O livro “O Criminalista”, que trata sobre direito, já tinha 250 páginas e estava perto de ser concluído. A obra, contudo, ficará em aberto. O advogado Blasco Peres Rego, que já escreveu 190 livros, não conseguiu concluir aquela que seria sua última publicação. Na última sexta-feira, ele foi achado morto em seu apartamento, no Jardim Carolina, vítima de um infarto.
A família descreve Blasco como um lutador. Por lutador, lê-se brigador. Ao longo de seus 81 anos de vida, o advogado dividiu seu tempo entre escrever livros e brigar por uma cidade melhor.
“Tudo dele foi conquistado com muita luta. Ele brigava muito. Brigava com políticos e todo mundo. Estava sempre brigando por uma cidade melhor”, conta Ben-Hur Peres Rego, 82, irmão de Blasco.
O advogado era um dos mais antigos colaboradores da Tribuna do Leitor do Jornal da Cidade. Em 2003, candidatou-se à vaga de Roberto Marinho (que havia morrido naquele ano) na Academia Brasileira de Letras (ABL).
A cadeira 23 era nada menos do que a mais nobre de toda a academia. Ela era ocupada pelo fundador Machado de Assis, ou seja, ninguém menos que o próprio criador da ABL. Blasco acabou derrotado pelo ex-vice-presidente da República e ex-senador pelo Estado de Pernambuco Marco Maciel.
Nos anos seguintes, concorreu outras vezes à vaga na academia, porém, sem sucesso em qualquer delas. A derrota não tirou o prazer de disseminar todo tipo de informação em seus livros. Conforme o JC publicou em junho de 2009, ele já contabilizava 127 obras. “Ele nos deixou com 190 livros escritos”, conta o irmão.
E se engana quem acha que Blasco começou na infância a escrever para atingir uma coleção tão extensa. Errado. Amante dos clássicos do inglês William Shakespeare, Peres Rego ingressou relativamente tarde para o mundo da literatura.
Foi somente em 1997 que ele resolveu mostrar ao mundo sua veia literária, com “O Voo da Rosa”, obra que reúne três histórias verídicas de amor ambientadas em São Paulo e Paris.
Depois disso, seguiram-se inúmeros títulos, entre eles o “Manual do Porteiro” – mais tarde rebatizado de “Manual do Agente de Portaria” –, o “Manual do Garçom”, o “Manual do Frentista” e “Meus Queridos Amigos Gays”.
Parecia escrever mesmo sobre tudo. Desde romances, passando por análises de crises econômicas e até mesmo dicas de empreendedorismo.
Há pouco mais de um mês, Blasco, que dividia a casa com o irmão, decidiu ir morar sozinho em um apartamento no Jardim Carolina. Na última sexta-feira, foi encontrado morto após várias tentativas de amigos entrarem em contato.
O corpo de Blasco Peres Rego, que não era casado e deixa as filhas Maria Cecília e Marcela, foi sepultado no último sábado. “Bauru perde um lutador”, conclui o irmão Bem-Hur, emocionado.