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As caixas pretas das badernas

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

As manifestações de junho contra o aumento das passagens de ônibus, no Rio de Janeiro, foram a gota d?água que transbordou a represa da insatisfação pública. Alguns atos de vandalismo, suspeitos de estarem a mando de interessados em desvirtuar os protestos, foram repudiados pelos manifestantes, que também rejeitaram a intromissão de grupos de partidos políticos. O julgamento final foi de um movimento democrático, necessário para mudar o rumo da situação de desmandos reinante nos serviços de responsabilidade pública. A expectativa era de que se tornasse crescente, mas a infiltração baderneira arrefeceu o ânimo dos idealizadores e o que está acontecendo hoje são protestos de categorias com interesses próprios e, infelizmente, sem se livrarem dos baderneiros.

A falta de liderança e a permanência dos motivos de insatisfação, que o governo, nos três níveis, não foi capaz de remover, nem mesmo de atenuar, porque só tem tomado medidas paliativas, estão ampliando essas manifestações setoriais por todo o País. Bancários e funcionários dos Correios fazem greves intermináveis, embora pacíficas, mas que prejudicam a população; motoristas de ônibus e metroviários paralisam o transporte, sacrificando a camada mais pobre dos trabalhadores; trens urbanos, com manutenção precária, frequentemente fazem os trabalhadores perderem o serviço ou terem uma despesa a mais com transportes alternativos; escolas, prontos-socorros e hospitais eternamente envoltos em dificuldades; roubos, assaltos, arrastões ocupam, cada vez mais, o noticiário; sem-terra e sem-teto já formaram uma categoria de sofredores politizados, que protesta com alguma violência. Tudo isso justifica os protestos e faz compreender alguns exageros, pela falta de solução.

Não é somente no Brasil que os problemas estão se multiplicando. O novo século começou com dificuldades generalizadas. Enquanto no século passado se falava em desafio americano e desafio japonês, com uma infinidade de livros, artigos e conferências, tentando explicar o sucesso desses países e sugerindo os seus exemplos para o resto do mundo, hoje já está se formando uma substancial literatura tentando explicar as crises, principalmente da civilização ocidental. Com o fracasso do comunismo soviético, o debate ideológico perdeu força, embora ainda haja alguns renitentes saudosistas. Como a democracia serviu de berço para a civilização ocidental, que hoje se vê em crise, o grande debate é sobre o que está dando errado. Tzevetan Todorov, filósofo búlgaro, que viveu nos Estados Unidos e vive na França, no livro "Inimigos Íntimos da Democracia", fala: "A democracia está doente de seu descomedimento: a liberdade torna-se tirania, o povo se transforma em massa manipulável, o desejo de promover o progresso se converte em espírito de cruzada. A economia, o Estado e o direito deixam de ser meios destinados ao florescimento de todos e participam agora de um processo de desumanização."

Acaba de ser lançada no Brasil a obra do historiador inglês Niall Fergunson intitulada: "A Grande Degeneração ? A Decadência do Mundo Ocidental" Na introdução ele diz: "Para mostrar que as instituições ocidentais realmente degeneraram, precisarei abrir algumas caixas pretas seladas há muito tempo ? democracia, capitalismo, Estado de direito e sociedade civil. Juntas, elas são os principais componentes de nossa civilização. Quero mostrar que dentro dessas caixas pretas políticas, econômicas, jurídicas e sociais há conjuntos de instituições extremamente complexos e interconectados.. Para entender é preciso examinar por dentro."

Deixando Europa e Estados Unidos e olhando só o Brasil, não são as coisas obscuras que estão dentro das caixas pretas dos governos municipais, estaduais e federal e dos poderes legislativo e do judiciário, que estão degenerando as nossas instituições e provocando esse estado generalizado de insatisfação? Por que as coisas não funcionam a contento, com essa exorbitante arrecadação de tributos? Qual dos poderes se salva dessa crítica? Não encontrando a quem apelar com êxito, o povo continuará ?apelando? como pode ? quebrando trens, incendiando ônibus, invadindo repartições públicas e ensejando o vandalismo.


O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

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