Ainda estamos na maior epidemia de DCNT (doenças crônicas não transmissíveis) do século, segundo a OMS e o controle está distante. Pelo menos, o mundo passou a enxergar que está engordando e começa, a passos bem lentos, a travar uma batalha contra o gasto excessivo de dinheiro, tentando aumentar o atual pequeno gasto de calorias.
Até 2012, não havia nenhuma menção a crianças nos consensos e diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, como na IV Diretriz Brasileira sobre Dislipidemias e Prevenção de Aterosclerose (2007). E não havia ainda diretriz de hipercolesterolemia familiar.
Nos últimos dois anos, começam a aparecer entre as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia - 2011 - 2013 (Pocket Book), alguns sinais de que temos que prestar mais atenção a uma das possíveis raízes do problema: as crianças. Vejam as recomendações de duas das mais recentes publicações da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Recomenda-se a determinação do perfil lipídico a partir dos 2 anos de idade quando:
? Avós, pais, irmãos e primos de primeiro grau apresentem dislipidemia, principalmente grave ou manifestação de aterosclerose prematura;
? Há clínica de dislipidemia;
? Tenham outros fatores de risco;
? Há acometimento por outras doenças como hipotireoidismo, síndrome nefrótica, imunodeficiência, etc.;
? Há utilização de contraceptivos, imunossupressores, corticoides, antirretrovirais e outras drogas que possam induzir elevação de colesterol.
Gordura de origem animal
Muito se fala sobre o colesterol, mas é importante conhecê-lo um pouco melhor. Então, vamos dividir o assunto em capítulos.
? O colesterol é uma gordura de origem exclusivamente animal. Assim, não temos nenhum óleo ou azeite com colesterol (banha de porco não é óleo);
? O colesterol é um componente importante de nosso organismo. Ele é base para a síntese de vitamina D, ácidos biliares, hormônios esteroides e da bainha de mielina (que é a "capinha" de gordura fundamental que "encapa" nossos nervos);
? O colesterol é produzido pelo fígado. Cerca de 2/3 de todo colesterol que temos no sangue vem do fígado. Apenas 1/3 desse colesterol deve vir de nossa alimentação;
? O colesterol é apenas 10% da gordura que recebemos na nossa alimentação. Os triglicérides são responsáveis pelos outros 90%. Assim sendo, uma dieta para redução de triglicérides é muito mais eficaz que uma para reduzir colesterol;
? O colesterol é composto de 3 frações: o HDL (bom colesterol - taxa boa é acima de 40), o VLDL (ligado aos triglicérides) e o LDL (colesterol ruim - taxa boa abaixo de 100 até 19 anos);
? O colesterol total alto pode ou não ser ruim de acordo com qual fração está aumentada. HDL aumentado é conseguido através de herança genética, de uma boa alimentação e de atividade física. LDL aumentado acontece por herança genética, alimentação inadequada, obesidade, hipertensão, sedentarismo, entre outros;
? O colesterol é transportado no nosso corpo pelo sangue por proteínas que se ligam a ele (LDL e HDL). O LDL colesterol é o que se deposita nas paredes dos vasos e o HDL é o que tenta trazer o excesso de colesterol do sangue de volta ao fígado para que seja eliminado através da bile;
? Epigenética: a partir de 2.001, quando houve a transcrição do DNA, foram descobertos genes que controlavam várias funções em nosso organismo, entre eles os reguladores do colesterol. A partir de então, desenvolveram-se estudos em duas áreas não tão conhecidas e divulgadas para o público mais leigo: a nutrogenômica - que estuda como alimentos, nutrientes e outros compostos bioativos ingeridos influenciam o genoma - e a epigenética - que estuda as mudanças na atividade do gene que não envolvam alterações na sequência do DNA.
Concluindo: a alimentação não consegue mudar o DNA, mas consegue influenciar sua ação e, uma vez modificada, essa informação pode ser transmitida geneticamente aos descendentes.
Aleitamento materno
Através de muitos estudos, avaliou-se a influência da alimentação durante os primeiros mil dias (9 meses de gestação e os dois primeiros anos de vida) na manifestação de genes. A alimentação adequada da gestante, pobre em gorduras e frituras, mas bem equilibrada com frutas e fibras pode inibir a manifestação do gene responsável pelo aumento do colesterol.
O leite materno é riquíssimo em colesterol. O organismo recebe essa informação e regula a produção do colesterol pelo fígado e quanto mais tempo dura o aleitamento, maior esse controle.
Assim, quando se suspende o aleitamento, e mantendo-se uma alimentação equilibrada especialmente nos dois primeiros anos de vida, mas também durante toda a vida, há um controle maior na produção do colesterol (importante como precursor de substâncias importantes no nosso organismo).
A não-oferta do leite materno, bem como uma alimentação irregular das gestantes e nos dois primeiros anos de vida, não regulam essa produção, fazendo com que o fígado se apresse em lançar o colesterol no sangue e mantenha sua alta "performance" nesse campo, aumentando, assim, as taxas dessa substância no sangue.
Isso explica a mudança do padrão de aumento de colesterol que teve um aumento de prevalência tão importante que fez com que a Sociedade Brasileira de Cardiologia incluísse, desde 2012, a pesquisa do colesterol como rotina em idades muito mais precoces (já a partir dos 2 anos de idade) nas suas duas últimas diretrizes (V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção Da Aterosclerose e I Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar).
Um estudo recente da Associação Médica do Canadá de agosto de 2013 concluiu que o comportamento alimentar inadequado em pré-escolares (3 a 5 anos de idade) pode ser importante fator determinante de aumento de LDL colesterol e de risco de problema cardiovascular, merecendo mais estudos para determinar ações de proteção.
* Moisés Chencinski é pediatra e homeopata