Admiro as pessoas que sabem usar as palavras e comunicar suas verdades, mesmo duras e antipopulares. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, é um desses indivíduos que sabem usar verbos crus, verdadeiras setas crivando o alvo. Confesso ter tido algumas decepções recentes causadas pelo nobre jurista, quando, por exemplo, da ocasião em que recebeu rudemente um repórter no exercício de sua profissão, dirigindo-lhe termos ásperos. Afora esse incidente, Barbosa tem se mostrado um paladino da justiça e um defensor irretocável da ética, especialmente no episódio do mensalão.
É, porém, outro o foco deste artigo, em que pretendo referir-me especificamente a uma palestra feita pelo ministro a estudantes em Brasília, criticando o sistema político brasileiro. "Temos partidos de ?mentirinha?", disse ele. "Não nos identificamos com partidos que nos representam no Congresso". Como assim? Perguntaram os mais raivosos, como se tivessem ouvido alguma besteira. A declaração foi "desrespeitosa", disse o presidente da Câmara. Não, senhor presidente, foi verdadeira, corajosa. Poucos são os brasileiros que, ao depositar seu voto na urna, estão cientes das intenções e dos projetos do partido do candidato escolhido.
Barbosa, fazendo uma análise do sistema presidencialista, foi mais além dizendo que "tampouco esses partidos e seus líderes têm consistência programática ou ideológica. Querem o poder pelo poder." É difícil ouvir a verdade? O senador do PT do Acre não gostou nadinha do que soube e vociferou: "Acho que essas declarações não ajudam o país a melhorar." Ah! não? O que ajuda, então? Seria a omissão? Incomoda-nos a forma como os partidos políticos brasileiros se comportam. Perderam o rumo e só se preocupam em disputar as eleições e ocupar espaços nas esferas do poder. A hipocrisia sempre foi o motor da moral pública. Millôr sabia disso, por isso escreveu que o homem colocou tudo o que é falso e traiçoeiro nos animais, como as lágrimas de crocodilo, o riso da hiena e o canto das sereias. É que, hipocritamente, abraçamos a bobagem rousseauniana de que o homem nasce bonzinho, mas, é a sociedade que o estraga.
Além dos partidos, Barbosa também criticou o que considera a submissão do Congresso ao Poder Executivo: "O Congresso é inteiramente dominado pelo Poder Executivo. As maiorias, as lideranças do Executivo que operam fazem com que a deliberação partidária do Congresso seja do interesse do Executivo." Alguma dívida? Se você disser que não é bem assim, você é um mentiroso. A vida republicana, se não quiser ruir, exige um equilíbrio saudável entre os três poderes. Esse imiscuir-se de um no espaço do outro compromete o eixo de sustentação de nosso tecido político. É, por acaso, insuspeita essa indicação de ministros pelo Executivo para comporem o STF? Perdoe-me a comparação um tanto tosca, mas acha, porventura, que alguém vai colocar raposa para tomar conta do galinheiro? Claro que não. A escolha não deveria seguir outros parâmetros como, por exemplo, um concurso regido por uma banca de notável saber jurídico? Não seria mais ético?
Fale, sim, Joaquim Barbosa. Precisamos de sua verdade e de seu dedo em riste apontando as mazelas do regime. Quando o cidadão não se insurge contra o erro ou a distorção dos fatos está assinando um atestado de covardia. Qualquer forma de totalitarismo está sempre à espreita de uma brecha para sobreviver. Essas oportunidades são sempre fornecidas pelas hordas de hipócritas, covardes, inseguros e medíocres que povoam o mundo da política. No conceito da verdade não há lugar para o medo.
Dra. Maria da Glória De Rosa