Nesta querida Bauru, onde quase tudo o que não se acredita que possa acontecer, cedo ou tarde acaba acontecendo. Foi noticiado que, aparentemente, o sistema de segurança do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) vinha sendo de responsabilidade de simpático e ineficiente espantalho que, do alto de torre de madeira, permanecia discretamente à espreita, sem conseguir evitar que em curto espaço o local tenha sofrido quatro furtos, até aqui investigados sem sucesso. No mundo dos espantos, é sabido e ressabido que os espantalhos têm tempo certo de validade, geralmente coincidente com o tempo que as aves e outros vigiados demoram para perceber, a partir de sua imobilidade, que não correm risco algum no âmbito de sua vigilância. Assim, a comicidade da notícia confirma, uma vez mais, que os espantalhos espantam muitos por algum tempo, mas acabam por não espantar ninguém durante todo o tempo e isso acaba explicando a sucessão de ocorrências policiais naquele importante espaço público.
O enfoque noticioso de nosso JC puxou-me a lembrança para a figura de meu velho e saudoso avô e sua terrível batalha contra os gafanhotos que insistiam, ano após ano, em almoçar sua plantação de algodão, na qual a figura dos espantalhos tinha papel importantíssimo e, até, fardamento específico com cores variadas periodicamente trocadas para impedir que os insetos esfomeados desprezassem os vigilantes e imóveis bonecos. Já naquela ocasião, a estratégia não funcionou, a plantação acabou devastada, meu avô desistiu de plantar algodão e morreu, muitos anos depois, detestando todos os gafanhotos do mundo e fazendo severas restrições ao utilíssimo algodão. Evidentemente, nosso CCZ - seus equipamentos e os bens de seus servidores -, pela importância que tem, não merece continuar fragilizado pela ineficiência do solitário espantalho flagrado pelo jornalista Vitor Oshiro, que conseguiu com engenho e arte chamar a atenção de nossa comunidade para a insegurança de nossa periferia e os atos de violência que ali acontecem para preocupação de todos nós.
Aliás, por falar em fragilidade e insegurança, na mesma edição do JC (23/10/2013), a situação em torno da inexistência de plano emergencial de interdição e providências diante de riscos de enchentes na região da avenida Nações Unidas e as confusões e imprecisões avaliatórias no âmbito de nossa Seplan expõem - e isso se afirma com muito respeito em relação aos responsáveis - quadro preocupante que exige atenção e atuação de nossa comunidade para que não acabemos todos surpreendidos por eventos desagradáveis como o do espantalho, em tudo e por tudo incompatíveis com a pujança e modernidade desta maravilhosa cidade que, com fraternidade e carinho, acolhe a todos que aqui chegam.
Nos municípios brasileiros - pessoas políticas federadas - onde se alojam as cidades em que moramos são imensas as situações de fragilidade e de carências que influenciam a qualidade de vida dos seus habitantes e que resultam de perversa concentração e distribuição das rendas públicas, geradoras do crônico impasse entre insuficiência de meios e excesso de legítimas demandas. Não se pode vislumbrar na ordem constitucional perspectiva honesta, igualitária e justa para equacionamento dessa desconfortável situação. Aos cidadãos - e à força da cidadania - é que se carrega a imensa responsabilidade de acompanhar, questionar e cobrar ações administrativas que possam garantir mínima qualidade de vida que permita dispensar a improvisação de ineficientes espantalhos. Nosso queridíssimo Isaias Daibem - que perdemos, enlutando Bauru, sua bem formada família e sua legião de amigos - pensava e agia assim e durante toda sua linda vida lutou com a integridade de seu bom caráter para que assim se fizesse. Que descanse em paz, na certeza de que o bom combate continua e seus valores serão preservados.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado e articulista do JC