Malavolta Jr. |
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“A convivência por tanto tempo com as flores ampliou minha sensibilidade com a vida. Eu choro fácil” |
Basta adentrar pela porta de vidro temperado em sua loja, na avenida Duque de Caxias, para imediatamente ter um encontro com um ambiente sereno, que transpira tranquilidade. Do lado de dentro da loja de Mário Quatrina, se você quiser experimentar a sensação dessa energia que contrasta com os ruídos da cidade, do lado de fora, vire os olhos para a rua e, por alguns instantes, compare pelas sensações visual e sonora.
Mas, sugiro, não perca muito tempo com os barulhos da “metrópole interiorana Sem Limites”. Comece a observar cores, desenhos de pétalas, trançados de caule. “As plantas falam! Acredite”, ensina Quatrina.
Respire fundo, feche os olhos, sem vergonha alguma, e nesse instante, aproveite para saborear o canto do canário dentro da loja. Feito isso, se precisar de ajuda para a escolha da flor ou planta adequada ao estado emocional que te levou à loja, recorra, sem pressa de preferência, a Mário Artur Quatrina, o comerciante que aguçou sua sensibilidade a partir das relações mais sutis e primitivas com a natureza: a lida com plantas, flores e a terra.
É com este espírito e nessa ambientação que conversamos com o comerciante na Floricultura Quatrina, na avenida Duque de Caxias, na tarde da última quinta-feira. Ao invés de textos e frases, o convido, aqui, para tentar sentir o que a vida ensinou para Mário:
Jornal da Cidade - Quais suas recordações mais emocionais e de ambiente da infância em Pirajuí?
Mário Artur Quatrina - Minha infância foi maravilhosa, sempre estudando, trabalhando, cuidando de horta, cuidando de animais, plantas, brincando muito no campo, um horizonte completamente diferença de agora, da geração do computador. Era bolinha de gude, brincadeira com lata e na rua, solto sim, mas também com uma determinada hora para entrar para casa, com limites. E a brincadeira era sempre na frente de casa, nunca longe. A relação com plantas, então, vem de muito cedo, desde que eu me reconheço por gente. Na minha casa sempre teve horta, a gente sempre cuidou de jardim.
JC - Uma relação com a terra e as plantas desde menino?
Mário - Com 12, 13 anos, eu já comecei a cuidar de hortas, de plantas nos vizinhos, e peguei amor. Eu ajudava quem tinha viveiro a cuidar porque eu ganhava as mudas. Eu cultivava e depois vendia as plantas para transformar em dinheiro. Isso já tem 37 anos, sempre assim, lidando com as plantas. As plantas vão ensinando e cada uma tem um cuidado especial. Antigamente, parece que as pessoas tinham maior relação de amor com as plantas. Hoje, muitas delas cultivam por necessidade ou para fazer dinheiro. Por isso corta o coração passar em lugares que também vendem plantas e ver aquele monte de vaso castigando no sol e sem ninguém colocando água para ela sobreviver mais alguns dias com qualidade. Comercializar plantas como se fosse qualquer objeto não cabe em mim.
JC - As plantas sentem, falam, no sentido de que, pela observação, nos indicarem situações?
Mário - As plantas com certeza sentem. E se eu consigo perceber quando uma planta está pedindo água, então as plantas falam sim, acredite. Se eu entro na loja eu consigo perceber uma planta precisando de água. É uma relação muito próxima, de intuição. Ou o funcionário esqueceu de por água ou ela está precisando de um pouquinho mais. As plantas transmitem informações o tempo todo.
JC - Em que as plantas lhe ajudaram nas relações humanas?
Mário - Elas ajudam o tempo todo. Quem mexe com planta também se relaciona com elas em momentos de alegria e tristeza. E como estou nisso há muitos anos eu primeiro me acostumei a ter relações emocionais entre clientes e plantas. Têm pessoas que eu fiz o casamento do cliente, depois da filha e até de aniversário de neto, com ornamentação. Isso gera uma relação próxima, uma necessidade pessoal minha de querer conversar, entender o que esses clientes querem, o sentimento relacionado ao evento, para decidir pelas plantas. É uma relação de mais de três décadas, onde se aprende o verdadeiro sentido de amizade, de confiança e de valorização das relações humanas.
JC - Olhando para seu próprio espelho, no tempo, você diria que as pessoas estão mais ou menos sensíveis, acessíveis, a ter na relação com a planta uma forma de afeto e nem tanto de mero cumprimento de obrigação ao dar um vaso de presente?
Mário - Antes, acho que as pessoas demonstravam mais sensibilidade na hora de presentear através das plantas, ou comemorar algo ou valorizar a relação humana tendo a planta como elemento, elo. Depois de 37 anos, é menor o número de pessoas que demonstram amor, afeto, escolha com carinho, com densidade, na hora de decidir e manifestar a intenção de presentear pela planta. Vi muitas pessoas olhando para a planta, fazendo reflexão silenciosa, escolhendo por detalhes na cor, no formato, no cheiro. Isso observando o momento em que chega na loja. Hoje é mais comum a pessoa chegar com certa pressa e pedir ajuda porque manifesta que quer dar uma planta de presente para fulano e não tem ideia do que seja. Acho ruim, porque muitas pessoas se sensibilizam muito mais com um vaso de planta, uma flor bem escolhida, com conteúdo, do que com qualquer outro presente. Alguns resistem até a escrever algumas palavras em um cartão.
JC - Qual sua percepção da planta, ou flor preferida, de acordo com a faixa etária, o perfil do cliente ou a data sugerida para o presente?
Mário - Eu percebo, regra geral, com as exceções, que uma pessoa mais jovem prefere uma flor que não precisa de muito cuidado. Aquela flor que vai ficar em um canto sem muito trabalho. O adulto já prefere uma planta com a qual vai se relacionar, vai cuidar, vai podar, vai acompanhar seu desenvolvimento. Isso pode estar associado também, claro, à disponibilidade de tempo. Sobre as datas ou o que dar, é muito comum as pessoas pedirem opinião. E você como comerciante desse segmento tem de estar pronto a ouvir e dar sugestão, ficar atento ao que se pede, se é uma planta ou flor por aniversário, se busca reconciliação, se é para demarcar aquela data importante na relação, se pelo carinho e amizade, por uma realização. Eu sou muito do tempo e do sentimento da música que diz: “Fica sempre um pouco de perfume para quem oferece rosas”. É preciso que as pessoas não se sintam tão automáticas de presentear só em algumas datas. Qualquer dia é dia de dar e receber flores ou uma planta. Isso é a vida. E muita gente se emociona com uma planta, uma flor, como se fosse uma joia. A carga de sentimento está ali, atrelada.
JC - O senhor se sente junto com essas pessoas?
Mário - Ah, com certeza, sem dúvida. Impossível não se emocionar com essas relações humanas. Minhas filhas brigam comigo que assistimos filmes e que eu choro fácil. Mas sensibilidade não é ruim, ao contrário. É maravilhoso ter esse presente trabalhando. Nosso forte como comércio é decoração e eu gosto de saber o que se pretende, o local, me envolver com o sentido daquilo. Eu não vendo pesadelo, eu vendo sonho. Me empolgo mesmo quando depois do evento a pessoa manda um e-mail, uma cartinha e manifesta sua satisfação ou o que aquela data significou ou gerou pra ela. Eu assimilo isso tudo, é muito gratificante. Eu trabalho pelo sustento, claro, mas não há dinheiro que pague essas relações e reações. Por eu gostar de planta desde pequeno, com o pai, muita gente da família ligada a planta, acho que a gente aprendeu sim a ter mais sensibilidade que outras pessoas e aprendeu também a ter muito mais paciência com as pessoas. Eu também ouço, às vezes, aqui uma pessoa dizer, ao ver o orçamento, que não vai gastar “x” para algo que vai jogar fora no dia seguinte. E a gente tem de explicar com carinho o significado daquela data e o que a ornamentação significa. Isso faz parte também do aprendizado na relação humana.
JC - É impressão, ou quando as pessoas entram na loja o envolvimento com o ambiente produz outra atmosfera?
Mário - Se transforma sim, e isso aqui dentro, na loja, é para proporcionar isso. As pessoas já correm tanto. Então o que a gente quer é que quando entrem na loja se sintam melhor. O ambiente aqui faz toda a diferença. Deus é que cria tudo. E do mesmo vasinho, da mesma terra, sai uma violeta de infinitas cores e desenhos e uma rosa com pétala de cheiro marcante. Quem fala que não existe Deus, nunca conseguiu observar uma flor. As pessoas precisam entender, interpretar as plantas, ter relação de amor. Olha a avenida Getúlio Vargas nesta época do ano, está com árvores lindas. É a natureza se manifestando por Deus o tempo todo, apesar do ser humano e seus erros. Como passar por um Ipê e não contemplar?
JC - Então o senhor deve estar triste com a situação da arborização de Bauru.
Mário - Muito, muito triste. Falta incentivo. Derrubam árvore por pouca coisa, por qualquer coisa. A prefeitura tem de cuidar disso, mudar sua postura. Aparece cupim derruba, aparece bichinho quebra, começa a cortar galho sem regra porque atrapalha a frente da casa, a visibilidade. Cortam árvore, algumas pessoas, porque as folhas incomodam. Isso me deixa muito triste. Corta-se muito por muito pouco. E ninguém entende, pelo amor de Deus, que uma árvore leva 20, 30 anos para ficar formosa, tomar porte? Isto está muito deficiente. Tem várias empresas que também precisam ser estimuladas a cuidar de um canteiro. Há muito pouca participação nisso e a prefeitura tem de ser o agente que impulsiona, porque é ação urbana de meio ambiente. Tem de arregaçar as mangas mais para criar espaços verdes do que para derrubar. E isso está muito mal.
JC - Que planta é, por essência, mais delicada, e qual, pelo mesmo prisma, é mais bruta?
Mário - Acho, uma delas, é a tulipa. Ela precisa de clima frio e se perder um pouco a temperatura ideal ela abre rapidinho. A tulipa é bastante sensível ao ambiente. A orquídea florianópolis eu não diria bruta, mas sim a mais resistente. Ela é bastante resistente.
JC - O que o senhor gosta de fazer quando não está no universo das plantas?
Mário - Eu gosto de estar com minhas filhas, minha família. Eu falo pras minhas filhas que não quero que elas façam algo que não amem na escolha da profissão. Amar o que se faz é fundamental. Eu não fiz faculdade, fiz contabilidade, mas desde cedo amei e me dediquei às plantas. A convivência por tanto tempo com as flores ampliou minha sensibilidade com a vida. Minhas filhas ficam bravas assistindo filme comigo. Eu choro fácil (risos). Aconteceram milagres em minha vida e Deus é a base de tudo. Superei contratempos de saúde, de fases da loja. Isso é a vida. Amar a vida e a Deus.
JC - Separada a família, para quem o senhor daria flores e por qual razão?
Mário - Sou feliz no que faço e tenho de registrar que muitos, muitos me ajudaram. Não posso deixar de citar amigos construídos nesse negócio, como Eliane Nolasco, Célia Gadotti, Cristina Izar, Marlene Atalla, Magali Pereira Leite, Rica Martha, Sônia Simão, Eliane Lot, Jurema Ingracia, Lindinha Franciscato, Neusa de Jesus, Vanda Tobias, Olga Coube, Estela Daquino, os colaboradores da loja. Eu não conseguiria chegar até aqui não fossem essas pessoas, cada qual com sua estimada participação em minha vida e no que eu sou ou consegui fazer. Não há como contar aqui o que cada um significa. E cada um sabe o que significa. Obrigado! Por isso até hoje eu, quando percebo alguém que entra na loja e demonstra amor por uma flor mas ao saber do preço diz que não pode comprar, quando sinto isso eu dou a flor.
Perfil
Nome: Mário Artur Quatrina
Idade: 55 anos
Família: Eloisa Maria Sellmann (esposa) e Carolina e Gabriela (filhas de 11 e 7 anos)
Hobby e lazer: Pescar e ficar com a família
Livro: A Bíblia
Música: MPB e gospel
Filme: Infantil, pelas filhas
Time: Corinthians
Nota 10: Família e José Osmar Guerini
Nota 0: Falsos amigos
Email: marioquatrina@uol.com.br
