Polícia

Bullying extrapola os muros da escola e vira caso policial

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

“Gordo, barril e baleia”. São os apelidos que um menino de 9 anos relata estar recebendo há cerca de dois meses. O pior é que tudo ocorreu em pleno projeto social, onde a vítima não quer mais ir. O caso saiu do ambiente interno e foi parar na polícia. Visto como uma brincadeira por anos e mantido em silêncio, o bullying fica cada vez mais em evidência. Prova disso é que, semanalmente, o Conselho Tutelar de Bauru registra três novos casos, em média.

A situação mais recente ocorreu no Ferradura Mirim. O menino se manteve quieto por meses. “Ontem (anteontem), ele tomou um tapa de seu ‘amiguinho’ e acabou desabafando. Ele contou tudo. Na verdade, não posso chamar de ‘amiguinho’. Se fosse amigo, não fazia isso. Eu nunca imaginei”, conta a mãe, de 30 anos.

Agora, porém, ela relembra os sinais que são tão comuns a tantos outros casos. “Analisando agora, vejo que meu filho realmente andava bem triste. Ele teve uma perda quando era criança e vai ao psicólogo para superar isso. Notamos que ele perdeu toda essa evolução de tratamento”, relata.

O boletim de ocorrência (BO) aponta que o menino que estaria proferindo os xingamentos até pediu desculpas. Mesmo assim, ao ver a situação do filho, a mulher resolver fazer o registro, que foi enquadrado como não criminal.

Casos assim são cada vez mais comuns. “Os alunos aterrorizam outras crianças”, conta a presidente do Conselho Tutelar 1, Adriana Providello. “Por semana, a média é de dois ou três registros”. Nesse montante, entram ainda casos de violência no ambiente escolar, como o problema recente que resultou em fratura em um aluno (leia mais abaixo).

O bullying começa a se tornar mais frequente a partir dos 9 anos. “Quando chega na adolescência, isso piora muito. E podemos afirmar sem medo de errar: o bullying ocorre em toda e qualquer escola”, comenta Providello.

Ela afirma que o número de registros aumenta a cada dia. Contudo, a maior divulgação do tema pode ser um dos fatores disso. “Antes, não se falava em bullying. Como as pessoas começaram a entender o que é isso, começaram a aparecer os registros”.


Brincadeira?

Ainda hoje, discute-se muito a linha tênue entre o que é uma brincadeira de crianças ou jovens e o que é o bullying. Especialistas apontam que há realmente banalização do conceito, porém, Adriana Providello deixa claro que a situação é caracterizada por “qualquer atitude causadora de vexame a uma criança, prejudicando o desenvolvimento e a autoestima”.

Mas qual seria a solução para o bullying? A presidente do conselho acredita que o trabalho principal precisa focar tanto os alunos quanto seus pais. “Tem que haver um trabalho preventivo nesse sentido. Os pais precisam acompanhar seus filhos mais de perto. É um resgate de valores que precisa ser feito. É preciso resgatar o respeito”, completa.

A quem enfrentar o problema, Providello recomenda recorrer primeiramente à escola. Caso a situação não seja resolvida, a situação pode ser encaminhada a órgãos como o Conselho Tutelar e até a polícia.

 

Serviço

O Conselho Tutelar de Bauru fica na quadra 1 da avenida Alfredo Maia, sem número, e atende de segunda a sexta-feira das 8h às 16h. Os telefones para contato em dias comuns são (14) 3227-3339 e (14) 3227-3499. Aos sábados, domingos e feriados, o serviço funciona por meio do (14) 3222-6308 ou (14) 8818-9264.


Outro caso

Em abril, outro caso de bullying foi parar na polícia. Na ocasião, familiares de uma aluna de 13 anos de uma escola municipal de Bauru afirmaram que a menina era alvo de constantes agressões verbais.

Conforme o JC divulgou, a menina alegava não ter mais vontade de ir à aula. Além dos xingamentos, mensagens eram deixadas no quadro negro e no banheiro da escola. Outras ofensas também teriam sido postadas na Internet.


‘Brincadeira é quando todos riem’

Apesar de os casos recentes não terem ocorrido em escolas da rede estadual, o governo do Estado tem políticas para coibir o bullying. Prática que, para o coordenador de Proteção Escolar da Secretaria da Educação, Felippe Angeli, está longe de ser apenas uma brincadeira. “Brincadeira é quando todos estão rindo”, aponta.

Ele, contudo, reconhece que houve uma banalização do termo. “Já ouvi o absurdo de um político dizendo que estava recebendo bullying da oposição. O bullying de verdade é realmente algo muito preocupante. Ele pode ter consequências drásticas”.

Hoje, ele destaca que há outro potencializador da ação: as redes sociais. “A perseguição na rede social nunca mais sai de lá. Então, torna o problema ainda maior”.

Por isso, o Estado desenvolve alguns programas para tentar combater todo tipo de bullying. Ele aponta que as escolas precisam estar preparadas para lidar com a questão. Nesse sentido, coloca como fundamental a questão do professor-mediador, que recebe treinamento para trabalhar com esses conflitos.

“Além disso, temos uma parceria com um canal de desenho animado que trata sobre o tema bullying. No ano que vem, iremos distribuir um kit também. Este ano, já trabalhamos com uma política parecida, distribuindo um jogo de RPG nas escolas. É uma maneira de todos se colocarem no lugar do outro”, completa o coordenador Felippe Angeli.


Briga entre alunos termina em fratura

O contexto escolar, algumas vezes, não se restringe ao bullying. E a violência é algo que não está limitada em determinadas classes sociais. Prova disso foi uma confusão entre dois alunos em um colégio particular no Jardim Estoril. A situação resultou em uma fratura em um menino de 11 anos.

O caso ocorreu na tarde de anteontem e o registro foi feito pelo pai da suposta vítima. A confusão teria começado após o filho dele ter arremessado uma bolinha de pingue-pongue contra um dos colegas de classe. O garoto atingido não teria gostado da ação e corrido atrás do menino. Ao alcançá-lo, ele teria conseguido desferir um chute. O golpe provocou uma fratura no antebraço do garoto.

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