Nas cidades do Interior, em época de eleições, existia o famoso palanque na praça onde as pessoas competiam para ficar na fila do gargarejo para assistir ao acalorado comício. O palco ficava abarrotado de lambe-botas que se acotovelavam para os "flashes" ao lado da figuraça, e durante o empurra-empurra muitos até despencavam das alturas. Terminado o discurso, o povo era convidado a ir até a sede do partido, onde seriam oferecidos lanches, "sodinha" e guaraná. Já nesse tempo se ouvia falar na famosa "Caixinha do Ademar", depositório de doações para a campanha política. Hoje, muito mais vergonhoso, temos o "mensalão". Ademar de Barros, mestre da oratória popular, Plínio Salgado e os camisas-verdes do Movimento Integralista, cujo lema era Deus, pátria e família, injustamente confundido com nazismo, devido trazer como símbolo a letra grega sigma, que significava a soma de valores éticos e morais, Jânio Quadros e a famosa vassoura, marechal Teixeira Lott e sua dourada espada.
Nessa época, muito se tergiversava sobre o voto de cabresto, ou seja, colonos, funcionários e empregados eram obrigados a votar no candidato do patrão. Porém, o antigo cabresto resta pendurado no portal da história e a versão moderna foi criada, e no lugar do arcaico cabresto surgiu a canga, engenhoca que colocada no pescoço impedia o usuário de pular para o outro lado e se tentasse, ficaria enroscado entre os fios de arame. E a canga, embora pesada, oferecia o gratificante direito a quem a usasse de, passivamente, ficar de cócoras assuntando o horizonte. O hábito do uso da canga foi acatado, mesmo que perdida a liberdade do livre arbítrio.
Hoje, a geringonça, supostamente leve, é de plástico. A ilusória varinha de condão do século 21 que, num toque de mágica, se transforma em valiosa moeda para escambo de favores e cabe na palma da mão. Fato gravíssimo mesmo é que muitos oferecem com servilismo o lombo para que o adorno pacificamente seja colocado, tal e qual medalha de grandes conquistas. E o cidadão troca dignidade e valores personalíssimos pelas modernas cangas do século 21, ou seja, dinheiro de plástico garbosamente batizado de Bolsa Família, vale-leite, gás, luz, auxílio aluguel, Bolsa Saúde, Vale Cultura, vale isso e vale aquilo... Enfim, o voto de cabresto apenas trocou de nome! E, enquanto recostado na ilusória maciez do servilismo, o povo se cala. Viva a grande festa do falso milagre brasileiro! Viva a canga de plástico! Viva a feira da corrupção! Salve a inaceitável e vergonhosa impunidade!
A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga, autora de Lágrimas Brasileiras, Trama e Urdidura e A Velha Adormecida