Bairros

Revoada dos passarinheiros

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

Se você, ainda que por curiosidade, digitar no Google “criadores de pássaros”,vai se surpreender com o número de pessoas atuando no ramo. Se quiser que a pesquisa tenha alguma triagem, basta procurar por criadores de picharros, curiós, bicudos e canários para confirmar a abrangência desse setor da economia entre pessoas físicas em Bauru. Condenada por ativistas ou integrantes de movimentos ligados à proteção da natureza e, em especial, dos pássaros, o fato é que é crescente o número de endereços espalhados por toda a cidade com criadores instalados.

Para se ter ideia da massificação da atividade, somente a Sociedade de Ornitologia Regional de Bauru conta com mais de 250 associados, sem contar as pessoas que atuam sem vínculo com nenhuma organização. Outras dezenas de apreciadores do canto dos bichinhos se espalham por quintais e garagens da cidade nos bairros, estes sem objetivo de comercialização.

Outra atividade bastante comum em vários bairros distantes do Centro da cidade é a realização de torneios de canto de pássaros. Entre os encontros para a escolha do melhor canto, o mais disputado e corriqueiro é de curiós, mas também acontecem eventos para canários e bicudos.

E quem está envolvido no setor se engaja, em outra faceta do negócio, contra os argumentos dos movimentos contrários à criação de pássaros em cativeiro, confinados em uma gaiola, e defende que os bichinhos, ao contrário da prática de tráfico, nascem com a tarja de próspero negócio e, também, de multiplicação da espécie fora da natureza, segmento que tem ampliado a lista de subsistência de dezenas de famílias.

Para os criadores, a relação é de paixão com os cantadores. O JC não encontrou nenhuma dificuldade em localizar criadores comerciais espalhados por vários bairros.

A despeito do crescente comércio no setor, e sem juízo de valor sobre a ação, o fato é que a criação de bichinhos com asas tem uma rentabilidade acima da média se comparada com uma diversidade de segmentos da economia popular. Um curió não sai por menos de R$ 300,00.  E se o pássaro bem treinado “copiar o som” de um campeão, o volume de dinheiro relacionado à “estrela da cantoria de asas” é significativo, multiplicado por mais de 10 vezes, no mínimo, do preço de origem do filhote. Alguns pássaros, poucos é verdade em todo o País, tiveram suas sonoridades tão valorizadas que chegaram a valer mais que um carro de luxo.

Só para ter uma noção de como o canto move milhares de reais, neste mês, a morte do campeoníssimo curió Vila Rica causou uma espécie de luto em efeito cascata por todos os cantos do País. O bichinho famoso já teve passagem por Araçatuba, ficou uma temporada “morando” em Bariri e fez andanças pelo Rio de Janeiro. A “cotação” do cantador no mercado é “algumas dezenas de mil reais”, indica e, ao mesmo tempo despista, Laércio de Souza Vieira, que deixou a profissão de serralheiro há alguns anos para se dedicar apenas à criação de pássaros.

As paredes de sua casa, na Vila Industrial, têm tantas gaiolas que ele já construiu criadouros em alvenaria em um terreno e fez da casa da irmã, ao lado da sua, uma creche de curiós e bicudos. Léo, como é conhecido na redondeza, tem mais de 400 pássaros (leia na página 3).

O efeito colateral do crescimento desse segmento de negócio é confirmado no comércio, onde lojistas veem seus estoques de ração e alpiste crescentes para atender à demanda. Um quilo de uma ração de qualidade sai por cerca de R$ 4,00.

 

Criadores têm associação e vão a torneios de canto

O representante comercial Nilton César Luvizotto cria bicudos no Núcleo Mary Dota há 10 anos. No bairro, muita gente o conhece exatamente pela criação de pássaros. Conhecido como Alemão no bairro, o viajante conta que perde de fato a noção de espaço e tempo quando é seduzido pela beleza do canto de um bicudo... Criador, ele é o atual presidente da Sociedade de Ornitologia Regional de Bauru (Sorb).

No Mary Dota, aliás, ouvir os cantadores de bico e dois pezinhos frágeis virou tal mania que na rua João Ambrósio muitos moradores passaram a se reunir, espontaneamente, nas manhãs de domingo para cada um mostrar o talento do trilar do assobio de seu pássaro. O encontro acontece no meio da rua mesmo. Sem cerimônia, um traz uma gaiola e outro morador outro cantador e eles ficam lá, na rua, ouvindo por algum tempo aquela pequena sinfonia da natureza.

Nos encontros organizados para premiar os pássaros mais cantadores, a extensão do canto, o som mais refinado em detrimento ao rasgado (este para a cópula, a conquista do macho junto à fêmea no cio) e o equilíbrio da frequência, sem muitas alternâncias no som, são indicadores que definem os melhores.  

Cada participante tem o tempo de canto cronometrado durante 15 minutos. Quem canta mais vezes nesse espaço de tempo, com mais extensão e menor variação de intensidade, vence.    

Alemão conta os primeiros passos na atividade. “Você tem de fazer cadastro no Ibama, depois procurar um criador já credenciado no órgão, adquirir dois casais de pássaros já anilhados (com identificação/registro) e começar a criar, levantando com outros criadores ou por leitura fácil na internet mesmo orientações para isso, e sabendo das várias regras para atuar dentro da legalidade”, cita.

O comerciante de animais criados por “confinamento residencial” adverte que é preciso cumprir as regras do Ibama. “Tem uma série de normas que precisam ser seguidas, como a limpeza e troca dos recipientes nas gaiolas ao menos de dois em dois dias, e a atividade exige muita dedicação. Temos pouco mais de 250 sócios e tem gente de muitos lugares. A maioria é de Bauru na nossa sociedade”, diz.

As normativas do órgão de fiscalização limitam o número de pássaros para apreciação (criação caseira) - sem venda dos filhotes - e também para o comércio. Os criadores tentam se organizar para sensibilizar o Ibama, através do governo federal, que o limite de 35 pássaros por pessoa física para criação e de 50 por cadastro para a transação comercial seria uma espécie de tiro no pé para a sobrevivência dos animais.

 

Repovoamento

Laércio de Souza Lima protesta que, ao contrário da marginalização em torno dos criadores por ativistas, os criadores contribuem para combater o tráfico. “Quem se atreve a criar, preparar para o canto e comercializar curiós por exemplo, o faz exatamente com a intenção de combater clandestinos e quem trafica animais. É o inverso do que o leigo possa pensar. Não há como esconder essa atividade e ela exige dedicação exclusiva. Não há como desligar do cio de uma fêmea durante a noite e nem descuidar do trato do filhote nos primeiros dias de vida. É o tempo todo. O limite de unidades para venda por pessoa física reduz a procriação por cadastrado e aumenta a pressão pelo tráfico junto à natureza”, defende. 

Para Léo, o Ibama cria uma armadilha com essa regra. “Tem de ser o inverso para a proteção dos bichinhos. Se você não limita a procriação e comércio legal para os criadores cadastrados no Ibama, você evidentemente amplia a oferta legal de pássaros para o crescente mercado de quem aprecia o canto, e isso está forte. Se você tem a normativa reduzindo a oferta acontece o inverso: esse pessoal vai buscar na natureza, e isso é que é pior. É preciso ter essa sensibilidade”, argumenta.

Laércio Lima defende uma proposta para a preservação de espécies em extinção entre pássaros. “O governo tem de incluir na regra a exigência de que o criador cadastrado, legal, destine 3% de seus pássaros com anilha (registrados) para o órgão fazer a readaptação logo após a fase do filhote e para o governo soltar esse volume na natureza. Seria fantástico o repovoamento para os casos de extinção e milhares de criadores participariam com amor dessa ação. Ao invés disso, criminalizam nossa atividade e prejudicam a natureza”, propõe.

 

Funileiro trabalha ao som dos picharros

A funilaria de Odair José Martins tem ruídos muito além das batidas do martelo na lataria e do som da solda durante o trabalho. O teto de seu local de trabalho conta com picharros e coleirinhas. O hábito de ouvir o canto desses pássaros foi introduzido pelo sobrinho, Augusto dos Santos, que participa com frequência de torneios de canto na cidade.

“Eu vou sempre aos encontros sediados no clube da Polícia Militar, na região do antigo Country Clube. Todo domingo eu estou lá porque encontro criadores e aprecio os picharros e curiós cantadores. Faz quatro anos que participo desses encontros”, conta Augusto.

O tio, proprietário da funilaria, explica que, ao contrário do que o leigo imagine, o barulho no ambiente de trabalho estimula o canto. “Na verdade, quanto mais barulho do ambiente, mais eles cantam. E se você colocar um rádio com música aqui na funilaria eles cantam mais ainda. Quando ligo o compressor, aí que o picharro canta mais”, garante Odair. 

Segundo ele, um quilo de alpiste de boa qualidade chega a custar R$ 30,00, dependendo dos acréscimos de “suplementos”. Um pacote comum sai por R$ 3,00. “Isso dá para um mês de consumo”, diz.


Serralheiro  casado  com curiós

Ele trata filhotes na mão, “conversa” com alguns de seus “filhos de criação” com grunidos específicos, obtém resposta dos “amigos mais próximos” que estão nas gaiolas e consegue estimular algumas fêmeas de curiós ao ritual do acasalamento com gestos e ruídos. O serralheiro Laércio de Souza Vieira já perdeu a mão no trato com a madeira há cinco anos, tendo trocado o ofício pela relação de paixão com os pássaros criados em cativeiro.

“Eu sou aquele grupo menor de brasileiros que ganha seu sustento e da família com o que ama fazer, criar e cuidar de pássaros. Não sei fazer outra coisa a não ser estar com meus curiós”, revela.

E a família teve de se adaptar. A lida com os pássaros desde menino alcançou tal abrangência que quase todos os cômodos de sua residência, na Vila Industrial, são tomados por pássaros pendurados em gaiolas nas paredes. A exceção é o banheiro, a cozinha e o quarto. Até um canto do salão de beleza da esposa, em um dos cômodos, tem curiós.

Mas não é só isso. Léo já contabiliza mais de 400 bichinhos em sua criação voltada ao comércio. Dois terrenos da família também receberam instalações. A criação comercial atingiu tal dimensão que ele construiu três compartimentos de 12 metros de comprimento por dois de largura em alvenaria específica para abrigar curiós. “Eles têm hábito diurno, gostam do calor e há um processo bastante específico de comportamento para a formação do canto, por indução com um aparelho com o canto ideal de competição, o local para galada (acasalamento) e o cuidado com os filhotes e depois o pássaro adulto. Tem de viver 24 horas à disposição dos curiós”, comenta.

A criação é cadastrada no Ibama, como exige a legislação, e todos os pássaros contam com anilhas (marcações) de identificação. A limpeza de gaiolas acontece a cada dois dias e informações sobre encontro de cantos e os exemplares da criação estão na internet (site: criatoriocarrapicho.com.br).

“O criador de curió ou outro pássaro de canto organizado não tem como ficar fora de sua casa mais que três dias. E se ele for viajar, tem de ter alguém para não descuidar do trato”, comenta.

 

Da postura à galada

O criador conhece sua coleção por nome e não confunde os cantos entre dezenas de gaiolas. Para o leigo, é tudo muito parecido, igual em muitos casos. Mas detalhes na entonação do canto e, claro, nos trejeitos do curió, fazem a diferença para Léo.

“Eu aprendi a lidar com os pássaros no mato, na época em que podia caçar. Eu trato o filhotinho na mão desde o primeiro dia, e com cinco dias de vida ele sai da mãe e é tratado em separado. O que eu mais gosto é tratar o filhote na boca. O curió faz de três a quatro posturas (botar ovos) por ano, com dois ou três ovos cada uma. Em média eu cuido aqui, desde o nascimento até a criação, com o nascimento de oito passarinhos por fêmea/ano”, cita.

Léo não desgruda os olhos das gaiolas. Uma a uma, verifica a situação de machos e fêmeas todo dia. “Esse ritual é fundamental. A fêmea fica no cio só por três dias e a identificação é praticamente visual, de comportamento. Ela começa a mexer com ramos para montar o ninho, a parte de trás fica mais rebaixada em relação ao corpo para a galada”, descreve.

Os pássaros chegam a viver 30 anos, segundo o criador. “Mas tem muito criador que usa remédio como preventivo e isso intoxica o bichinho. O fígado é pequeno e sensível a tantos remédios. Sou a favor do remédio só se ficar doente. O tipo de semente e a diversificação com qualidade também é essencial e o trato, a lida no dia a dia”, menciona.

Durante o preparo para o canto em uma sala específica, os curiós ficam seis meses ouvindo o som de um aparelho. “O pássaro aprende por indução e desde pequeno ele assimila o canto considerado ideal para os torneios. Então ele não copia o canto do pai e desenvolve o seu, mas a partir do que ouve, e isso pode fazê-lo um campeão com estilo próprio”, arrisca.

Léo contesta quem diz que os filhotes ouvem. “Eles reagem pelo tato, pelo ruído que a pisada da mãe faz na borda do ninho sensível. Pode assobiar para o filhote, ele não levanta a cabeça para se alimentar. Mas a mãe senta na borda do ninho e eles identificam, mesmo com os olhos fechados. Quando pequenos, os pais os protegem dos predadores”, argumenta.

Territorialistas, os curiós não permitem que invadam seu território. “O macho dá a vida pelo filhote até seu crescimento, mas bota ele pra correr quando ele atinge a fase adulta. Cada um tem de estabelecer seu território. O espaço de território é de uns 300 metros ao redor de onde ele e a fêmea escolheram para viver. A fêmea costuma servir a somente um macho durante sua vida para acasalar, mas logo em seguida à galada, que dura dois segundos, o macho sai em disparada, porque se ficar a fêmea bate nele. É o mundo animal”, finaliza. 

 

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