As pessoas da minha geração se lembram do exato momento em que soube do assassinato de Kennedy. No meu caso, estava na redação do jornal, na manhã daquela sexta-feira, iniciando o primeiro turno, quando o teletipo da Associated Press martelou com o alerta "Urgente" que presidente John F. Kennedy havia sofrido grave atentado em Dallas, Texas. Daí para frente a máquina foi se tornando cada vez mais "nervosa" e não parou mais de despejar informações, muitas desencontradas até que anunciasse oficialmente a morte e as repercussões no mundo todo. Lembro-me que tive uma sensação de profundo desgosto. O presidente norte-americano era um carismático midiático. Representava a modernidade depois de Truman, o de Hiroxima e Nagasáqui, e Eisenhower, o da guerra da Coréia. JFK era herói da II Guerra, ferido em ação. Casado com uma moça linda e aristocrata, dois filhos pequenos a compor o retrato da "família margarina". Ele representava a juventude no poder. Aparecia como o representante de um novo mundo, próspero e pacífico, capaz de redimir o "velho" do fracasso de uma política de hegemonia que arrastou a humanidade à hecatombe. Naquele dia os EUA perderam sua inocência. Como era possível na América a ocorrência de um fato dessa natureza, somente reservado às repúblicas bananeiras? Justamente no país mais próspero e seguro do mundo. O símbolo do ideal político interrompido de forma inesperada.
Dois dias depois do atentado o autor dos disparos, um louco obsessivo chamado Lee Harvey Oswald, conduzido pela escolta policial é morto por um dono de cabaré com ligações com a máfia. Tiro no estômago. Jack Ruby, algoz de Oswald era doente terminal de câncer e morreu sem nunca ter sido julgado. Brotaram teorias conspiratórias com os mais diferentes argumentos, inclusive numerológicos. Forças poderosas teriam agido, a mando de Fidel Castro. O lobby do aço, contrariado com a política de preços de Kennedy é que mandou liquidá-lo. O atentado poderia ter sido engendrado pelo próprio Estado-Maior. Por que o desfile numa limusine aberta, sem nenhuma precaução? Mais de 40 mil livros foram escritos sobre a morte de Kennedy, nestes 50 anos. Todos eles insistem na mitificação que começou mal as balas o atingissem na cabeça.
A excitação nunca passou de superficialidades. Do ponto de vista historiográfico, dos analistas incumbidos de esmiuçar a história do seu tempo, fora o espetáculo, John F. Kennedy não passou de um presidente medíocre. Falhou persistentemente em quase tudo. Autorizou a expedição à Baía dos Porcos, em Cuba. Uma tentativa infantil de derrubar Fidel Castro que acabou fortalecendo-o. Provocou a "crise dos mísseis", que quase arrasta o mundo a uma guerra nuclear. Instalou bases de lançamento na Turquia, com foguetes apontados para Moscou, o que obrigou Krutchev a fazer o mesmo em Cuba, com a América na mira dos mísseis soviéticos. Não conseguiu que o Congresso aprovasse as leis contra a segregação racial. A população negra não tinha acesso a empregos públicos, à universidade e, nos ônibus, pretos se sentavam nos bancos de trás. Só com Lyndon Johnson começaram a ocorrer transformações civilizatórias na sociedade norte-americana. Kennedy começou o conflito no Vietnã ao mandar as primeiras tropas para uma região fora da área de influência dos EUA. A guerra perdida custou um trilhão de dólares, milhares de vidas e muitos protestos nas ruas da geração beat. Segundo o historiador Seymour Hersh, Kennedy foi o mais corrupto dos presidentes do pós-guerra. O mais manipulador. Nixon era um amador perto dele. Viciado em sexo, teve muitas amantes, desde as estagiárias da Casa Branca onde "tudo era uma grande festa", até Marylin Monroe. Outrora um ídolo e um presidente invulgar, hoje medíocre e trapalhão.
O debate é estéril porque desmontar o mito é também explicar e reconhecer o mito. Tinha muitos defeitos, mas encantava as pessoas com seus discursos cheios de tiradas criadas pelo marketing: "Não perguntem o que a Nação pode fazer por vocês; perguntem o que vocês podem fazer pela Nação". JFK deixou um legado estilístico. Visão, idealismo, serviço, grandeza. Conceitos que hoje soam antiquados em uma época obcecada com o imediato e carente de referências. O mundo, hoje, não se pode dar ao luxo de prescindir dos mitos que, como Kennedy, convidam a todos a ser melhores, embora não tenham sido nada extraordinários. Guardemos a história. Conte-se a lenda.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC