Geral

Revivendo o passado

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.

A cabeleireira Juliana Cremonez aproveitou a onda para rever os antigos álbuns de família e se redescobrir

Com “janelinha” nos dentes, bochechudinhas, com o cabelo penteado pela avó e aquelas carinhas de quem acabou de fazer uma travessura. Essas são apenas algumas das fotos que invadiram as redes sociais nesta semana. Trata-se de uma homenagem virtual ao Dia das Crianças, que será comemorado neste sábado.

É só passar alguns segundos conectado em uma das principais redes sociais de hoje, o Facebook, para constatar a moda. Se você ainda não aderiu, é simples: basta correr e trocar a fotografia do seu perfil por uma de sua infância.

“Foi uma onda que surgiu no ano passado. Eu sou bastante usuário das redes sociais, vi meus amigos trocando a foto e resolvi entrar na onda”, conta Willian Poliveri. Hoje com 28 anos, o jornalista postou em seu perfil a imagem de quando tinha apenas 6.

Ao aderir, porém, ele conta ter revivido exatamente o momento daquela fotografia e toda a época envolvida. “Eu estava no jardim de infância ainda e essa roupa minha avó costurou para uma festinha da escola. Era uma roupinha de marinheiro. Lembro que eu amava essa roupa. Recordo até do cheiro de amaciante que ela tinha depois que minha mãe lavava”.

O comportamento, entretanto, pode apontar mais do que uma simples moda. Ele revela muito da relação atual dos usuários com as redes sociais. É o que afirma o professor de filosofia, analista do discurso e pesquisador em linguística Fausi dos Santos.

“As redes sociais são ferramentas para si. São instrumentos que estão tão presentes na vida das pessoas e, assim, incorporam suas intimidades. E fazem isso com uma naturalidade imensa”, pontua.

A infância desses usuários é apenas mais uma dessas intimidades incorporadas e, principalmente, compartilhadas. “As pessoas colocam essas fotografias e mostram quem elas foram. É a tentativa de tentar remeter a uma memória do passado”, explica Fausi.


Representação do eu

Mas resta saber: quem é, na verdade, aquela criança da foto? Nas redes sociais, explica o especialista, as pessoas não se apresentam, mas sim representam.

“São ferramentas usadas para representar a própria imagem. Na Internet, as pessoas constroem e reconstroem sua imagem a todo o momento. O avatar nada mais é do que a representação do eu”.

Nesse sentido, as fotos de crianças colaboram para outro fator muito comum nas redes sociais: a amplificação fantástica do corpo. Conforme os próprios usuários que aderiram à moda apontam, o perfil da foto de infância acaba sendo uma forma de fazer a criança que ficou no passado passar a viver no presente.

“Nas redes sociais, isso é muito comum. Há uma quebra de toda essa questão de tempo e espaço”, complementa Fausi.

Mas isso é ruim? O pesquisador acredita que não. Para ele, mesmo que de forma não proposital, a moda que tomou conta do Facebook esta semana colabora para retirar memórias do fundo das gavetas.

“Hoje, exatamente por conta das redes sociais, as memórias ganharam curto prazo. Ela está sendo diluída em doses homeopáticas. No passado, não era assim. Então, sem querer, esta moda acaba resgatando essas memórias deixadas nos armários”, finaliza o professor Fausi dos Santos.


‘Ao escolher a foto, minha mãe e eu ficamos olhando várias e lembrando’

Quando a fotografia é postada, muitos amigos logo curtem e comentam. Porém, é antes desse momento que muitos encontram o verdadeiro sentido. Foi o caso da fonoaudióloga Ariádnes Nobrega, 30. A escolha de qual foto postar virou uma verdadeira sessão de recordações com a família.

“Quando fui escolher a foto, minha mãe e eu ficamos olhando várias outras e lembrando. O meu pai se lembrou exatamente de como foi e quando foi tirada a que escolhemos e publicamos”, relata.

Na imagem, Dine, como é conhecida desde pequena, tinha apenas 8 anos. “A foto foi tirada na escola”. Com um laço na cabeça, mantém o mesmo sorriso tímido para ser fotografada hoje.

“Ver a foto dá muita saudade da falta de responsabilidade, das brincadeiras, dos primos todos juntos, da família e até das músicas que eu ouvia”, conclui.


Cuidado com a confusão

Mesmo aqueles internautas que não aderem costumam aprovar a moda. Willian Poliveri explica que só há um cuidado a se tomar: é preciso olhar com muita atenção para saber quem é aquela criança.

“Aparece esse monte de rostos de crianças no Facebook e tem hora que você não sabe mais quem é quem. Às vezes, eu preciso entrar no perfil e olhar as fotos para saber quem é aquela pessoa”, ressalva.


Personagens de desenhos

Esta não é a primeira homenagem virtual que é feita nas redes sociais ao Dia das Crianças. Em 2011, porém, a infância foi celebrada de outra forma.

“Normalmente, no Dia das Crianças, há esse tipo de engajamento nas redes sociais. Teve ano em que era pra colocar seu personagem de desenho favorito da infância. O meu foi o Alladin”, conta o jornalista Will Poliveri.


‘Eu nunca tinha parado para ver meus álbuns de fotos antigas’

Nostalgia. É assim que a cabeleireira Juliana Cremonez, 35 anos, define a moda de colocar as fotos de crianças. Ela conta que a procura pela imagem a fez reviver momentos muito especiais.

“Eu não tenho mais meus pais. Acho que isso foi uma nostalgia muito grande. Ver irmãos e primos juntos foi especial. Eu nunca tinha parado para ver meus álbuns de fotos antigas. Deu muita saudade”, revela.

Ela aproveitou para digitalizar outras fotografias antigas que nem se lembrava mais de ter. “E vi muita gente fazendo o mesmo”.

Na foto escolhida para colocar em seu perfil, ela tinha apenas 1 aninho e estava na festa de sua irmã. Acostumada a ousar bastante em seu penteado atualmente, ela parece só não aprovar o “penteado da avó” que estava. “Tenho uma crise de risos quando fico olhando a foto”, brinca.

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