Passados alguns meses desde as manifestações ocorridas nas ruas de dezenas de cidades brasileiras, deflagradas com o enfoque de rejeição ao aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, de R$ 0,20, parece que tudo vai voltando para dentro do baú do esquecimento, tão comum neste país. Segundo a NTU - Associação Nacional de Empresas de Transportes Urbanos, desde o início dos protestos, foram registradas noventa reduções tarifárias. Destas, quinze ocorreram em capitais, nove em regiões metropolitanas e sessenta e seis em cidades de pequeno e médio portes, representando uma queda média de 5% no valor das tarifas.
Não há como negar que essas manifestações significaram uma vitória do povo brasileiro, tão acostumado com decisões de gabinetes, enfiadas goela abaixo da população. Evidentemente que não foram os vinte centavos os reais motivos para o levante popular. Esses centavos foram apenas a gota d?agua que fez derramar o "copo". Não nos iludamos, pois não há "almoço grátis". De algum lugar deverão sair os recursos para compensar esta renúncia de valores.
O que o povo quer e necessita ? e é importante para o país ? é que ocorra uma verdadeira reengenharia do transporte coletivo urbano, para dotá-lo de qualidade, eficiência e eficácia.
Que qualidades do transporte coletivo são desejadas pela população? Ela quer acessibilidade, boa frequência de atendimento, tempos de viagem adequados, lotação confortável, confiabilidade, segurança, tecnologias e infraestruturas de transportes adequadas (BRT, VLT, faixas exclusivas, terminais, etc.), pontos de parada com conforto, informações amplas e disponíveis, comportamento adequado dos operadores, etc.
Estas qualidades são fartamente encontradas em sistemas de transportes de cidades europeias e americanas. É tudo uma questão de políticas públicas, desenvolvidas e fundamentadas na visão moderna de uma mobilidade urbana sustentável.
O país precisa de políticas públicas sérias, comprometidas com as necessidades da população e que transformem a mobilidade urbana em deslocamentos prazerosos e sustentáveis. É ilusão imaginar que o aumento médio de renda da população brasileira vá trazer mais qualidade de vida com a aquisição de automóveis e motos. Viver em uma cidade é como morar em um condomínio, onde o interesse coletivo deve prevalecer sobre o individual.
Nos condomínios, com algumas exceções, todos procuram se moldar ao modo coletivo de conviver, aceitando as regras aprovadas pela assembleia de condôminos. Para o bem-estar geral da coletividade, não é possível continuar com a política de Estado amplamente favorável à aquisição de veículos individuais. As cidades estão congestionadas, com viagens cada vez mais demoradas, falta de estacionamento, poluição, que geram um grande estresse em seus moradores. Elas estão parando!
Afinal, uma cidade desenvolvida e com qualidade de vida não é aquela em que o pobre anda de carro, mais aquela onde o rico anda de transporte coletivo. A ferramenta para fundamentar esta reengenharia nas cidades brasileiras já existe. Trata-se da lei no 12.587, de 3 de janeiro de 2012, que instituiu as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Basta coloca-la em prática. Vamos cobrar este compromisso junto aos nossos governantes.
O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, doutor em Engenharia de Transportes, professor associado da UFSCar e diretor de Engenharia da Assenag