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Complexo de Vira Lata

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 4 min

Quando o Brasil enfrentou a Espanha no sorteio do País que sediaria a Copa do Mundo de 2014, torci para que o País europeu fosse o predestinado. Nosso País equiparou-se pretensiosamente à Espanha nas condições de atender as exigências da Fifa para receber 500 mil pessoas, mais da metade torcedores estrangeiros, embora não estivesse nem de longe preparado material e financeiramente para isso. Já a Espanha haveria de pensar apenas nos detalhes de uma estrutura praticamente apta a acolher o imenso público da grande festa do futebol mundial.

Não era a ocasião para cogitar gastos volumosos, trocando os prioritários pelos supérfluos. Aqueles sim, com supino proveito poderiam ser aplicados nos serviços públicos básicos inexistentes ou deteriorados.

Um País detentor de serviços públicos precários, com boa parcela da população sobrevivendo de migalhas doadas pelo governo, sofrendo endemicamente com a escassez de alimentos e medicamentos; preservador de um quadro nordestino chocante que se repete todo ano no período mais intenso da seca, enfocando o sofrido sertanejo desesperado ao acompanhar a morte lenta do pequeno rebanho de gado sucumbido pela fome e sede, enquanto a televisão conduzia até ao agricultor da mesma região do País mostrando o vergonhoso desdém ao caboclo que tem a geração renovada dentro de vida miserável, desorientado sobre o que fazer para salvar sua família do flagelo da seca.

Mas nem tudo está perdido. A solução viável saiu de antigo discurso político e levou um sopro de esperança na correnteza das águas do Rio São Francisco com sua ramificação por um vasto território castigado pela seca, mas a insensibilidade e irresponsabilidade do governo central fez de uma obra redentora da cruel aridez, mais uma longa pausa de menosprezo, deixando grande parte do aqueduto construído a marca de outras obras relegadas ao criminoso abandono.

A obra do PAC está atrasada por falta de dinheiro, alega o governo eternizando o secular drama da seca do nordeste. Entretanto, diz o mesmo governo, não falta dinheiro para concluir as majestosas arenas de futebol, edificações bilionárias a impressionar os visitantes, principalmente o estrangeiro que nelas verá o espelho de um País próspero, matriz inesgotável de produção e exportação de craques de futebol. Os estádios esconderão dos visitantes a verdadeira cara do País dominado por políticos indiferentes com a sorte do povo que os elegeram ilaqueados pela promessa salvadora.

Um País que se jacta estar na vanguarda da produção anual de grãos, sem possuir armazéns à estocagem do vegetal, tampouco, estradas de rodagem para o transporte ao porto de exportação. Será perda de espaço escrever sobre a saúde pública dada a notoriedade do maior bem da vida simplesmente inexistir em boa parte do País.

Ainda é desconhecida a fórmula de como resolver ou mitigar o volume da grande tragédia causada pelo crack propiciando cenas promíscuas entre crianças, jovens e adultos, vasculhando no meio do lixo sobras da droga, porém, conhecida é a multiplicação do número de viciados e da preguiça do Estado em arrostar o problema de frente, no encontro da solução definitiva à impedir o lento suicídio em massa de desgraçados que só encontraram oportunidade no vício.

Como não bastasse o desfile de miséria e horrores mostrado na imprensa diária comovendo os verdadeiros brasileiros, a violência e o crime organizado desafiam a segurança pública levando nítida vantagem sobre ela porque quem age sem regras não teme a morte nos combates habituais com a polícia, mas os milicianos, com justo receio de transpor a sutil barreira entre o lícito e o abuso de poder, sofrem com a desigualdade atuando na repressão.

Os combates entre a polícia e os delinquentes tiveram início em junho e os bandidos disfarçados em baderneiros não mostram cansaço, ao contrário, deixam acreditar que a criminalidade prosseguirá espalhando pânico nos estádios na Copa. O País não só precisa perder a síndrome do Vira Lata na questão do transporte público como afirmou a Presidente da República ao anunciar um crédito de 33 bilhões de reais ao setor da capital paulista para os próximos 30 anos, como também, deixou passar a hora de socorrer os demais serviços públicos dando-os a devida decência para orgulho de um País com inflação controlada, PIB dentro da meta, bolsa família expandida, grandiosa transposição da classe D para a classe C, e outras miragens exaltadas pelo governo.

Alfredo Enéias Gonçalves d´Abril, professor universitário, aposentado

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