Bairros

Quais os caminhos para o Horto?

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Sem receber grandes investimentos há anos, a Estação Experimental de Bauru, mais conhecida como Horto Florestal, poderá ser revitalizada. Com mais de 260 mil metros quadrados de área verde cravada dentro da zona urbana de Bauru, o espaço que dá acesso ao público poderia ser mais bem aproveitado como um grande parque para recreação, educação, esporte, cultura e pesquisa.


Esta é a ideia da Prefeitura de Bauru, que propôs ao Instituto Florestal, órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente do governo do Estado, firmar convênio para estabelecer a gestão compartilhada da Estação, que está sucateada devido à falta de investimentos. As discussões foram iniciadas neste ano, mas ainda não há previsão sobre quando serão finalizadas.


“A prefeitura poderia ajudar na manutenção e na segurança do espaço, além de realizar eventos diversos, a exemplo do que já ocorre no Jardim Botânico e que tem ampla aceitação da população”, detalha o prefeito Rodrigo Agostinho.


Ele conta que vem participando de reuniões periódicas junto a representantes do Instituto Florestal para debater o assunto. Mas não há, ainda, uma decisão final sobre a possível gestão compartilhada, que já vem sendo estabelecida em outros municípios do Estado. Contatada na tarde de ontem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Meio Ambiente do Estado não respondeu às informações solicitadas pela reportagem.


Ao longo de 85 anos de existência, o Horto perdeu funcionários e repasse de recursos, o que o obrigou a reduzir sensivelmente suas atividades. Conforme revela o chefe da seção da Estação, José Arimatéia Rabelo Machado, a unidade está há quase 20 anos sem novas contratações.


Ele é o único pesquisador do horto, que conta com apenas uma viatura e mais seis funcionários – todos com mais de 50 anos, incluindo dois vigilantes que se revezam em turnos de trabalho – responsáveis pela manutenção e pela segurança de uma área equivalente a 26 campos de futebol, a que o público tem acesso.


“A questão da vigilância é nosso maior problema. Usuários de drogas frequentam o local, que também é alvo de furto de mudas de árvores e flores. Sem contar o risco de incêndio, já que fica difícil monitorar toda a área com a frequência necessária”, lamenta.



Entrada restrita


Como medida de comparação, ele cita o Jardim Botânico, que só foi aberto ao público após a contratação de dez vigilantes. No passado, o próprio Horto, conforme lembra o ex-diretor José Carlos Bolliger Nogueira, já manteve 28 funcionários contratados.


Por conta da insegurança, a área de livre acesso ao público foi restrita há alguns anos para um espaço de 60 mil metros quadrados, onde há pouca infraestrutura para lazer, prática de esportes ou projetos de educação. Os 200 metros quadrados restantes, onde estão as trilhas ecológicas, têm entrada proibida aos fins de semana.


“Apenas as visitas monitoradas pré-agendadas são permitidas. Como faltam funcionários, só temos condições de abrir para toda a população durante a semana, quando a demanda é menor”, pontua Machado.


É exatamente neste trecho onde está a mata nativa em que podem ser avistados veados-catingueiros, cachorros-do-mato, tucanos, carcarás, maritacas e teiús, entre outras centenas de espécies da fauna e da flora brasileira.



Mas, também por falta de educadores ambientais (atualmente, há dois contratados em parceria com a Unesp), até mesmo as visitas agendadas foram reduzidas. Segundo o chefe da Estação, hoje a unidade recebe cerca de 1 mil crianças em projetos educacionais. Três anos atrás, elas passavam de 4 mil.



Contratações


O chefe da seção da Estação Experimental de Bauru, José Arimatéia Rabelo Machado, afirma que o sucateamento vivido pela unidade é semelhante ao de todas as outras que estão espalhadas pelo Estado.


De acordo com ele, o Instituto Florestal, vinculado à Secretaria de Meio Ambiente do Estado, já teria solicitado a realização de concurso público para reposição dos funcionários que se aposentaram ou morreram e deixaram os cargos vagos. Até o momento, no entanto, não há data prevista para as contratações.



 

Fotos/Quioshi Goto

Viveiro de mudas está praticamente inativo devido à necessidade de contratação de agrônomo

Viveiro parado


Outra perda para a Estação Experimental de Bauru foi a drástica redução na produção de mudas e sementes de espécies nativas, já que a atividade, recentemente, passou a ser rigorosamente controlada por uma portaria do Ministério da Agricultura. Segundo o ex-diretor da unidade, José Carlos Bolliger Nogueira, o Horto chegou a produzir 100 mil mudas de eucalipto e pinus ao ano.


Atualmente, as atividades nos viveiros estão interrompidas em quase sua totalidade. “Uma árvore é um depósito infinito de carbono, algo extremamente benéfico para a população que vive nas cidades. Sabemos que essa não é a prioridade do governo, mas algo precisa ser feito para reverter essa portaria”, lamenta.


Para voltar a produzir e comercializar sementes e mudas dentro das novas regras, a Estação precisaria contratar um engenheiro agrônomo responsável e adequar seus procedimentos às normas, o que não há previsão para ocorrer.


 

Estado de abandono pode ser constatado no local

Sede abandonada poderia ser museu


Abandonada há cerca de seis anos, a antiga sede da Estação Experimental de Bauru, construída em 1928, é um patrimônio histórico da cidade que pode ser perdido devido à ação do tempo. Foi nesta casa em que o ex-diretor José Carlos Bolliger Nogueira morou por quase 50 anos.


Quando ele se aposentou e mudou de cidade, o imóvel nunca mais recebeu cuidados. “É um descaso do poder público. Falta sensibilidade, amor pelo meio ambiente e pela história da cidade”, lamenta a filha de Nogueira, a advogada Tatiana Maria Tozzi Nogueira Aguiar Ayres, que nasceu e foi criada na sede.


De acordo com ela, além da residência, toda a praça jardinada que ficava em frente ao imóvel ficou degradada.


“O monumento em homenagem à fundação também está abandonado. O Getúlio Vargas chegou a dormir alguns dias nesta casa, na década de 1930. O desprezo com que este local está sendo tratado é inaceitável”, reclama.


Para o chefe da seção da Estação Experimental de Bauru, José Arimatéia Rabelo Machado, a antiga sede poderia abrigar um Museu da Madeira, para mostrar os diversos empregos do material e a variedade da flora lenhosa existente no Estado. Mas, para tanto, seria necessário elaborar um projeto para pleitear recursos junto ao governo do Estado ou mesmo à iniciativa privada.


“Em Jaú, a Estação Experimental conseguiu aprovar um projeto de revitalização de toda a área e receberá R$ 1,5 milhão do Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos. Foram três anos de batalha, mas poderia ser também uma saída para a sede de Bauru”, exemplifica.

 

  • Serviço


A Estação Experimental de Bauru fica na quadra 38 da avenida Rodrigues Alves. O horário de visitação vai das 7h às 16h, sendo que, aos finais de semana, o acesso à área de trilhas ecológicas só é permitido para visitas monitoradas pré-agendadas. A entrada é gratuita. Informações: (14) 3203-1899.

 

Monumento que marcou a fundação da Estação não recebe manutenção periódica

 

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