Cultura

Álbum censurado de Taiguara sai, enfim, da escuridão

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O fato de reunir músicos do calibre de Hermeto Paschoal, Jacques Morelembaun e Toninho Horta, além da regência de Wagner Tiso, não evitou que o disco "Imyra, Tayra, Ipy", de Taiguara, fosse retirado do mercado pela censura 72 horas após lançamento pela EMI-Odeon, em 1976.

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Taiguara: libertário "vermelho" em época de mordaças criativas

Uma tremenda decepção para o cantor, compositor e pianista nascido em 9 de outubro de 1945 que, em 14 de fevereiro de 1996, viria a morrer de câncer, aos 50 anos, sem ver sua obra mais complexa e coletiva chegar à luz do grande público.

Experimental, latino, indígena, lírico, sofisticado, brasileiro: musicalmente, o disco - que passou a ser vendido no Japão (e, no Brasil, só encontrado em poucos vinis de colecionadores) - também contou com orquestra completa e influenciou gente como o cantor Lenine ("Ouvi e decidi que era isso que queria fazer da vida").

Árvore e origem

Ainda nos anos 70, Taiguara tornou-se militante de esquerda e alvo da repressão, exilou-se em Londres (onde gravou um disco em inglês, jamais lançado) e só retornou em 1975 com a promessa da gravadora de que teria sinal verde para gravar da forma que bem entendesse. 

Convidou músicos, pediu a orquestra e fez "Imyra, Tayra, Ipy" (algo como "árvore", "filho" e "origem" em tupi ) -  LP com 13 faixas autorais e uma única regravação: "Três Pontas" (Milton Nascimento e Fernando Brant).

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Capa do disco proibido em 1976: agora, disponível

As letras de inspiração ideológica estão lá, assim como a defesa dos povos da floresta e, claro, críticas à "fechadura". Trinta e sete anos depois,  "Imyra, Tayra, Ipy" sai da escuridão. Dos discos ofuscados da MPB, é o que faltava brilhar.

Um pouco da obra

Figura carismática da época dos festivais, Taiguara já havia gravado seis discos desde 1965 quando estourou com a música "Universo no teu Corpo" - do álbum "Viagem" (1970).

Em 1971, lançou o álbum "Carne e Osso"; em 1972, "Piano e Viola" e, em 1973, "Fotografias". Todos, de alguma forma, retratavam a urgência dos indignados e o apego por um amanhecer sem mordaças.

Também faria mais tarde "Canções de Amor e Liberdade" (1984), no qual chega a cantar com a dupla Cacique e Pajé. E o belo, intenso e derradeiro "Brasil Afri" (1994) - de onde o filho, Lenine Guarani, foi buscar três canções para seu álbum de estreia, lançado em 2012.

 

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