Eles chegam, em geral, antes do horário combinado, se preparam em concentração para o encontro semanal, têm uniforme, coordenador, logotipo, hino próprio, slogan de grupo e a ferramenta sempre às mãos. Errou quem pensou que se trata de um time de futebol masculino! Também errou quem pensou que a “ferramenta” é a chuteira, ou a faca do churrasco. Trata-se de um dos milhares de grupos eminentemente compostos de homens que toda semana se reúnem em oração pelo País.
Aceituno Jr. |
|
|
Norival Sandi, Dirceu Grana, Antonio e Pedro José fazem parte do time “Terço dos homens”, com encontro toda terça-feira, na paróquia Nossa Senhora das Graças de Bauru |
Em Bauru, na Paróquia Nossa Senhora das Graças é assim. Toda terça é dia de terço, às 20h, no Parque Vista Alegre (PVA). O grupo completou um ano de atividades em agosto passado. A ideia surgiu de um pedido dos próprios homens em reuniões do Centro Pastoral Paroquial (CPP). O coordenador do grupo é Dirceu Grana, que trabalha com oficina mecânica. “A desculpa do homem que não vai nem à igreja é de que não tem tempo e quando tem ele reserva para o lazer, normalmente o futebol ou um grupo de amigos para a cerveja, o churrasco”, comenta.
A iniciativa deu certo. “O grupo se consolidou com uma média de 40 homens no terço toda terça-feira aqui na paróquia. Quando o homem dobra o joelho a terra treme”, profetiza o coordenador. “Essa ideia de que só a mulher tem de rezar pelo homem, pelos seus, é falsa. O homem também tem de ter seu encontro rotineiro com Deus”, defende.
Um dos integrantes da turma do “Terço dos homens”, Norival Sandi fala com carinho do primeiro evento paroquial do grupo. “Nós fizemos uma homenagem bonita no Dia das Mães deste ano. As mães, filhas e esposas ficaram de um lado da igreja e os homens do outro. Só os homens puxaram a reza nesse dia, em homenagem mesmo, e as mulheres permaneceram orando em silêncio. Foi emocionante”, conta.
A camiseta dos membros, na cor azul e branca, além de layout e nome traz na costa o slogan: “Homens rezando pela paz”. Detalhe, ninguém comparece sem a “ferramenta de oração”: o terço. Pedro José da Silva, um dos jovens da “equipe de oração”, participa há seis meses. “Eu ia somente à missa porque durante a semana não encontrava tempo”, conta o empresário na área de assistência técnica.
Antes do início do terço de terça, na paróquia Nossa Senhora das Graças, os presentes ouviram o hino do “Terço dos homens”, de autoria do padre Antonio Maria. O encontro está gerando adeptos. José Réscia leva o netinho. Pedro José lembra que a presença é livre e sem maiores protocolos. “Pode vir de botina, de chinelo, de bermuda, de camiseta. O importante é vir para rezar”.
Assim, cada homem chama um dos cinco mistérios que compõem o terço, em um revezamento que tem a incumbência de “por todo mundo pra rezar”. Licínio da Silva Crepaldi não perde uma reza. “É um ato de reconhecer e respeitar a Deus”, resume.
‘Contaminado pela oração’
Para o padre Gilson, da comunidade do Parque Vista Alegre, o movimento tende a ganhar espaço entre outras paróquias. “Isso tem se alastrado entre as paróquias e a iniciativa tem raiz histórica no Brasil. No período colonial um grupo organizado da igreja católica, dos Congregados Marianos, se reunia em Minas Gerais para a oração formada apenas por homens”, menciona.
Para o pároco, encontros como o de sua comunidade estão lapidando uma resistência cultural de gênero. “O homem ainda é mais restritivo a rezar que a mulher. Jesus, embora tenha escolhido apóstolos homens, sempre teve muitas seguidoras, com a mulher em destaque em várias de suas manifestações de fé. Aliás, Jesus apareceu primeiro para uma mulher ao ressuscitar”, aborda.
Padre Gilson aposta no “coração mariano” para a dedicação masculina à oração. “A partir de ações concretas como esta, do terço semanal, o homem também tem a oportunidade de, em grupo, conversar com seus amigos de oração sobre problemas e aflições comuns. Tenho convicção de que o homem que frequenta o terço gera desdobramento existencial sobre ele como esposo, amigo, colega de trabalho, filho e cidadão”, completa.
Na paróquia central da cidade de Dois Córregos, a realização do terço de homens deu tão certo que a sede da igreja tem sido pequena para os encontros semanais. São contabilizados mais de 500 participantes, desde que a experiência foi adotada por lá.
Testemunho
O padre Enedir Gonçalves, da paróquia universitária, revelou a experiência que a oração fez em sua vida, ainda pequeno, em sua casa. “Eu não me esqueço do dia em que me dirigi ao quarto de meus pais e, ao abrir a porta, encontrei meu pai, junto de minha mãe, de costas e ajoelhado. Isso me de uma sensação enorme de segurança porque eu pensei, como menino: ‘Meu pai reza!’”.
Enedir comenta que o terço masculino, na igreja católica, tem relação com movimento da mãe rainha, cujo centenário será celebrado em 2014. “Isso se disseminou e mais de um milhão de fieis homens rezam neste movimento. Acho que é mito até a menor participação do homem na igreja. O que tenho acompanhado aqui na paróquia é o homem cada vez mais ativo e com participação crescente em ações como esta, além das missas”, opina.
Já na estatística oficial, relativa ao censo do IBGE de 2010, praticamente metade dos 123 milhões que se declararam católicos são homens. Entre os evangélicos dos 42 milhões daquele registro 18,8 milhões são do sexo masculino. Entre os espíritas no censo, 1,6 milhão se declararam homens para o universo de 3,8 milhões registros.
Evangélicos têm congresso e encontro masculino
As comunidades evangélicas também são adeptas do louvor por grupo de homens. Em algumas denominações, a ação já foi transformada em congresso. É o caso da igreja Manancial do Sião.
O pastor Adão Nereu Barbosa vai participar do 1º Congresso de homens nos dias 2 e 3 de novembro, com a presença de André Nunes, da Universidade da Família. “Realmente é mais fácil reunir um grupo de homens para jogar futebol toda semana, porque para o homem o cotidiano, ou a contemporaneidade, é muito mais prazerosa que o eterno”, aguça.
Adão reflete que, exceto em momento de dor, “o que inclui a perda de alguém próximo, ou quando sente risco pela própria vida, o homem se envolve muito mais como o presente. Ele só se dá conta de que o divino é o agora quando sai da esfera do cotidiano e dimensiona a eternidade, independentemente do seu clero”. Assim, o pragmatismo masculino, na visão de Adão Nereu, gera no homem maior resistência a dobrar os joelhos pela fé. “A mulher se concentra em ato de fé pelo marido, pelos filhos, pela família, pelos projetos de todos e não somente pelos seus. É importante esta célula de encontros masculinos porque os problemas são comuns e isso amplia a confiança no homem em discutir questões próprias de seu universo com seu amigo de fé”, acredita.
Aguinaldo Silva, pastor da Aprisco das Ovelhas e presidente da União Pastoral do Brasil, está já está organizando o segundo Encontro de homens, a ser realizado entre no dia 10 de novembro na sede de sua comunidade. “O encontro tem o objetivo de o homem líder do lar se elevar ao lado mais sentimental do papel de pai, filho, orientador, parceiro da esposa e companheiro da família. A resistência à participação exclusivamente masculina cai por terra quando se aceita a ir à igreja, a servir a Deus”, menciona Silva.
Para o pastor, vale o salmo 128: “Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos seus caminhos”.