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Mariza Bianconcini Teixeira Mendes
| Tempo de leitura: 4 min

Jabbour, você viu que eu parei de enviar artigos para o JC, e nunca mais conversamos. Eu andava desanimada com o panorama político da cidade, não encontrando nada de novo ou mesmo interessante no nosso jornal. Mas hoje (04/11/2013), o seu "meio artigo", na página 3 do Segunda-Feira, despertou a atenção do meu marido, ele riu, e me chamou pra ver a "piada". Eu disse que o humor ligado ao cinismo era, algumas vezes, a alma do bom jornalismo. Na verdade não era uma mera gozação, mas uma obra poética ligada ao concretismo dos anos 1960-70. Acho que você teve uma epifania, um vislumbre genial: criou metáforas não só com palavras, como no título e nos parágrafos, mas também usou o espaço da página, como faziam os poetas concretistas, para desenvolver o tema do texto. Se o tema era a "meia jornada" dos médicos de Bauru, você usou apenas metade do espaço que o jornal lhe proporcionava. Estava bem concretizado o tema, que é sempre abstrato, segundo a teoria semiótica do discurso.

A partir do segundo parágrafo, seu humor ficou mais ácido e as críticas foram mais diretas e mais ferinas: o seu cinismo poético de jornalista perspicaz aprimorou-se e deu asas à imaginação. Mas os leitores devem estar pensando que quero apenas elogiar o uso que você fez do plano da expressão, como se fosse coisa de analista do discurso. Não, vou agora ao plano do conteúdo, que é sempre o mais importante. Você conseguiu falar do assunto em destaque, brincando, mas com uma seriedade fina e profunda até o fim, o que me levou a escrever este artigo de fundo para a seção Opinião. E todos vão saber por que fiquei tão sensibilizada com o seu texto.

Talvez ninguém saiba onde e quando surgiu essa idéia de que os médicos funcionários do antigo INPS deveriam atender a 16 pacientes numa real meia jornada (4 horas ? 15 min. cada). Mas o contrato foi mal feito ou houve má fé, porque os médicos acharam que o essencial era atender os 16 e não ficar as 4 horas determinadas. Começaram a fazer os atendimentos em duas ou uma hora e iam embora. Parecia lógico, mas não era, pois muitos pacientes agendados chegavam quando o médico já tinha ido embora, e também parecia que ninguém ligava pra isso, muito menos a imprensa. Por que será? Medo da poderosa classe médica?

Tomei conhecimento disso tudo em 1984, quando o prefeito Tuga Angerami, em seu primeiro mandato, chamou o amigo dr. Davi Capistrano para ser o secretário de Saúde. Ele vinha de fora e tinha uma ideologia política diferente da pretensa elite social da cidade. Houve uma reação negativa à sua vinda, principalmente por parte dos médicos locais. Além de lançar o plano dos postos de saúde da periferia, que deu certo e continua até hoje, o novo secretário, um forasteiro, começou a fiscalizar a jornada dos médicos dos novos postos. E para obter apoio dos bauruenses, criou um Conselho de Saúde, do qual eu fazia parte, por indicação da Apeoesp.

Como professora, fui logo nomeada secretária, aquela que faz as atas, mas também pode interferir nas decisões, mesmo que fosse um conselho não deliberativo. Também havia alguns médicos e membros indicados por sindicatos e associações de bairros. Eram interessantes as reuniões e não havia muitos confrontos. Mas um dia apareceu um médico que não fazia parte do Conselho e não sei se fora convidado por alguém. Mas afinal ficou claro que ele queria me enfrentar e me perguntou se entre os professores não havia alguns desonestos. Falei que sim, como em qualquer carreira, mas nenhum podia chegar atrasado ou sair antes do final das aulas. O tempo esquentou, houve vários palpites e minhas anotações para a ata sumiram.

Antes da próxima reunião, todos, recebemos pelo correio um exemplar da ata, que não era eu que tinha feito. No início da sessão seguinte, pedi a palavra e disse que aquela ata não tinha sido feita por mim e que, em minha experiência, eu nunca vira uma ata como resultado de conversa com a pessoa que deveria ser criticada por seu comportamento na reunião anterior.

Como vocês já estão concluindo, tenho esses médicos (há honrosas exceções, é claro) até hoje atravessados na minha garganta. E ainda me pergunto, por que há 20 anos a imprensa não deu nenhum palpite na questão e agora lança críticas quase todos os dias, se a situação política era a mesma de hoje: um secretário de Saúde, que é médico, vem de outra cidade e tem ideologia política diferente da maioria dos médicos e políticos locais. De onde vem a prepotência dos médicos de achar que são funcionários públicos diferenciados e privilegiados? Eu poderia contar muitas outras coisas, mas por respeito ao mestre jornalista e poeta concretista, paro por aqui, dando-lhe mais uma vez os parabéns.

A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é doutora em análise semiótica dos discursos

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