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Nosso lixo: ... e um exemplo

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Cuidar, no sentido de zelar pela qualidade dos relacionamentos, das amizades, do respeito às pessoas e ao ambiente em que se vive. Desde quando se mudou para a quadra 9 da rua Sargento José dos Santos, no Nova Esperança, em 1976, o aposentado José Aparecido de Moraes, 66 anos, varre a calçada e a rua do seu quarteirão e das vias próximas.

Todo dia pela manhã lá está ele com uma vassoura, uma pá e uma lata de tinta usada como lata de lixo. “Estou exercendo a minha cidadania”, define.

Os vizinhos da padaria e da farmácia e moradores aplaudem a disposição incansável de “Seo” Cido, como é conhecido no bairro. Ele não é uma pessoa do tipo sistemática, que tudo deve ser à sua maneira caso contrário ele mesmo faz. Ele é sim dono de uma vontade imensa de melhorar o ambiente em que vive, porém, distribuindo sorrisos e bom humor.

“É a maior alegria porque me sinto bem. Mesmo que as pessoas não reconheçam, elas estão vendo”, explica. “Seo” Cido se contenta com o pessoal ajudando a manter limpo o bairro.

Sol, chuva, dia nublado, vento ou frio não afugentam o morador. Após dar aquele trato na rua Sargento José dos Santos, ele segue trecho da rua Albano Capella. Depois retorna e segue até o Caic. “Seo” Cido também tira o mato que brota no vão do concreto das calçadas e no meio-fio. “Desço tudo por aí vou até embaixo”, acrescenta. 

“Seo” Cido não é bom apenas com a vassoura. Quando sua esposa, Maria José, quebrou o braço, ele assumiu todos os afazeres domésticos. Cozinhou, lavou a louça e limpou a casa para a mulher.

“Seo” Cido é nascido em Paulistânia (51 quilômetros de Bauru), onde morou na zona rural trabalhando desde muito cedo na roça. O casal possui cinco filhos. “Criei os cinco filhos aqui”, comemora.


Sorrir

Depois que se aposentou, José Aparecido de Moraes até manteve um breve tempo de “recesso” das muitas atividades simultâneas.

Contudo, percebeu que a aposentadoria poderia ser um problema. Ele comenta que os vários afazeres ajudaram a superar o vazio da aposentadoria.

“Seo” Cido conta que fez um curso de costura em máquina industrial. Não conseguiu fazer o curso de corte de peças, o que considera uma lacuna no seu planejamento pós-aposentadoria. “Passo meu tempo aqui”, comemora.

Em sua oficina de costura, ele faz reparos e recebe pequenos serviços como troca de zíperes de bolsas, mochilas, entre outros consertos. Ele também tem produções mais elaboradas, como bolsas femininas e estojos para Bíblia.


Reconhecimento

José Aparecido de Moraes, o “Seo” Cido, é observado pelo pessoal da padaria ao lado de sua casa e por moradores do bairro. A moradora Sônia Melchior mandou um relato para o JC como forma de reconhecimento pelo trabalho voluntário de “Seo” Cido muito antes do voluntariado ganhar a importância que detém atualmente.

Ela reside na rua de trás e se acostumou a vê-lo varrendo ruas pelo menos até o Caic. Porém, outro dia resolveu registrar a disposição de “Seo” Cido que varria na chuva.

“Debaixo de sol e de chuva lá está ele todos os dias, com o vassourão, o saco de lixo e o latão. Para dias de chuva ele tem um vassourão para varrer. Ele mora em frente a um ponto de ônibus e tiraram aquela cobertura do ponto. Ele fez um banco de madeira e todos os dias de manhã ele põe o banco para fora para que as pessoas que estão esperando o coletivo possam esperar sentadas. À noite, ele recolhe o banco pra que não seja roubado. Esse é um exemplo de cidadania, pois ele já é aposentado, não ganha para fazer isso e faz de livre e espontânea vontade, sempre feliz”.

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