentagem de usuárias em um estudo”, informa a ministra.
Locais de consumo
A pesquisa foi encomendada pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad) à Fiocruz. Para coletar dados, cerca de 500 profissionais foram acionados.
As equipes entrevistaram 7.381 usuários de crack, em 112 municípios de portes variados – incluindo todas as capitais brasileiras – entre novembro de 2011 e junho de 2013.
O estudo identificou que oito em cada dez usuários de crack fazem uso da droga em espaços públicos e circulação de pessoas, as chamadas cracolândias.
Dos 370 mil usuários pesquisados, 14% são menores de idade. A grande maioria, 56% estão concentrados nas capitais do Nordeste, onde foram identificados 28 mil menores nesta situação.
Mais de 44.5% dos usuários sofreram violência sexual em algum momento da sua vida.
A psicóloga e professora Adriana Tucci diz que o dado reflete a realidade. “É um dos fatores que leva a mulher a usar droga, porém não é só isso.”
No universo de 370 mil usuários de crack ou similares, 21.3% são do sexo feminino, ou seja, um número próximo de 78 mil mulheres consume a droga.
E mais: quase 30% delas (29,9%) se prostituem em troca de droga ou dinheiro para aquisição do entorpecente. Ou seja: o drama tem dimensões ainda maiores do que as aparentes.
De Botucatu
Um dado adicional alarmante é que mais da metade dos usuários pesquisados, 53.9%, nunca realizou teste de HIV e 39.5% não usam preservativo.
Para o diretor do Hospital Dia da Unesp/Botucatu, Alexandre Naime Barbosa, o Brasil vive a 2ª onda de epidemia de HIV. “Entre os usuários de crack.”
Ele acredita que o não uso de preservativos e a busca pela droga através da prostituição vai aumentar o número de bebês com Aids.
“Em termos concretos, a epidemia de crack aumentou o número de bebês com HIV.” Saiba mais nas páginas seguintes.
Mais de 50% das usuárias nunca realizou teste de HIV
Professora titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), Florence Kerr Correa considera que a pesquisa da Fiocruz teve um diferencial importante.
“Foi o critério de inclusão das pessoas que nos últimos seis meses usaram droga pelo menos 25 vezes e não apenas os dependentes”, diferencia.
Para ela, o estudo reflete a realidade das cidades do interior. “Vários estudos sobre drogas no Caps-Ad de Botucatu apontam que a maioria de usuários é do sexo masculino. A pesquisa fala em 80% usuários são homens e 20%, mulheres. Acho que reflete a realidade da nossa cidade e da maioria delas, de porte moderado.”
Alguns dados coletados no estudo merecem atenção redobrada e preocupam a classe de profissionais envolvidos em tratar essa população. Um dado deles é que 53,9% dos usuários de crack nunca realizaram teste de HIV.
“Considerando que no universo de 370 mil entrevistados, 21.3% são mulheres e 29,9% já se prostituíram em troca de droga ou dinheiro para adquirir a droga, esse dado é preocupante. Elas não só não realizam o teste como quando realizam não querem saber o resultado. Isso não acontece só como as mulheres, mas com os homens também.”
O próprio corpo
O sexo sem proteção é uma prática adotada pelas usuárias de drogas que não têm recursos financeiros para a aquisição do entorpecente. “As mulheres normalmente são relativamente jovens, algumas são adolescentes. O que elas têm para oferecer é o próprio corpo. Normalmente estão na fissura para usar droga e perdem a capacidade de negociar, de exigir que o companheiro use preservativo. É bom lembrar que 80% dos usuários são negros ou pardos. Têm baixa escolaridade.”
Um estudo feito no nordeste com travestis e homossexuais, população de mais risco, segundo a professora, mostra que eles bebem e eventualmente usam crack. “Essa população não quer fazer o teste e, quando faz, não quer saber o resultado. Há mulheres que se prostituem que estão com 13 filhos. Elas chegam num bar onde tem quatro ou cinco pessoas e mantêm relação com vários homens, que não querem usar o preservativo. Fazem programas por uma pedra de crack ou R$ 5”.
Problema, além das doenças sexualmente transmissível, é a gravidez e o HIV. “Tem ainda as hepatites. A do tipo B se transmite muito fácil na relação sexual.”
Mais de 40% das mulheres sofreram violência sexual
A pesquisa da Fiocruz mostra que 44,5% das usuárias de crack sofreram violência sexual em algum momento da sua vida. O levantamento traz à tona outro fator que coopera para que um jovem passe a usar a droga.
“A questão do abuso sexual e outros tipos de violências são muito frequentes nos relatos dos usuários de crack. A maioria dos casos são fatos ocorridos na infância. Pessoas que fazem parte do rol da confiança da vítima figuram como abusador. É padrasto, tios e até o pai. O abusador externo é mais difícil de aparecer”, comenta a professora e psicóloga Adriana Tucci.
De acordo com ela não é possível afirmar que o abuso sexual seja fator determinante. “Não é possível fazer afirmações. Nos relatos que temos as pesquisadas não fazem essa associação e nem apontam se é por causa disso que elas começaram a fumar crack. O que a gente sabe é que aumenta o risco. Em várias pesquisas se descobre a associação entre ter tido o abuso sexual e a futura dependência. Há várias hipóteses, tem a questão biológica, questão do estresse vivenciado pela criança produzem alterações morfológicas cerebrais e toda a questão emocional que a criança vive. São teorias.”
Para Florence Correa, as histórias de usuárias de crack e drogas de maneira geral sempre tem um abuso sexual na infância. “Tem alta taxa de abuso sexual e outras violências físicas. Percebemos que essas mulheres ficam sujeitas a vida toda a terem mais doenças mentais não só uso de droga. A violência vulnerabiliza a mulher a ter mais doença mental.”
E os bebês são prejudicados...
O crack não é benéfico para a gestação. Mas por quê? Provoca vaso constrição nas artérias. Isso acontece no cordão umbilical. A mulher fica mais propícia a ter placenta prévia, nasce prematuramente. “O bebê nasce pequeno e como, normalmente são mal cuidados será muito prejudicado. Podem carregar para o resto da vida a marca do crack. O que temos observado são tias e avós cuidando deles,” comenta a professora Florence Correa.
Do ponto de vista de má-formação ainda a droga que mais proporciona problemas é o álcool. “O que acontece com os usuários de crack é que raramente eles usam só o crack. Usam maconha, bebem, fumam, são vários tipos de substâncias agindo na gestação. Não é só um comportamento de risco. As crianças são prejudicadas do ponto de vista cognitivo, de desenvolvimento.”
Essa criança precisaria de muitos cuidados. “O cérebro dessa criança não se desenvolveu como deveria durante a gestação. Ela precisaria ser bem alimentada. Precisaria ter alguém para contar história para ela, brincar, cuidar. Essas crianças acabam sendo mal cuidadas e terão uma série privações, fatores que contribuem para que tenha uma geração de crianças que nunca vão atingir o ideal.”
Vontade: 80% desejam ser tratados
Quase 80% dos usuários de crack pesquisados gostariam de fazer tratamento. “Um dado interessante da pesquisa é esse. Aproximadamente 17% adotaram uma unidade de saúde, 6% procuram o Caps, 4% procuraram uma unidade terapêutica, mas não tem vagas suficientes.”
Para aquele que está na rua com acesso constante a droga ele tem dificuldade em parar sozinho. “É muito difícil, ás vezes acontece com o apoio da família. Quando bate a vontade de usar crack a pessoa foge da casa. A vontade é muito compulsiva. Só com medicação pode se controlar a fissura.”
Tirar o usuário de crack da rua não é tarefa fácil, especialmente porque não há leitos disponíveis.
“Atualmente, o tratamento é com terapia. Conseguir a abstinência deles é algo anormal. O que a gente é que quanto mais cedo a pessoa começar a droga mais probabilidade de ter um quadro de esquizofrenia ou outro transtorno mental.”
Um hospital com 65 leitos deve ser inaugurado até o final deste ano em Botucatu. “Ele vai receber usuários a partir de 12 anos. Aqui tem centro de referência que treina pessoas para trabalhar. Tem o Caps-Ad, ambulatório específico para a mulher, para gestante que usa droga, ambulatório para dependentes de álcool, homens e mulheres temos vários tipos de atendimento. Uma cidade privilegiada em termos de assistência”
‘Ferimentos’
“O crack entra pelos países latinos. É droga relativamente barata. Uma pedra não é tão cara como outras. O problema é que ao fumar o crack o usuário queima ou machuca a boca, a língua, os lábios que passam a ser a porta de entrada para infecções.”
Botucatu conta com centro de treinamento para profissionais
O Centro Regional de Referência para Formação Permanente em Crack da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) já formou mais de mil profissionais para identificar e tratar usuários de crack.
Segundo o diretor do centro, médico José Manoel Bertolote, no primeiro curso de capacitação foram 650 profissionais.
“Temos um convênio com o Ministério da Justiça e no primeiro curso de capacitação foram mais 650 profissionais. Na segunda fornada já encerramos dois cursos com 180 profissionais. Estamos com dois em andamento com 100 alunos. Atendemos a DRS 6, região de Bauru que abrange as regiões de Botucatu, Lins e Avaré, 68 municípios.”
O projeto é de iniciativa e tem financiamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Álcool e outras Drogas (Senad), do Ministério da Justiça.
A FMB/Unesp é um dos dois únicos centros de referência para esse tipo de treinamento no interior do Estado de São Paulo.
Contrapartida
A escola foi convidada novamente para ser parceiro do governo federal por meio de um convênio que terá duração de 18 meses.
A Senad destinará R$ 270 mil e a FMB ficará responsável por uma contrapartida de R$ 30 mil.
Importante: a capacitação beneficia, especialmente, os agentes dos setores municipais da Saúde, também da Assistência Social e dos Conselhos Tutelares da Infância e da Adolescência - além de outros agentes do sistema Judiciário, do Ministério Público e da Segurança Pública.
Um em cada quatro usuários tem chance de ser HIV positivo
Os diversos estudos de prevalência de infecção pelo HIV apontam taxas entre 5,9% até 23,1%. Ou seja: um em cada quatro indivíduos tem a chance de ser portador do HIV.
Isso significa dizer que os usuários de droga são a população mais vulnerável pelo HIV - e se levarmos em consideração que a grande maioria dessas pessoas não procura o serviço de saúde, e morrem sem diagnóstico, esses números podem ser muito maiores, segundo o diretor do Hospital Dia da Unesp/Botucatu, Alexandre Naime Barbosa.
A prevalência geral de infecção pelo HIV no Brasil é de 0,5% (cinco casos/1.000 habitantes), taxa considerada baixa em termos globais.
“Porém, se olharmos com mais cuidado para alguns extratos da população, esse percentual é muitas vezes maior. Portanto, a epidemia no Brasil é classificada como concentrada, e as populações mais vulneráveis à infecção pelo HIV são principalmente quatro: profissionais do sexo, homens que fazem sexo com homens (HSHs), usuários de drogas e moradores de rua.”
A situação se agrava quando os fatores de vulnerabilidade se superpõem.
“Muitos usuários de drogas também são moradores de rua e também se prostituem por qualquer quantia de dinheiro a fim, claro, de comprar mais entorpecentes, ou mesmo são vítimas repetidamente de estupros”.
E mais: “Outro complicador é a gravidez, visto que as usuárias não procuram o serviço médico para o acompanhamento pré-natal, e a infecção pelo HIV passa sem diagnóstico, aumentando a chance de transmissão do HIV. Em termos concretos, a epidemia de crack aumentou número de bebês com HIV.”
‘São refratários’
Mas o pior cenário é que enfretamento dessa gravíssima associação entre crack e HIV está longe de ser fácil.
“Os usuários de drogas são uma população refratária às abordagens sociais convencionais. O tráfico continua trabalhando sem encontrar dificuldades e o governo federal não aponta com políticas assertivas nesse contexto. Ou seja: estamos vivenciando uma segunda onda da epidemia do HIV entre os usuários de drogas.”
O levantamento da Fiocruz aponta que 29,9% das usuárias admitiram ter se prostituído em troca da droga ou de dinheiro e que 44,5% sofreram violência sexual em algum momento da sua vida. Dos 370 mil usuários, 29,2% disseram que a violência sexual, a perda afetiva ou problemas familiares os levaram ao uso de crack ou similares.
Aproximadamente 10% das usuárias de crack ou similares relataram estar grávidas no momento da entrevista e mais da metade já havia engravidado ao menos uma vez desde que iniciou o uso.
Isso foi considerado preocupante pelos pesquisadores, devido às consequências do consumo da droga durante a gestação sobre o desenvolvimento neurológico e intelectual das crianças expostas.
Mais de um terço do total de usuários (39,5%) informaram não ter usado o preservativo em nenhuma das relações sexuais vaginais, no mês anterior à entrevista. Apesar da evidente exposição ao risco, mais da metade (53,9%) afirmou nunca ter realizado teste para HIV. Nos municípios que não as capitais, essa proporção é ainda maior, chegando a 65,9%.