Assim escreveu um leitor na coluna Fórum de Leitores, do jornal "O Estado de S. Paulo": "Dr. Joaquim Barbosa, candidato a presidente da República, tem o meu voto garantido" (Edição de 16/10). Terá a preferência dele e seguramente de tantos outros que o conduzirá a posição de candidato na disputa do pleito mais importante do País, medindo forças com cobras criadas na política, mas com mínimas chances de sair vitorioso.
Seu desempenho como ministro relator do processo penal do mensalão mostrou uma atuação nada serena, diferente do comportamento pessoal tranquilo que tem sido a tônica no exercício da judicatura, contudo, segura e corajosa nas convicções sustentadas. Magistrado inteligente e sagaz, cuidou de preparar seu relatório com a profunda dedicação ao estudo do processo, o que lhe assegurou um lugar de relevo nos debates, impressionando a todos que assistiram pela televisão. Muito didático e minucioso na exposição das teses defendidas, mantendo a rispidez na porfia com colegas de toga, mereceu, por essa personalidade explosiva, o aplauso de um público que nele depositou a esperança de convencer seus pares de que não deviam perder a oportunidade de lavar a honra do Judiciário, impondo aos réus condenação exemplar. O povo, pouco compreendendo o palavreado dos ministros, nem se incomodou se o processo abrigava provas embasando a procedência das acusações, porque o mensalão representava várias gotas d?água despejadas no pote transbordado de repulsa aos políticos vacinados contra punição, nos sucessivos escândalos. O que se aplaudiu foram as ásperas palavras do ministro clamando para o voto de condenação com pena elevada por crimes que, segundo ele, atentou contra a democracia. O ministro caiu no gosto popular por suas posições enérgicas e inflexíveis, pregando aos ministros a fixação de elevadas penalidades aos corruptos, de certa maneira inovando os debates na Corte, tornando-os acalorados e avessos a forma protocolar da postura dos militantes daquele Tribunal.
Os eleitores mais entusiasmados de ver o ministro Joaquim Barbosa na chefia do Poder Executivo sentiram a satisfação de ler ou ouvir suas próprias palavras numa entrevista concedida à imprensa, finda a palestra proferida num congresso do jornalismo investigativo realizado no Rio de Janeiro, ao revelar seu desejo de aposentar-se antes dos 70 anos de idade, e durante a inatividade refletir sobre o futuro, acenando a possibilidade de disputar as eleições presidenciais do ano de 2018.
O ministro Joaquim Barbosa é um jurista dos mais respeitados e a autonomia com que conduz seu trabalho a par da crítica costumeiramente lançada a tudo que entende ou desconfia de errado, não se compraz com o afazer do Poder Executivo. Governar o País ou fragmentos políticos da federação exige de seu titular comportamento alheio ao temperamento do ministro. O mais otimista admirador não conseguirá admitir que ele possa aceitar passivamente certas vicissitudes do Executivo, quais sejam: acordos com partidos de sustentação, não raras vezes descumprindo-os; alianças com políticos desconhecidos; risco de atentar contra os princípios da ética e moralidade; barganha; conchavos; enrolação; renúncia à pretensões legítimas, digerir auxiliares do primeiro escalão escolhidos por legendas; palpites sobre sanção ou veto de certas leis e uma série de interferências próprias do Estado tripartido, o que integra nossa cultura como mal necessário à governabilidade. Aceitar tudo isso importa numa reformulação da personalidade, substituindo o jurista pelo político, sob pena de ter que repetir as palavras mal disfarçadas em comiseração do arrogante ex-presidente que afundou a economia individual do poupador: "não me deixem só".
O perfil do ministro não se coaduna com o do político e, assim como Ruy Barbosa, que não conseguiu votos para eleger-se presidente da República nos pleitos de 1910 e 1919, a história pode se repetir um século depois. A importância que representa ao Judiciário do País numa fase em que alavanca com força e intrepidez sua credibilidade, o melhor será permanecer na dele.
O autor, Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril, é professor universitário aposentado