Mais um morador de rua morre desconhecido. Infelizmente, Manuel (Bob), o famoso guardador de carros, que trabalhava próximo ao Sesc, foi mais um morador que passou despercebido. Viveu ali, numa casa aparentemente abandonada, ao lado do seu local de trabalho, porque, sim, guardar carros era o seu trabalho, todos os dias no mesmo horário lá estava o seu Manoel. Que para alguns era mal educado, talvez ameaçador, mas para nós sempre foi gentil. Sempre cuidou do nosso carro e até nos ajudava nas manobras. Enfim, era um trabalhador prestativo, que merecia respeito.
E era triste a realidade de uma pessoa de 41 anos que aparentava 60, por conta de tanta dificuldade em sobreviver. Certa vez, em um dia frio, encontramos seu Manuel, todo machucado, pois tinha sido assaltado e agredido por outros moradores de rua. Apanhou cruelmente e passou dias enfaixado e ninguém percebeu. Levaram o seus pertences, que se resumia em moedas, um par de sapatos e algumas blusas de frio. Isso é um absurdo! Ele não podia ganhar muitas coisas, pois corria o risco de ser assaltado novamente.
Sabemos da realidade dos moradores e que alguns vendem as roupas que ganham, para brechós e outros fins, mas esse não era o caso do Manuel. Já levamos agasalhos, gorros, meias, carteira, entre outros. Ele usava na hora que ganhava. Nós sempre estávamos por perto. Dava gosto de ver como aquele sapato parado em nossa casa, fazia a diferença no seu dia a dia. Este é só um relato para lembrar que o Manuel foi humilhado, pisoteado e machucado por tantas vezes e que não sabemos o que aconteceu, mas faleceu no dia 22 de outubro e que não temos a mínima ideia de como, quando e onde ele foi sepultado. O que sabemos é que quando a ambulância chegou Manuel já havia falecido.
E que parou de sofrer, de ter medo, de ter frio e fome. Ele está livre da indiferença, da injustiça e também daquelas pessoas que o julgavam mal, porque o Bob (Manuel) era muito querido por nós! Está em paz, num lugar onde não existe mais toda tristeza que teve que passar. Deus, na sua misericórdia, o abraçou e confortou no último suspiro, temos certeza, porque o Bob lembrou muito o seu filho Jesus. Bob, descanse em paz.
Marcia Yadomi