Douglas Reis |
|
|
Estela Almagro, Rodrigo Agostinho, Rogério Romanek e Emanoel Tavares Costa Júnior, durante reunião de ontem |
Caso seja viabilizado, o anel ferroviário para contornar a cidade de Bauru desbancaria a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) como a obra mais cara da história do município. Estudo contratado pela América Latina Logística (ALL), apresentado ontem ao prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), aponta que a construção da estrutura custaria entre R$ 818 milhões e R$ 1,1 bilhão.
O alto valor parece afastar a possibilidade de concretização do contorno da malha férrea, mas, de acordo com o prefeito e com o representante da ALL na reunião, Emanoel Tavares Costa Júnior, o anel é essencial para garantir que a cidade não “trave” a partir de 2016 ou, no mais tardar, 2017.
Daqui a três ou quatro anos, a previsão é de que o tráfego de trens em Bauru cresça 2.700% para garantir o escoamento fruto da possível exploração do minério de ferro em Corumbá (MS) até o Porto de Santos, no litoral de São Paulo.
Atualmente, passam pela cidade 1 milhão de toneladas do material ao ano. Esse número deve chegar a 27 milhões de toneladas.
“A situação é bem complicada. A gente não sabe como vai ser porque esses trens de carga já causam muitos transtornos. É impensável imaginar esse aumento. A gente começou as conversas com a ALL no início do primeiro mandato. Agora, com esse estudo vamos correr atrás”, pontua Agostinho.
No próximo dia 27 de novembro, o prefeito e representantes da ALL entregarão, em Brasília (DF), o estudo ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério dos Transportes.
“Temos que ser rápidos porque, ainda este ano, o órgão deve apresentar à presidente Dilma [Roussef] quais são os projetos para que sejam definidos aqueles que receberão recursos para o ano que vem. E nós temos pressa”, avalia.
Agostinho aposta na articulação política para viabilizar o anel ferroviário. A vice-prefeita Estela Almagro (PT) participou da reunião de ontem e se colocou à disposição para as negociações junto aos ministérios.
O deputado federal Milton Monti (PR) também atua em favor da causa. Na edição de ontem do JC, ele revelou que o projeto não é isolado para Bauru. Para a exportação por meio da malha férrea, seria preciso construir anéis contornando também outras cidades da região, como Lençóis Paulista, São Manuel e Sorocaba.
“Se fosse Bauru sozinha, é algo que seria mais difícil. Porém, há esse interesse comercial. A exportação desse minério de ferro deve ser um interesse do próprio governo. Então, vamos atuar para ver se parcerias são possíveis”, apontou o parlamentar.
As vantagens
O engenheiro Rogério Romanek, da Acciona Engenharia, elenca as vantagens oferecidas pela construção do anel: minimização de conflitos urbanos; redução de acidentes; estrutura para a demanda de transporte e infraestrutura ferroviária; implantação de armazéns logísticos para uso intermodal em prol do desenvolvimento regional; aumento da velocidade das locomotivas de 20 para 45 quilômetros por hora, implicando na diminuição de custo; geração temporária de empregos; valorização imobiliária e eliminação de custos com sinalização.
A empresa de consultoria aponta ainda que o governo federal pretende investir no modal ferroviário 51,63% dos R$ 290 bilhões que serão destinados a infraestrutura de transportes até 2015.
Isso porque o Plano Nacional de Logística e Transportes tem como objetivo reduzir de 58% para 33% a participação das rodovias na divisão das matrizes de transporte. A ferrovia corresponde, atualmente, a 25%. A meta é que alcance 32% em 2025, visando o equilíbrio entre os dois modais.
O contorno de malha férrea já foi construído em cidades como Araçatuba (SP). As obras também estão em andamento em Araraquara (SP).
Quatro propostas
Duas linhas férreas cortam o município: uma vem de Corumbá (MS) e entra na cidade próximo à rodovia Bauru-Marília. A outra vem de Itirapina (SP) e chega ao Núcleo Octávio Rasi. Ambas se cruzam no pátio ferroviário e saem de Bauru pela lateral do residencial Lago Sul.
Contratada pela ALL, a empresa Acciona Engenharia traçou quatro possíveis rotas para o anel ferroviário (leia o mapa). Na primeira, seriam 30,5 quilômetros de trilhos ao custo de R$ 815 milhões; na segunda, 54,8 quilômetros a R$ 1,1 bilhão; na terceira, 40,4 quilômetros a R$ 818 milhões; e na última, 40,9 quilômetros a R$ 878 milhões. Emanoel Tavares Costa Júnior, assessor de Relações Institucionais da ALL, explicou que caberá ao Dnit a escolha entre uma das 4 alternativas elencadas pelo estudo.
Impasses
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), apesar de reconhecer a importância do anel ferroviário, ressalta que o material apresentado ontem se resume a apenas um estudo. “Não é o projeto e vamos ter que nos debruçar sobre ele. Mas isso não impede que a gente corra atrás para que o governo federal trate a obra como prioridade”.
Participou da reunião ontem o presidente da Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru e Região (Assenag), Afonso Fábio. “Nós vamos discutir os caminhos com a cidade de forma técnica e será essencial a participação da entidade”, diz o prefeito.
Uma das principais preocupações de Rodrigo passa pela questão ambiental. O possível contorno dos trilhos na zona sudeste (lado direito do mapa) corta a área de cerrado do município. “O anel passaria também por Áreas de Proteção Permanente (APP)”.
Outra questão, já na zona oeste da cidade, seria a proximidade do anel ferroviário a áreas ocupadas por bairros como o Santa Cândida. “São muitas questões, inclusive a revisão do Plano Diretor. Precisamos de mecanismos que barrem a expansão da cidade em determinadas áreas para que a ocupação não chegue até o anel e o problema volte”, exemplifica Agostinho.
Trilhos urbanos X transporte de passageiros
Para impulsionar a proposta de anel ferroviário, o prefeito Rodrigo Agostinho pretende licitar, no ano que vem, estudo que aponte alternativas para os trilhos que estão dentro da cidade. O vereador Roque Ferreira (PT) participou da reunião e criticou a possível retirada da malha. O prefeito garantiu que não há posições tomadas a esse respeito e que outros estudos ainda serão feitos. “Tudo vai depender de estudos técnicos. Pode ser que sugiram construir uma grande avenida”. Estela Almagro (PT) observou que o grupo de trabalho formado por membros do governo e de movimentos sociais considera fundamental a manutenção dos trilhos como alternativa para locomoção dos trabalhadores de Bauru, inclusive por meio do sistema de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
|

