Quando na Fafil, no curso de Ciências, que eu cursava, por volta dos anos 70, o prof. dr. Muricy Domingues deu como exercício em sala a leitura do livro cujo autor era Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo (Brave New World, na versão original em língua inglesa). É um livro escrito e publicado em 1932 e que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse "futuro" criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada "soma". As crianças tinham educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existia.
Foi uma verdadeira revolução, pois estávamos numa Faculdade Católica, e o prof. dr. Muricy havia dado a leitura e discussão do livro para realmente causar e provocar a análise reflexiva em sala para que formássemos opinião sobre a leitura proposta e criássemos uma ideia própria do que o autor se propunha.
O tempo passou, nos formamos, exercemos a função de professor, durante 34 anos no Colégio São José e atualmente com 24 anos na USC ? Universidade Sagrado Coração, na docência de Estatística, no Deptº de Ciências Sociais e Exatas, no curso de Administração.
Mas... o mundo evoluiu e aí que ficamos pensativos com as mudanças que hoje nossos jovens sofrem com a popularização da telefonia móvel, os preços cada vez mais acessíveis, já muito utilizado pela indústria do entretenimento chamado transmídia... como a internet e os dispositivos móveis de comunicação: celulares, tablets, smartphones na vida moderna.
O uso excessivo de smartphones pode levar à depressão, estresse e insônia, de acordo com o professor de Psicologia Organizacional e Saúde da Universidade de Lancaster, Cary Cooper. Segundo ele, os aparelhos oferecem uma saída passiva onde o usuário não precisa interagir com o mundo ou enfrentar os problemas. As informações são do The Sun. Uma pesquisa feita pela Bayer descobriu que 28% das mulheres culpavam o smartphone por arruinar suas vidas sexuais. Checar e-mails e redes sociais, obsessivamente, causa problemas semelhantes. "As tecnologias de computador podem ser viciantes, porque elas são psicoativas - que alteram o humor e, muitas vezes desencadeam sentimentos desagradáveis", explicou Cooper.
Não muito distante, foi afirmado que nos Estados Unidos ocorreu o seguinte fato dentro de um restaurante: dois jovens sentados à mesma mesa conversavam através de um aparelho celular... inclusive fazendo o pedido do que iriam consumir... A comunicação verbal, o olho no olho, não mais existe, as pessoas caminham pelas ruas com o aparelho celular em mãos, olhando para o mesmo, e digitando a mensagem, ora perguntando, ora respondendo; na sala de aula, então, em curso superior, os alunos estão presentes em corpo, mas a sua atenção está no aparelho que recebe mensagens, torpedos, informações em fração de segundo... e você pode chamar à atenção, que é momentâneo, dali a poucos minutos ele voltará a continuar sua ligação... num desrespeito total.
Hoje você vê nos carros, nas calçadas, nos ônibus, na filas, na santa missa na hora da benção final, em todo lugar uma crescente febre de informação. Será que há tanto o que conversar ? Será que as decisões precisam ser discutidas a céu aberto para que todos participem... sem o menor pudor... sem o respeito à privacidade?
Na sala de espera, esta semana, quando fui fazer o exame para ver se estava apto para continuar trabalhando, duas moças conversando, eis que o celular toca...
Uma delas atende: - Alô! em alto e bom som...
- Ele não apareceu com o dinheiro?
- Você sabe que existe polícia para isso?
- Ele quer ver a menina, é um direito dele, mas se não pagar a pensão, nem pensar... chame a polícia... e não deixe ele levar a menina...
Eu fiquei perplexo, o que eu tinha de saber do problema particular da moça? Qual era o meu envolvimento com a situação proposta naquela hora?
O mundo caminha muito rápido, em fração de segundo você consegue uma ligação de Bauru com Nova York, maravilhosa essa tecnologia, mas será que essa crescente massificação dos meios de comunicação não vai transformar as pessoas em seres que estranhamente achávamos errado no Admirável Mundo Novo? Estamos vivendo isso. Hoje há clínicas nos Estados Unidos para ajudar as pessoas que estão viciadas na mídia, como exemplo uma pessoa ficando 20 horas ininterruptas ligadas no computador, sem se alimentar, beber, ou viver... e muitas vezes nem usando o sanitário para as necessidades básicas.
Hoje está deixando de existir o relacionamento a dois, o momento de curtir o outro, pois a interrupção do celular que está disponível na mão para receber, passar, digitar, enviar mensagens e o romantismo tão decantado está sendo invadido pelas mídias, isto sem deixar de citar famílias que os pais, crianças estão no mesmo ambiente, mas estão vivenciando situações diferentes, pois estão conectados em seus jogos, mensagens e papos virtuais que os levam ao seu mundo particular, só dele. E o que é pior, vemos que não há volta.
Sabemos que não podemos fugir da modernidade existente, mas é necessário que o uso dessa tecnologia não transforme o homem em escravo dela, mas sim o usuário consciente e com bom senso.
Carlos Alberto Alves Neves