Articulistas

Universo escondido

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Fui a um inesquecível festival de música há 25 ou 27 anos. Fui com um amigo, não lembro quem. Lembro de ter ficado no meio do ginásio de esportes, olhando para o palco, olhando para as meninas, esperando as apresentações.

Uma banda de um bairro vizinho iria tocar, não lembro o nome. Mandaram bem, guitarra, baixo, bateria, voz juvenil. Acho que a música se chamava "Grito suburbano". Bem, mas o festival também tinha gente de fora. Não lembro bem.

Sei que subiu ao palco um cara com violão e outro com sax. Começaram. Arrebataram. Fui imediatamente conduzido para dentro da canção. Lembro de ter comentado: "Vai ganhar". E assim foi, para o meu convencimento feliz: acertei.

Daquela noite em diante, nunca mais ouvi a música. E até pouco tempo, não sabia mais nada sobre seu autor e intérprete. Mas, incrível!, letra e melodia jamais saíram da minha memória.

Do nada, esses dias, digitei o nome: Carmo Soá, também artista plástico em Niterói. Fui encontrá-lo no Facebook. Em outros tempos analógicos seria inimaginável pensar em algum contato distante com retorno tão imediato.

Fiz, portanto, questão de "devolver" a letra da canção a seu legítimo dono. Carmo logo respondeu com recíproco entusiasmo: disse ter se emocionado porque nunca gravou a música em seus CDs, não imaginava que alguém ainda se lembraria dela, etc. Contou que a compôs "para um amigo que morreu cantando, Pedro Américo".

Eu sigo sem lembrar quem era o amigo de adolescência que comigo estava no festival. Ainda chego lá: como se vê, memórias afetivas tardam, mas não falham.

(Ah, a música é "Universo Escondido". "Vê lá, se não esquece, de olhar o tempo / Ele não envelhece, mostra sua prece / Em cada rastro de estrela / Em cada luz que incendeia / A claridade da clareira / A embalar os corações cheios de frio / E um universo, tão escondido / Já passa a ser meu melhor amigo.")

João Pedro Feza é editor executivo do JC

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