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O serviço porco!

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 2 min

Ele estava abalado! Apesar de ser um construtor "escolado", com mais de 30 anos de profissão, o que havia acontecido o deixara arrasado. Enquanto trabalhava, ia rememorando os fatos. Era como se estivesse vendo um filme. De terror, evidentemente!

Procurado por uma senhora que pretendia construir uma casa para morar, ele foi cauteloso. Viúva e morando sozinha, diziam que ela era minuciosa e exigente. Enfim, uma pessoa difícil, que desmentia com sobras aquela crença de que todos os gordinhos são afáveis e bonachões. As tratativas foram se arrastando. Quando chegaram a bom termo, depois de marchas e contramarchas, ele começou a construção. Se as suas obras sempre foram caprichadas, naquela ele extrapolou. E tudo deu absolutamente certo. Ela não encontrou qualquer defeito na casa, que foi entregue no prazo combinado. Enfim, foi um final feliz!

Entretanto, a felicidade durou apenas um mês: terminou quando ele foi informado, pelo telefone, que o vaso sanitário estava entupido. No dia seguinte, ao chegar ao local, a casa caiu, literariamente. No meio de tantos impropérios, uma expressão ficara gravada - ou cravada? - na sua cabeça: "Serviço porco". Ele não sabia se o estrago maior havia sido na sua dignidade profissional ou no seu amor próprio. Tendo removido o vaso sanitário, examinou-o cuidadosamente. E já estava quase naufragando na tempestade de humilhações e constrangimentos quando surgiu a tábua salvadora. Que não era uma tábua, mas uma calcinha (aliás, calcinha é apenas força de expressão. Na realidade, pelas dimensões da peça - daquelas feitas em casa, de tecido comum - o nome apropriado seria calçona). Exatamente isso que o caro leitor está imaginando: a referida peça entupira o vaso. Quando tudo já estava no lugar e devidamente testado, chamou a dona da casa e da calça. Ele não via a hora de dar-lhe o troco. Quando ela se aproximou, ele segurou a calcinha com as duas mãos, abrindo-a totalmente, e disse-lhe, alto e bom som: "Aqui está o serviço porco!". Ela ficou vermelha - não se sabe se de vergonha ou de raiva - mas não perdeu a pose: "Eu sou uma viúva honesta e exijo respeito. Não admito que alguém fale assim comigo!".

Ela estava exigindo exatamente aquele respeito que não tivera com um profissional competente e honesto. Enfim, são coisas da vida. Mas, com certeza, jamais ela acusará alguém de ter feito um serviço porco - não sem antes ter a certeza de que não fora ela própria a autora da "porquice"!

O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador de Opinião

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