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Quase

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

E quando a gente fica no "quase"? Meio do caminho, perto demais pra ser verdade, a um passo do paraíso. O destino adora tirar o doce, tem queda por brincadeira sem graça, acha graça em frustrar, e ri.

Felipe Massa faz hoje sua última corrida pela Ferrari. Foi também num GP do Brasil que deixou de ser campeão da temporada de 2008. Quem não se lembra? Ganhou a prova, mas segundos depois o acaso traquinas desintegrou o caneco que se materializava em suas mãos quando Lewis Hamilton ultrapassou Timo Glock e superou o brasileiro por um pontinho na última curva. Hamilton campeão.

Recém-lançado, o livro "O Drible", de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras), abre com descrição do gol que Pelé não fez. Aquele do lance desconcertante na Copa de 70 contra o Uruguai, mais do que um "drible da vaca" monumental, no qual "troca o caminho batido do gol pelo incerto que, como veremos, jamais faria". Nesse caso, contudo, o "quase" depositou o momento na eternidade. Mas sempre, nessa mesma eternidade, será um "quase".

O jornalista e guitarrista Cláudio Júlio Tognolli saiu do RPM às vésperas da banda estourar com o primeiro disco: "Revoluções por Minuto", de 1985, vendeu imediatamente mais de 300 mil cópias, segundo a gravadora. Cláudio toca a vida, feliz e realizado, mas, no campo do estrelato pop, foi "quase".

O "quase" é pergunta sem interrogação, bandeja sem o prato principal, aquele que deveria ter sabor de glória quentinha. "Quase" é o coadjuvante que rouba a cena, o penetra na festa da felicidade. Como o passar do tempo, de tão malandro e carudo, quase passamos a gostar dele.

Hoje o "quase" também é chamado de "só que não" na linguagem dos mais jovens. Continua impetuoso: coito interrompido, relâmpago de incerteza: e se? E se?...

(Desculpe, leitor: escrevo de casa e minha filha Laísla aparece para cobrar um passeio. Explico que estou "quase" terminando, mas ela não perdoa: "Quase não é resposta!" Está certa. "Quase" nunca é, filha. "Quase" nunca será.)


O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC

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