A prevenção ao câncer de mama enfrenta um lamentável entrave burocrático em Bauru. Embora vagas para a realização gratuita de mamografia estejam sobrando nos hospitais que realizam o serviço, 1.355 mulheres aguardam na fila para ter acesso ao exame.
Divulgação |
|
|
ela regra da União, exame deve ser feito em mulheres de 50 a 69 anos |
O contrassenso ocorre porque elas não se encaixam no protocolo estabelecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo tendo recomendação e encaminhamento médicos da rede básica de saúde. Pela regra estabelecida pela União, o exame deve ser feito apenas em mulheres entre 50 e 69 anos de idade, uma vez a cada dois anos.
Se a paciente tiver histórico familiar de mãe ou irmã que sofreram de câncer de mama ou ovário, também têm o teste gratuito garantido a partir dos 35 anos. Para a mesma faixa etária, a mamografia pode ser indicada se alterações forem detectadas após exame clínico (autoexame).
O problema é que a lei federal 11.664, que passou a vigorar em 29 de abril de 2008, determina que todas as mulheres acima de 40 anos – e não 50 – têm direito a fazer a mamografia pelo SUS, independentemente de possuir casos de câncer na família ou alterações na mama.
“Todas as campanhas de combate ao câncer orientam a fazer o exame a partir dos 40 anos e, quando a mulher toma a iniciativa de se cuidar, não consegue fazer a prevenção pelo SUS porque as regras são outras”, lamenta Clara Vasconcellos, secretária do grupo Amigas do Peito.
De acordo com ela, o início dos cuidados também é recomendado para esta faixa etária pelas associações Paulista e Brasileira de Mastologia. Por meio de nota, o Ministério da Saúde informou que segue o preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Sobra
Em meio às divergências de entendimento, as 1.355 mulheres que não obedecem ao protocolo do SUS, mas possuem encaminhamento médico, continuam sem acesso ao exame. A situação é ainda mais lamentável porque sobram vagas no Hospital Estadual (HE) e no Instituto da Mama da Maternidade Santa Isabel, os dois serviços credenciados pelo SUS para realizar mamografias em Bauru.
Segundo a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), gestora da maternidade e do HE, quase metade das vagas disponíveis para este tipo de exame acaba ficando ociosa por falta de pacientes.
“Uma parte é de mulheres que agendaram a mamografia e não compareceram, mas a maioria é de exames que poderíamos fazer, mas não fazemos devido às restrições do SUS”, destaca o vice-presidente da Famesp, Antônio Rugolo Junior.
De acordo com ele, as unidades não podem realizar os exames em pacientes que não se encaixam no protocolo porque deixariam de ser remuneradas pelos procedimentos. Mas, para as demais pacientes, o vice-presidente assegura que a fila de espera é nula.
Exames positivos
Quando a paciente está em acompanhamento no ambulatório de ginecologia da Maternidade Santa Isabel e é detectada alguma alteração em exames de mamografia ou ultrassonografia, ela é encaminhada ao Serviço de Orientação e Prevenção ao Câncer da Prefeitura (SOPC), desde que seja alguma alteração que mereça observação frequente, ou para o ambulatório de Mastologia Oncológica do Hospital Estadual Bauru, quando detectada imagem radiológica que considere o caso altamente suspeito.
Perda de 45% de exames
Juntos, o Hospital Estadual (HE) e o Instituto da Mama da Maternidade Santa Isabel disponibilizam cerca de 1.130 mamografias por mês às mulheres de Bauru e região. Mas, devido às restrições impostas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 515 exames são simplesmente desperdiçados, o equivalente a 45% do total.
Segundo a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), na maternidade são liberadas 750 vagas mensais, sendo 500 agendadas e 350 efetivamente ocupadas. Já no HE, são disponibilizados 380 exames, com aproveitamento de somente 265 vagas.
Abaixo de 35 anos
Para mulheres com até 35 anos, o método recomendado para detecção de câncer de mama é o exame clínico (autoexame), com investigação mais apurada por meio de ultrassonografia, diante de qualquer sintoma suspeito. Se a mulher apresentar histórico de câncer de mama na família, como mãe ou irmã que já sofreram da doença, a atenção deve ser ainda maior.
Nesses casos, a avaliação é individual e deve ser feita pelo ginecologista ou mastologista. É ele quem vai indicar, dependendo da gravidade do caso, a periodicidade de consultas e de exames.
Justiça
Como a realização de mamografia é garantida por lei federal a mulheres a partir de 40 anos, a recomendação do grupo Amigas do Peito é para que as pacientes dentro desta faixa etária reivindiquem na Justiça o direito de ter acesso ao exame gratuito.
“Se a mamografia for negada, ela deve procurar a Defensoria Pública. A prevenção contra o câncer de mama é um direito dela”, salienta a secretária do grupo, Clara Vasconcellos.
Demora também para consultas
Nesta semana, o vereador Fernando Mantovani (PSDB) denunciou, na tribuna da Câmara Municipal, a dificuldade enfrentada por mulheres para ter acesso à mamografia gratuita. Ele também destaca, no entanto, que a demora também ocorre para o agendamento das consultas com ginecologistas das unidades básicas de saúde.
“Há algo muito errado acontecendo. Ela leva meses para ser atendida por um médico, em seguida o caso é encaminhado para o setor de prevenção de câncer da prefeitura e, depois, este setor vai encaminhar o pedido de exame para o hospital. É uma aflição que só piora o sofrimento com a doença”, lamenta o parlamentar.
A demora para o início do diagnóstico também foi constatada pela secretária do grupo Amigas do Peito, Clara Vasconcellos.
“É uma reclamação recorrente. E, mesmo quando ela consegue o encaminhamento para o exame, se não se encaixar nos critérios do SUS, pode ficar sem receber qualquer resposta do sistema”, lamenta.
