Fotos/Quioshi Goto |
|
|
Papéis pelo chão e marcas de vômito das crianças na sala de espera pioravam o clima de espera |
O calor de quase 34 graus deixava ainda mais latente a impaciência das dezenas de famílias que esperavam – algumas mais de cinco horas – no Pronto Atendimento Infantil (PAI) na tarde de ontem. Com uma sala de espera suja de vômito e papéis espalhados pelo chão, às 16h30, de acordo com informações do próprio hospital, 51 crianças aguardavam para ser atendidas.
A segunda-feira de caos teria começado logo pela manhã, quando somente dois pediatras atenderam a demanda, um profissional a menos do que o padrão. A nova superlotação ocorre exatamente na semana em que o município promete divulgar os resultados da sindicância que apurou denúncias na unidade (leia mais abaixo).
Fátima Brasil, 56 anos, conta que chegou com seu sobrinho, de apenas 8 meses, logo pela manhã. “Chegamos aqui por volta das 8h. Ninguém consegue descobrir o que meu sobrinho tem. Ele tem febre alta e vômitos”.
Ela relata que a criança foi atendida somente às 13h20. “O atendimento é péssimo. Como ficamos mais de cinco horas esperando?”, questiona.
Jenifer Tahiná, 15 anos, também estava aguardando por um período semelhante. Segundo ela, chegou com seu irmão também por volta das 8h e foram atendidos somente cinco horas depois. “Meu irmão, de 4 aninhos, está com uma febre muito alta. Isso aqui está horrível”.
Menos espera, porém, não menos reclamações. Kelly Roberta de Lima Rossi, 29, levou os dois filhos, com idades de 11 meses e 2 anos, que estão com sintomas de gripe e dor no peito. “Faz duas horas e meia que estamos aqui. E olha a sujeira que está aquilo ali”.
A mulher se referia ao estado da sala de espera para o atendimento. Quando a reportagem chegou ao local, havia muito papel pelo chão e também vômito de crianças. Uma mãe teve tempo de tirar o filho da sala e ele acabou vomitando na parte externa.
“Não adianta pedir para limpar. Ninguém faz nada”, reclamou Fátima Brasil. Pouco após o JC chegar ao PAI, uma funcionária cobriu o vômito com um papel.
|
|
Um dos pediatras da manhã está em férias e criou uma verdadeira “bola de neve” para o restante do dia |
Médico em férias
A diretoria confirma que a lotação realmente esteve acima do normal ontem. O problema foi agravado, uma vez que um dos pediatras escalado para o período matutino de segunda-feira está em férias. Assim, somente dois médicos fizeram atendimentos, o que gerou uma “bola de neve”.
No período da manhã, foram registradas 95 fichas de pacientes. Dessas, porém, somente 55 foram atendidas, o que gerou uma sobra de 40 pacientes para o período vespertino.
E a situação somente se agravou. Além dos que ficaram sem atendimento pela manhã, somente das 13h às 16h, já haviam dado entrada outras 71 crianças. A diretoria afirma que, na parte da tarde, três pediatras atendiam normalmente. Além deles, um outro fazia visitas no setor de internações.
Ainda de acordo com a administração da unidade, a média de espera para atendimento da tarde era entre 2 e 3 horas.
Em relação à higiene do local, a diretoria afirmou que a limpeza é feita de forma constante e prometeu que a sujeira seria recolhida.
|
|
O clima era de impaciência e, em alguns momentos, de revolta entre famílias, no PAI |
Sindicância
O PAI é alvo de uma sindicância que apura sérias denúncias apresentadas há cerca de dois meses pelo Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central (PSC). As acusações afirmam que médicos da unidade batem o ponto, porém não cumprem seus plantões regularmente.
Conforme o JC divulgou no sábado, o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, promete dar publicidade às apurações da sindicância esta semana.
Um relatório já chegou ao titular da pasta, entretanto, foram solicitadas informações adicionais. O processo também será remetido à Comissão de Saúde do Legislativo, que recebeu as primeiras denúncias da suposta fraude.
Paralelamente, o Ministério Público também investiga o caso. O promotor da Cidadania, Fernando Masseli Helene, instaurou inquérito civil para apuração.
Lotação
Conforme o JC vem noticiando nos últimos tempos, a lotação do PAI não é um problema pontual. Um dos dias mais complicados foi registrado em agosto, quando crianças esperaram até 7 horas por um atendimento.
Conforme o JC noticiou na ocasião, era por volta das 21h do dia 22 de agosto e algumas crianças aguardavam desde as 14h pela consulta. Algumas mães precisaram ser contidas revoltadas com a demora.
Quatro dias depois, o problema se repetiu. No dia 26, 285 crianças passaram pela unidade, que contou apenas com dois médicos a cada turno de trabalho.

