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Família que mora no vestiário de distrital ganha perspectiva

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

Iago e Rosemeire em vestiário de distrital: ocupação e improviso depois de incêndio

O casal Iago Felipe de Oliveira, 40 anos, e Rosemeire Aparecida Lopes Jordão, 46 anos, transformou o vestiário do Estádio Distrital Edson Pereira Leite, na Vila Santista, em sua moradia. Iago e Rosemeire sabem que ocupam irregularmente o Edson Leite. Porém, o distrital foi a melhor alternativa após verem o imóvel que moravam ser consumido pelo fogo.

Eles comemoraram ontem ao saber que a Prefeitura de Bauru irá ajudá-los a recomeçar a vida (leia mais abaixo). “Vai começar o Natal bem. Mais feliz e melhor que isso não dá”, comemora Rosemeire.

Ao saber da possibilidade de integrar uma cooperativa de reciclagem, Iago abriu o sorriso. “É um grande passo”, define.

A diarista Rosemeire conta que a casa de madeira em que residia com Iago, no Jardim Europa, foi consumida em um incêndio que destruiu os móveis e também o carrinho usado por Iago para tirar do lixo parte do sustento do casal. Rosemeire conta que trabalha como diarista uma vez por semana em um restaurante e em uma casa.

O casal se abrigou há sete meses no Edson Leite, interditado pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) após a morte do caseiro e diversos atos de vandalismo no local público.

Atualmente somente os três vestiários resistiram à sequência de depredação do distrital da Vila Santista. Rosemeire assume que provavelmente uma fagulha da brasa do seu fogão à lenha tenha provocado o incêndio que consumiu o imóvel de madeira que residia com Iago. Ambos são bauruenses. Rosemeire conta que pagava aluguel, mas a proprietária não quis reconstruir o imóvel. “Não acho mais ela”, relata.

Apesar do incidente, o casal tocou a vida. O vestiário 1 do Edson Leite virou sala de estar, com três sofás, poltrona, TV e mesa de centro. Em um canto fica a cama de casal. Em um boxe foram instalados os móveis de cozinha e outro funciona como banheiro. Tudo arrumado da melhor forma possível. Rosemeire prepara as refeições do casal em um improvisado fogão à lenha. Na cobertura externa do vestiário o casal adaptou um varal para as roupas.

O vestiário dos árbitros virou despensa, depósito e canil. Como o casal foi ficando no imenso distrital, adotou duas filhotes de vira-lata. A reportagem do JC foi recebida pela brincalhona Lili (pelagem preta). A cachorrinha Li (branca) é mais arredia e faz o trabalho de vigia latindo para avisar os donos da presença de estranhos. Rosemeire conta que encontrou as filhotes abandonadas na rua João Urias Batista, onde está o portão para os vestiários, na Vila São Francisco.

O vestiário 3 foi transformado em um depósito onde Iago armazena e separa os recicláveis.  Nesta semana ele conseguiu um carrinho. Até então, estava carregando o lixo nas mãos.


Gerente

Iago gerencia o que restou do distrital. Diariamente, abre o portão às 7h e fecha às 18h30. Ele conta que a garotada joga bola no campo. O casal tem planos de cultivar uma horta e já plantou mandioca ao lado do vestiário.

Iago admite que fez os “gatos” da luz e da água, porém pretendia regularizar a situação junto à Prefeitura de Bauru. Ele conta que chegou a comprar corrente e cadeados inclusive para fechar o portão principal do distrital, entrada que fica na rua Chiyo Otake, Vila Santista. Iago relata que, na última invasão do distrital, quando o casal já residia nos vestiários, foi levada até a porta de grade dos vestiários.

Um casal de quero-quero fez um ninho no campo e Iago negociou com os meninos para que deixassem os pássaros tranquilos com sua cria e jogassem futebol na direção oposta. O casal de pássaros circula em um canto com o filhote sem ser perturbado.


Armadilha

A realidade é que o casal Rosemeire e Iago zela pelo distrital Edson Pereira Leite. O lugar guarda armadilhas. Na última segunda-feira, Iago resgatou da tubulação um cachorro vira-lata que caiu no buraco. Iago conta que as pessoas furtaram até as tampas de metal que vedavam o sistema de águas pluviais que circunda o gramado. Ele conta que é enorme o risco de uma criança desavisada cair em um desses buracos.

O animal resgatado estava a cerca de três metros do nível do gramado. Na queda o bicho esfolou a pata esquerda dianteira e se abrigou no interior de uma das manilhas (tubulação). O cachorro urrava e rosnava com a aproximação de Iago, que teve que embrulhar o cachorro em um lençol, para então levá-lo para fora da tubulação. Ao ser solto, o cachorro parecia desorientado e debilitado. Deu uma volta em torno do vestiário e sumiu seguindo pela rua João Urias Batista.


Locutor bauruense

Em 2010, o distrital Edson Pereira Leite passou por obras com ampla reforma e foi liberado para a comunidade. A matéria do JC, de 23 de outubro de 2012, cita que em 2013 haveria nova reforma. O secretário de Esportes, Roger Barude, já solicitou à Secretaria de Planejamento (Seplan) o projeto da nova casa do caseiro para o distrital da Vila Santista. O bauruense Edson Leite foi um dos grandes narradores esportivos de todos os tempos.

No Dia do Radialista, em 7 de novembro, o site da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) prestou uma homenagem a todos os radialistas publicando um link de acesso ao áudio da narração do bauruense Edson Pereira Leite do gol de Pelé, na vitória sobre o País de Gales por 1 a 0, que valeu a passagem da Seleção Brasileira às semifinais da Copa do Mundo de 1958, quando o Brasil se tornou campeão mundial de futebol. Edson Pereira Leite nasceu em Bauru em 4 de julho de 1926 e foi locutor esportivo nos anos 50 e 60. Ele faleceu em 22 de julho de 1983.


Resgate social

O secretário de Esportes, Roger Barude, tem conhecimento de que o casal se acomodou no que restou do distrital. Ele conta que, desde então, busca uma solução para a grave situação de Rosemeire e Iago. Ontem, a Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) e a Semel definiram as medidas para inserir o casal bauruense em programas sociais da Prefeitura de Bauru.

A secretária do Bem-Estar Social, Darlene Tendolo, explica que imediatamente será feita uma avaliação social. A proposta é encontrar um imóvel para abrigar Rosemeire e Iago, com o pagamento do aluguel subsidiado pela prefeitura. Nessa solução há uma série de ações que visam reestruturar a vida do casal para que recupere sua autonomia. Darlene cita o passe de ônibus para o trabalho, a possibilidade de inserção de Iago em uma cooperativa de reciclagem, entre outras medidas sociais.

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