Elaine Sousa / Assessoria Famesp |
|
|
Secretário empossado há 40 dias, Uip conheceu a estrutura do Hospital Estadual |
Após visita técnica às unidades hospitalares de Bauru na companhia do deputado estadual Pedro Tobias, o secretário estadual de Saúde, David Uip, anunciou a abertura imediata de 16 novos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Estadual, que contará também com mais 10 leitos clínicos. Já no Hospital de Base serão novos 20 leitos gerais.
“Isso não vai acontecer para amanhã. É para hoje. Não vamos nem esperar a compra de aparelhos. Vamos alugar para que a licitação não atrase isso”, disse o secretário, que assumiu o cargo há 40 dias e, desde então, passou a percorrer os hospitais de todo o Estado de São Paulo.
Vice-presidente da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), entidade que gerencia o HB e o HE, Antonio Rugolo afirma que para o funcionamento desses leitos será necessário apenas o intervalo de tempo para que os equipamentos sejam locados e trabalhadores já aprovados em processos seletivos sejam convocados.
Rugolo diz que, após a apuração de custos para ampliações, será negociado um aditivo ao contrato de serviços, que vence no final deste ano, firmado entre a Famesp e a Secretaria do Estado de Saúde.
O anúncio de novos leitos acontece em meio à força-tarefa conduzida por Estado e para Famesp a fim de reduzir as filas de pacientes de urgência e emergência que aguardam vagas de internação na rede municipal de Saúde.
Ação civil pública movida no mês de agosto garantiu, em caráter liminar, que esses pacientes sejam conduzidos à rede hospitalar particular. Esses tratamentos são custeados com R$ 200 mil bloqueados de contas estaduais após decisão judicial.
Em julho deste ano, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) decretou estado de calamidade pública na assistência hospitalar em Bauru, quando mais de 60 pessoas esperavam por leitos nos corredores do Pronto-Socorro Central (PSC) e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Na tarde de ontem, havia 23 pacientes nessas condições, sendo que seis deles esperavam por mais de 48 horas.
Leitos de UTI
Apesar do déficit de leitos clínicos, provocado, principalmente, pela crise financeira, administrativa e operacional do Hospital de Base após a Operação Odontoma, as vagas para UTI consistem no principal gargalo na retaguarda hospitalar em Bauru. O cenário ideal previsto em portaria do Ministério da Saúde indica que, apenas para a população adulta da cidade, estimada em 300 mil pessoas, seriam necessários 75 leitos para cuidados intensivos.
Com a criação das 16 novas vagas de UTI no HE, os dois hospitais gerais de Bauru somarão 63 leitos do tipo. Acontece que, além da população que vive no município, as unidades recebem pacientes de outras 68 cidades que compõem o Departamento Regional de Saúde (DRS-6).
A Secretaria de Saúde informa, porém, que atualmente existem 192 leitos de UTI (adulto, pediátrico, queimado e neonatal), distribuídos por toda a grande região de Bauru.
Uip acha inviável reforma no Base e cogita novo hospital
O secretário estadual de Saúde, David Uip, afirma que está viajando para conhecer os hospitais de São Paulo para evitar o planejamento das mudanças necessárias “de fora do gabinete”. Apesar do anúncio para criação imediata de leitos, ele informou que, para anunciar o futuro do Hospital de Base, precisa conversar com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). O médico, no entanto, adiantou ser contrário à reforma.
O governo do Estado chegou a anunciar investimento de R$ 30 milhões para a recuperação do prédio. “Não me agrada. Demanda um investimento enorme e reforma é sempre reforma”.
Segundo o secretário, existem outras duas alternativas para a recuperação do número de leitos perdidos após a crise no HB. Uma delas é a retomada do diálogo com a Universidade de São Paulo (USP) para a utilização do novo prédio do Centrinho. A outra seria um novo hospital em Bauru. Depois que assumiu o cargo, Uip já anunciou a construção de três unidades no Estado.
“O Base será avaliado em outro patamar, mas não vai ficar do jeito que está: envelhecido e ultrapassado em conceitos. Vamos ver qual a melhor solução, que não pode ser apresentada agora, pois preciso dialogar com o governador”, explica Uip.
O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) acompanhou a visita do secretário estadual de Saúde, comemorou a criação de mais leitos e declarou ser favorável à construção de um novo hospital. “No passado, eu trabalhei pelo Centrinho. Mas se a USP não quer, o prédio novo é uma boa saída. Reformar o Base vai custar muito caro”, opina.
Até 2009, quando vieram a público os escândalos envolvendo a Associação Hospitalar de Bauru (AHB), o HB funcionava com 200 leitos. No auge da crise, em 2012, esse número foi reduzido a 60. E, hoje, com o dobro de recursos destinados à equipe interventora da unidade até o ano passado, a Famesp ampliou a quantidade de leitos para 120.
As vagas são insuficientes para a demanda regional. Tanto que, após a intervenção do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal, os atendimentos de urgência e emergência a pacientes de Bauru foram priorizados. Por outro lado, estancou-se a liberação de leitos para a região e há informações sobre cancelamentos de consultas, exames e cirurgias eletivas.
Sistema desorganizado
David Uip, em entrevista coletiva, fez críticas à rede de atenção básica, de responsabilidade do município, e ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Vamos chamar a prefeitura para uma conversa proativa. O diagnóstico é claro: existe desorganização no sistema”.
Na avaliação do secretário estadual de Saúde, o município não tem feito sua parte, o que sobrecarrega às demandas para a retaguarda hospitalar. “Estamos fazendo um trabalho que não é da nossa obrigação. A cidade precisa arcar com o ônus da atenção básica”.
David Uip também criticou a tabela de pagamentos do SUS. “O Ministério da Saúde não corrige os valores há 10 anos. O financiamento federal não remunera o custo dos procedimentos. Isso gerou, inclusive, a quebra das Santas Casas, que, quanto mais fazem, mas se endividam”.
O secretário pontuou que um paciente de UTI no Hospital Estadual custa R$ 1.200,00 ao dia, mas o SUS só repassa R$ 500,00. “Outro exemplo: um parto perfeito custa R$ 900,00 e nós recebemos menos de R$ 400,00”.
586 mortes
Apesar da crise por falta de leitos hospitalares se arrastar durante os últimos anos, providências efetivas por entes do poder público de todas as esferas começaram a ser tomadas ao longo dos quatro últimos meses.
O estopim foi reportagem publicada pelo Jornal da Cidade no dia 14 de agosto, assinada pela repórter Tisa Moraes, revelando que, entre 2009 e 2013, 581 morreram no Pronto-Socorro Central. Esse número, hoje, chega a 586.
Trata-se de um - inaceitável - óbito a cada três dias. A informação consta em inquérito instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF). Na edição do último domingo, a JC noticiou que a Polícia Civil apura, em dimensão sem precedentes, as responsabilidades pelas mortes.
Desospitalização
O secretário estadual de Saúde, David Uip, anunciou que, entre as duas próximas semanas, vai criar o Comitê de Desospitalização. O objetivo é humanizar e modernizar a atenção secundária. “Vi muitos pacientes crônicos em leitos de UTI aqui, que poderiam estar recebendo outros tipos de cuidados”.
O programa deve atuar em duas frentes. A primeira trata-se do Hospital Dia, aplicada para pacientes que precisam de cuidados rotineiros. “Não tem cabimento que alguém que precise de aplicações de antibióticos por seis meses fique internado. Então ele vem para o hospital, recebe a aplicação e volta para a casa. O mesmo vale para quem depende, por exemplo, de sessões de quimioterapia”.
A outra linha seria o homecare. “Pacientes crônicos podem ficar no conforto de casa, com a família, mas sob os cuidados do Estado”, explicou Uip.
